13.6.03

MANHÃ DE JUNHO


Talvez, talvez sejam os últimos
dias. Se for assim, são um esplendor.
Apesar dos aviões da Nato despejarem
bombas e bombas no Kosovo, a perfeição
mora neste muro branco
onde o escarlate
da flor da buganvília sobe ao encontro
da luz fresca da manhã de Junho.
A beleza (não há outra palavra
para dizê-lo), desta manhã
é terrível: persiste, domina,
apesar dos aviões, mesmo com
bombas a cair e crianças a morrer.




Eugénio de Andrade

12.6.03

INDO PARA O LEITO





Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz;

Até que eu lute, em luta o corpo jaz.

Como o inimigo diante do inimigo,

Canso-me de esperar se nunca brigo.

Solta esse cinto sideral que vela,

Céu cintilante, uma área ainda mais bela.

Desata esse corpete constelado,

Feito para deter o olhar ousado.

Entrega-te ao torpor que se derrama

De ti a mim, dizendo: hora da cama.

Tira o espartilho, quero descoberto

O que ele guarda, quieto, tão de perto.

O corpo que de tuas saias sai

É um campo em flor quando a sombra se esvai.

Arranca essa grinalda armada e deixa

Que cresça o diadema da madeixa.

Tira os sapatos e entra sem receio

Nesse templo de amor que é o nosso leito.

Os anjos mostram-se num branco véu

Aos homens. Tu, meu Anjo, és como o Céu

De Maomé. E se no branco têm contigo

Semelhança os espíritos, distingo:

O que o meu Anjo branco põe não é

O cabelo mas sim a carne em pé.

Deixa que a minha mão errante adentre

Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.

Minha América! Minha terra à vista,

Reino de paz, se um homem só a conquista,

Minha Mina preciosa, meu Império,

Feliz de quem penetre o teu mistério!

Liberto-me ficando teu escravo;

Onde cai minha mão, meu selo gravo.

Nudez total! Todo o prazer provém

De um corpo (como a alma sem corpo) sem

Vestes. As jóias que a mulher ostenta

São como as bolas de ouro de Atalanta:

O olho do tolo que uma gema inflama

Ilude-se com ela e perde a dama.

Como encadernação vistosa, feita

Para iletrados, a mulher se enfeita;

Mas ela é um livro místico e somente

A alguns (a que tal graça se consente)

É dado lê-la. Eu sou um que sabe;

Como se diante da parteira, abre-

Te: atira, sim, o linho branco fora,

Nem penitência nem decência agora.

Para ensinar-te eu me desnudo antes:

A coberta de um homem te é bastante.




John Donne
TRATADO DO EGOÍSMO


Sucedeu-me nascer egoísta. Não é que me faltasse generosidade, mas também não sobrava e apesar de não me importar que os outros possuíssem, a verdade é que só sossegava se também eu possuísse. Fosse o alpista especial para dar ao canário sempre que não cantava com aquela vontade que nós humanos gostamos de ver num animal, mesmo que a não tenhamos a não ser para ouvir o pássaro cantar todas as manhãs com um trinar minimamente audível e agradável, substituindo o horrível despertador que penetrava paredes, furava canos e colidia com janelas, estilhaçando cabeças ensonadas logo àquela hora imprópria, estragando o dia a um prédio de 3 andares; fosse o bâton da Célia que era, na verdade, o seu único indício de beleza e que ela esfregava nos lábios com a sofreguidão de quem o sabe como qualquer pessoa que a visse do lado esquerdo, lado em que o nariz ganhava uma dimensão cruel, estranhamente mais saliente e o olho vesgo parecia saltar da órbita pisada e a bochecha excessivamente sardenta refulgia como um aquário fosco em que se vissem apenas pequenos pontos no lugar dos peixes; fosse o amor que até a vizinha do rés-do-chão ainda sentia aos 86 anos e do qual tanto alarde fazia quando eu bem sabia que o Sr. Adérito, 18 anos mais jovem do que a esposa, se demorava em cinemas pouco recomendáveis na companhia de colegiais à procura de maneiras de manifestar a sua rebeldia.
Até me rio sozinha quando penso no alpista e no bâton! Isto são coisas que se invejem? Mas a velha, mesmo enganada não o sabia e vivia a sua ilusão de amor eterno, e eu cobiçava secretamente ser traída... destruir aquela segurança era o primeiro passo a dar. Enviei uma carta batida à máquina ( anónima, como convém) indicando-lhe a morada do cinema e as sessões diletas do seu dileto maridinho. Passaram-se semanas e ela insistia em louvar as qualidades do paneleiro que tinha em casa, até que, como se a carta recolhida tivesse ficado esquecida a um canto e subitamente a visse quando limpava a jarra da dinastia mung, comecei a ouvir um arfar asmático do fundo das escadas e passos indecisos. A porta bateu violentamente, como se quatro braços humanos a segurassem e a arremessassem contra a parede e, por momentos, duvidei da sinceridade da velha, teria ela realmente a idade que com tanto à vontade propagandeava?
O Adérito nem voltou para casa. Eu não tinha amor, mas ela também nunca mais dele se poderia gabar. E foi então que o Alberto apareceu, substituindo o amor de mulher pelo amor de mãe.
Ela até podia ter as persianas mais impecavelmente limpas do bairro, mas eu já só lhe invejava essa dedicação saída do nada de um filho saído do nada amparando-a com nada, só com essa presença de amor que lhe iluminava a fronte cinzenta agora sorridente exibindo-se à vizinhança com o filho pelo braço, orgulhosa de um braço forte amparar o seu, acreditava ela, para sempre.
As paredes do prédio não existiam e assim pude acompanhar as exigências de dinheiro, dinheiro que a mamã dizia não possuir.
Os cheques que o carteiro teimosamente enfiava na minha caixa de correio e que eu sempre devolvia à caixa da velhota, chegaram ao conhecimento do Alberto através de uma entrevista que lhe solicitei alegando motivos de interesse para ambos. Cobiçava-lhe o dinheiro e o filho e descobri que ao 3º encontro, para além de cobiçar o dinheiro que eu sabia existir, o Alberto também já me cobiçava a mim. Felicidade! Redimo-me do meu pecado vislumbrando-o em outrem.
Atirou-se de uma janela, apesar de viver num rés-do-chão. E a polícia nem inquiriu sobre esse facto, uma ideia do meu Alberto. Levar a mãezinha ao pombal lá em cima com a intenção de lhe mostrar o pombo campeão comprado para competição para conseguir o tal dinheiro que precisava, lembra-se mãe?
Com o bâton que eu já possuía tingiu o passeio (onde já se viu uma matrona daquela idade pintar-se daquela maneira?), entornou alpista que eu já possuía e que albergava no avental por todo o asfalto e o amor que tinha pelo filho que a matou deixou-mo em herança e já o multiplicámos por 5. Afinal, pensando bem, não sou assim tão egoísta.