30.4.03

2





A OBRA AO NEGRO





À cabeceira dos doentes acontecera-lhe muitas vezes ouvir contar sonhos. Também ele tivera os seus. As pessoas contentavam-se, geralmente, em extrair dessas visões presságios às vezes certos, dado que revelam os segredos daquele que sonha; ele, todavia, pensava para consigo que tais jogos do espírito entregue a si mesmo tinham, sobretudo, a possibilidade de revelar a maneira como a alma se apercebe das coisas. Punha-se a enumerar as qualidades das substâncias que via em sonhos: a leveza, a impalpabilidade, a incoerência, a total liberdade em relação ao tempo, a mobilidade de formas de uma só pessoa, que faz que cada qual seja muitos, e vários se reduzam a um só, o sentimento quase platónico da reminiscência, o sentido quase insuportável de uma necessidade. Estas categorias fantasmais assemelhavam-se muito ao que os hermetistas pretendiam saber a vida de além-túmulo, como se o mundo da morte fosse, para a alma, a continuação do mundo da noite. Todavia, a própria vida, ao olhar de um homem prestes a deixá-la, adquiria também a estranha imobilidade e a bizarra arrumação dos sonhos.


Marguerite Yourcenar

29.4.03

MISERY





Pois é verdade, revi a obra-prima de Rob Reiner, o terrífico «Misery». Kathy Bates aterradora e James Caan sóbrio (lembram-se dele como Sonny, o filho mais velho e impulsivo de Vito Corleone em «O Padrinho»?). A evolução da personagem Annie (a enfermeira que qualquer um de nós gostaria de nunca encontrar pela frente) não se arrasta interminavelmente, é rápida e certeira, percebemos sem grande demora que Paul Sheldon teve a infelicidade de ser recolhido por uma lunática, a sua fã nº 1. Claro que a loucura da enfermeira se revela de forma mais evidente porque confrontada com uma «peripécia» por ela não esperada: a morte de Misery no manuscrito que Sheldon transporta aquando do acidente. Queimar esse e escrever outro com um final em conformidade com os desejos da protectora de Misery, eis a tarefa do escritor. Simplesmente o fim desejado por Annie, despoletará o seu próprio fim. E nem falta uma cena em que julgamos que a vilã está morta quando na verdade ainda mexe, por pouco tempo...
ODE AO SANGUE


Quisera ver o meu sangue a correr pelo chão:
A golpear o seu corpo de flor
- de solidão perdida e intolerável –
Para manifestar-se com a angústia
E poder chorar a perdição dos dias,
A cor áspera das minhas veias cediças.
Se pudesse vê-la sem ânsia
A queimar o ar malfadado, impenetrável,
Que move os tormentos secos da minha garganta
E aperta a minha pele incomparável;
Não as marés, as ervas antigas,
Toda a minha vida de eco incompreendido!


Quisera conhecê-la esplêndida para viver fora de mim,
Como um rio partido pelo vento,
Como a vontade que só a alma reconhece.
Não aguardarei por nada. Para que morada o ardor alheio
Sairá alguma vez
A observar a memória desabitada, sem paraíso,
A luz interminável.


Quisera estar nu, só e feliz,
Para arrebatar a sombra da morte
Como uma enorme e aziaga nuvem destruída.


Se um dia fôssemos estrangeiros,
Capazes de ouvir o murmúrio da erva como um sedento hábito
Peregrino,
Limpos do humor corrupto,
Cortaria as veias por amor
Para que se escutasse o seu fluir;
Para vestir meu corpo solitário
Com o fogo lânguido.


Mas não há-de chegar nunca esse tempo mágico,
Como não chega a felicidade
Onde não vive o esquecimento, a voz morta,
Já apagada.
Nem mar, céu, flor, mulher: nada.
Ninguém a viu levar a rosa vulnerável,
O deserto extraviado entre bocas inúteis.
Que duro silêncio a envolve,
Já não sei onde chega a vida
Ou quer abandoná-la desprendida.
Onde se estreita a pele impossível,
O seu lento signo enigmático: chama da essência sem despedida.


Chora através da carne,
Cravada num fosso sem céu,
Na noite desprezada
Com a sua língua eterna.
Uma tristeza ampla regressa à vida sem cansaço;
Encerrada no repouso.


A morte imensa vela o sonho sem alvorada!
Ninguém sabe nada.
Eis o que existe. A ansiedade volta para dentro,
Surda, detestável, apartada.


Majestosa em seu mundo obscuro, regressará à sua raiz
Indefinida, penetrante, solitária.
Talvez um rio, uma boca inesquecível
Possam recordá-la.




Ricardo Molinari



Georgia O'Keeffe

28.4.03

DERIVANDO


Ouço as passadas do relógio, aliás, de vários relógios espalhados por vários compartimentos. As passadas são mínimas e devolvidas pelo silêncio dos pequenos ruídos nocturnos, arrefecidos pela chuva leve que cai na noite e pelo arrepio da minha despropositada manga curta. Em cada compartimento corre o tempo e com ele as paredes e com elas as estrelas cobertas por diversos tectos acima do meu, plataformas lunares em repouso. A lua hoje hibernou. Gosto de não a ver todas noites. Não as diviso, as estrelas, divido-as antes em semblantes, em tempos iguais, diferentes do meu que está aqui e já não está e estanca e retoma a marcha. Toca o alarme de um carro e imagino um pé-de-cabra em fuga.



Wassily Kandinsky

24.4.03

NA WEMBLEY ARENA, LONDRES, 1999





Voltarei a este senhor...
FEAR


Hart Crane nasceu em 1899 em Garrettsville, Ohio e foi um autodidacta profundamente inspirado pela poesia de Walt Whitman cuja principal obra «The Bridge» nos oferece a visão espiritual e histórica do poeta em relação à sua América natal. Suicidou-se em 1932 ao saltar do convés de um navio que regressava a Nova Iorque vindo do México.





The host, he says that all is well
And the fire-wood glow is bright;
The food has a warm and tempting smell,—
But on the window licks the night.

Pile on the logs... Give me your hands,
Friends! No,— it is not fright...
But hold me... somewhere I heard demands...
And on the window licks the night.



Hart Crane



ENCONTRO COM D. QUIXOTE II


O meu encontro com D. Quixote foi bem diverso e bem mais tardio do que o relatado por Ana Hatherly. Aconteceu já na Universidade, numa cadeira de Literatura Espanhola por mim escolhida como opção e a minha guia nessa descoberta que também (como não podia deixar de ser!) se revestiu de fascínio foi a Professora Cristina Fernandes, uma jovem docente com uma impressionante vontade de nos "contaminar" com a beleza da literatura espanhola. Por mim falo quando digo que para além de um alargamento imenso dos meus conhecimentos da literatura maior de Espanha, também ficou a consciência da inesgotabilidade de prismas ou perspectivas de abordagem da obra de Cervantes.



Picasso


Milan Kundera, no JL de 31 de Dezembro de 1997, elogia assim o improvável:


A longa tradição do realismo psicológico criou algumas normas quase invioláveis. 1) É preciso dar o máximo de informações sobre uma personagem: aspecto físico, maneira de falar e de se comportar; 2) é preciso conhecer o passado de uma personagem, porque é nele que se encontram todas as motivações do seu comportamento presente; 3) a personagem deve ter uma total independência, quer dizer, o autor e as suas próprias considerações devem desaparecer para não perturbar o leitor que quer ceder à ilusão e tomar a ficção pela realidade.
Ora Musil rompeu este velho contrato entre o romance e o leitor. E outros romancistas com ele. Que sabemos nós da aparência física de Esch, a maior personagem de Broch? Nada. Excepto que tinha dentes grandes. Que sabemos nós da infância de K. Ou de Chveik? E nem Musil, nem Broch, nem Gombrowicz têm a menor dúvida em apresentar nos seus romances os pensamentos dessas personagens. A personagem não é a simulação de um ser vivo. É um ser imaginário. Um ego experimental. O romance volta assim ao seu início. Dom Quixote é quase impensável como ser vivo. Apesar disso, na nossa memória, que personagem existe mais viva do que ele?
Os primeiros romancistas não tiveram escrúpulos perante o improvável. No primeiro livro de “Dom Quixote”, há uma taberna algures em Espanha onde toda a gente se encontra por acaso: Dom Quixote, Sancho Pança, o barbeiro e o cura seus amigos, depois o jovem Cardenio a quem um certo Don Fernando roubou a noiva Lucinda, daí a nada também Doroteia, a noiva abandonada desse mesmo Fernando, mais tarde este e Lucinda, a seguir um oficial que fugiu de uma prisão moura mais o seu irmão que ele procura há anos, a filha Clara, o amante dela, que a persegue, e ele próprio perseguido pelos criados do pai... uma acumulação de coincidências e de reencontros totalmente improváveis. O que, em Cervantes, não significa ingenuidade ou azelhice. Os romances de então não tinham ainda concluído com o leitor o pacto da verosimilhança. Não queriam simular o real, queriam divertir, espantar, surpreender, enfeitiçar. Eram “lúdicos”, nisso residia o seu virtuosismo.
O início do século XIX representa uma mudanças enorme na história do romance. Diria quase um choque. O imperativo da imitação do real cobriu de ridículo a taberna de Cervantes.. o século XX revolta-se contra a herança do século XIX. Contudo, o mero regresso à taberna já não é possível. Entre ela e nós, a experiência do realismo impôs-se de modo que o jogo das coincidências improváveis já não poder ser inocente. Torna-se intencionalmente irónico, paródico («As Caves do Vaticano» ou «Ferdydurke», por exemplo) ou fantástico, onírico.


É o caso do primeiro romance de Kafka: «América». Leia-se o primeiro capítulo, com o reencontro totalmente inverosímel de Karl Rossmann com o tio: é como uma recordação nostálgica da taberna de Cervantes. Mas neste romance, as circunstâncias inverosímeis (ou mesmo impossíveis) são evocadas com uma tal minúcia, uma tal ilusão do real que se fica com a impressão de entrar num mundo que, inverosímel embora, é mais real do que a realidade. Fixemo-lo bem: Kafka entrou no seu primeiro universo «sobre-real» (na sua primeira «fusão do real e do sonho») pela taberna de Cervantes, pela porta do vaudeville.



ENCONTRO COM D. QUIXOTE






Em criança tive uma avó que contava histórias maravilhosas enquanto me ensinava a coser, a bordar, a fazer renda e essas coisas que as meninas, dantes, tinham de saber fazer. As histórias que a minha avó contava eram histórias de fadas, bruxas, milagres, naufrágios, guerras e heróis, e eu ouvi-as com tal atenção que me esquecia do bordado ou da renda e muitas vezes me caía da mão o dedal ou a agulha.
Dantes as crianças muito pequenas não iam para jardins de infância ou escolas primárias, antes de entrarem para a escola oficial aos 7 anos. Aprendia-se muita coisa em casa e foi em casa que eu aprendi a ler, e como gostava de aprender, muito cedo consegui um desembaraço incomum para a minha idade. O que me levava a aplicar-me a essa aprendizagem era o meu desejo de ler mais e mais histórias, tão fasninantes como as que a minha avó me contava e que em breve me deixou de contar, porque morreu quando eu era ainda pequena.
Transferi, portanto, para a leitura toda a minha atenção, enquanto os bordados e as rendas foram ficando pelo caminho. Embora lesse devagar e não percebesse tudo, era tal o meu fervor que a minha família teve de controlar os meus tempos de leitura e as obras que eu lia, porque eu queria estar sempre a ler e a ler tudo.
Lembro-me dos livros que podia ler e dos que não podia. Esses, estavam na sala de visitas, dentro de belos armários de tremidos e torcidos, com as portas de vidro forradas a seda de um vermelho escuro. Eram livros grandes com letras em oiro na capa e cheios de ilustrações.
Entre esses volumes bem resguardados estava a célebre obra de Miguel de Cervantes «Dom Quixote de la Mancha», numa edição de luxo, ilustrada por Gustave Doré, um famoso artista francês do século XIX. Eu não tinha autorização para ler nem sequer para tocar nesse livro, porque não era uma obra apropriada para uma criança tão pequena. Mas a história tinha-me sido mais ou menos contada e as gravuras mostradas, e foi tal o efeito que isso fez em mim, que eu só desejava saber mais e mais dessa história fantástica e ver e tornar a ver essas gravuras que me fascinavam.
Não tendo licença sequer para abrir o armário onde estava o «Dom Quixote», o que poderia eu fazer se não esperar que todos dormissem, entrar às escondidas na sala, abrir o dito armário e retirar a obra proibida? Foi o que eu fiz, muitas e muitas vezes. Ler, propriamente, eu não lia - era demasiado difícil para mim - mas as gravuras eu via-as todas, uma por uma, de uma ponta à outra. Algumas metiam-me tanto medo que eu fechava os olhos e encolhia-me toda. Mas voltava sempre a vê-las.
O tempo foi passando e ao progredir nos estudos e na leitura comecei a interessar-me por muitas outras obras, mas logo que tive idade suficiente fui ler o «Dom Quixote», que continuou a impressionar-me profundamente, embora de outra maneira.
Hoje possuo várias e valiosas edições do «Dom Quixote» e essa obra tem um lugar ímpar no meu afecto e na minha memória e nunca me esqueci daquele armário com as portas de vidro forradas a seda e da extraordinária impressão que deixou em mim essa leitura furtiva.




Ana Hatherly

23.4.03

PORTUGUESES: HERÓIS ADIADOS


Das feições de alma que caracterizam o povo português, a mais irritante é, sem dúvida, o seu excesso de disciplina. Somos o povo disciplinado por excelência. Levamos a disciplina social àquele ponto de excesso em que cousa nenhuma, por boa que seja - e eu não creio que a disciplina seja boa - por força que há-de ser prejudicial.
Tão regrada, regular e organizada é a vida social portuguesa que mais parece que somos um exército do que uma nação de gente com existências individuais. Nunca o português tem uma acção sua, quebrando com o meio, virando as costas aos vizinhos. Age sempre em grupo, sente sempre em grupo, pensa sempre em grupo. Está sempre à espera dos outros para tudo. E quando, por um milagre de desnacionalização temporária, pratica a traição à Pátria, de ter um gesto, um pensamento, ou um sentimento independente, a sua audácia nunca é completa, porque não tira os olhos dos outros, nem a sua atenção da sua crítica.
Parecemo-nos muito com os alemães. Como eles, agimos sempre em grupo, e cada um do grupo porque os outros agem.
Por isso aqui, como na Alemanha, nunca é possível determinar responsabilidades; elas são sempre da sexta pessoa num caso onde só agiram cinco. Como os alemães, nós esperamos sempre pela voz de comando. Como eles, sofremos da doença da Autoridade - acatar criaturas que ninguém sabe porque são acatadas, citar nomes que nenhuma valorização objectiva autentica como citáveis, seguir chefes que nenhum gesto de competência nomeou para as responsabilidades da acção. Como os alemães, nós compensamos a nossa rígida disciplina fundamental por uma indisciplina superficial, de crianças que brincam à vida. Refilamos só de palavras. Dizemos mal só às escondidas. E somos invejosos, grosseiros e bárbaros, de nosso verdadeiro feitio, porque tais são as qualidades de toda a criatura que a disciplina moeu, em quem a individualidade se atrofiou.
Diferimos dos alemães, é certo, em certos pontos evidentes das realizações da vida. Mas a diferença é apenas aparente. Eles elevaram a disciplina social, temperamento neles como em nós, a um sistema de estado e de governo; ao passo que nós, mais rigidamente disciplinados e coerentes, nunca infligimos a nossa rude disciplina social, especializando-a para um estado ou uma administração. Deixamo-la coerentemente entregue ao próprio vulto íntegro da sociedade. Daí a nossa decadência!
Somos incapazes de revolta e de agitação. Quando fizemos uma «revolução» foi implantar uma cousa igual ao que já estava. Manchámos essa revolução com a brandura com que tratámos os vencidos. E não nos resultou uma guerra civil, que nos despertasse; não nos resultou uma anarquia, uma perturbação das consciências. Ficamos miserandamente os mesmos disciplinados que éramos. Foi um gesto infantil, de superfície e fingimento.
Portugal precisa dum indisciplinador. Todos os indisciplinadores que temos tido, ou que temos querido ter, nos têm falhado. Como não acontecer assim, se é da nossa raça que eles saem? As poucas figuras que de vez em quando têm surgido na nossa vida política com aproveitáveis qualidades de perturbadores fracassam logo, traem logo a sua missão. Qual é a primeira cousa que fazem? Organizam um partido... Caem na disciplina por uma fatalidade ancestral.
Trabalhemos ao menos - nós, os novos - por perturbar as almas, por desorientar os espíritos. Cultivemos, em nós próprios, a desintegração mental como uma flor de preço. Construamos uma anarquia portuguesa. Escrupulisemos no doentio e no dissolvente. E a nossa missão, a par de ser a mais civilizada e a mais moderna, será também a mais moral e a mais patriótica.
O português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja. Somos um grande povo de heróis adiados. Partimos a cara a todos os ausentes, conquistamos de graça todas as mulheres sonhadas, e acordamos alegres, de manhã tarde, com a recordação colorida dos grandes feitos por cumprir. Cada um de nós tem um Quinto Império no bairro, e um auto-D.Sebastião em série fotográfica do Grandela. No meio disto (tudo), a República não acaba.
Somos hoje um pingo de tinta seca da mão que escreveu Império da esquerda à direita da geografia. É difícil distinguir se o nosso passado é que é o nosso futuro, ou se o nosso futuro é que é o nosso passado. Cantamos o fado a sério no intervalo indefinido. O lirismo, diz-se, é a qualidade máxima da raça. Cada vez cantamos mais um fado.
O Atlântico continua no seu lugar, até simbolicamente. E há sempre Império desde que haja Imperador.
Nada há de menos latino que um português. Somos muito mais helénicos - capazes, como os gregos, só de obter a proporção fora da lei, na liberdade, na ânsia, livres da pressão do Estado e da Sociedade. Não é uma blague geográfica o ficarem Lisboa e Atenas quase na mesma latitude.
(...) Nós não temos homens cultos; temos eruditos apenas. Ou antes, os homens cultos que temos, são homens de génio, o que é de mais para um povo tão pequeno.
Julgarão talvez que confundo culto com inteligente. Seria um erro julgar tal coisa. Eu nunca confundo nada. O homem inteligente é o que com facilidade tira conclusões do que lê ou vê; o homem culto é o que, naturalmente, sente e não tira conclusões, ou as tira, conforme calha ao seu feitio do momento.
Vem tudo a propósito de chegar a dizer qual é a tragédia de Portugal. É a de que, tendo vários eruditos, e muita gente inteligente, pouquíssima gente temos que seja culta. Vejam quanta criatura, quando lhe apresentam qualquer coisa de novo, procura compreender. Um homem culto procura sentir. Perceber envolve um esforço. Sentir envolve uma passividade deliciosa. O feitio enérgico, violento, indolente do português leva-o para a acção precipitada. A ciência da inacção, a mais civilizada das ciências, pouco está desenvolvida entre nós. A nossa tendência para agir ficou-nos, como uma maldição, da aventura das descobertas. Expiamos a glória dos nossos maiores na doentia preocupação do útil.




Fernando Pessoa


HORAS


Gelava o tempo branco do relógio.
Fundiu-se um dia o mostrador
aberto para dentro
num foco por onde as horas negras fugiram enlouquecidas!


Lá para longe na faixa rósea da distância
recuaram ante o incessante alarido dos sinos
e logo regressaram
desesperadamente procurando em vão
o maquinismo do relógio.


Via-se o dia fechado de silêncio
num quadrado de luz amarelada
e de novo preso o pé do jovem
quando ia para sair.




Edmundo de Bettencourt,
«Poemas de Edmundo de Bettencourt»



Paul Klee






21.4.03

ABSURDITY




«Shadow of a Twisted Hand Across My House» de David Lynch



Absurdity is what I like most in life, and there's humor in struggling in ignorance. If you saw a man repeatedly running into a wall until he was a bloody pulp, after a while it would make you laugh because it becomes absurd. But I don't just find humor in unhappiness - I find it extremely heroic the way people forge on despite the despair they often feel. Like the character in 'Eraserhead' - he's totally confused, yet he struggles to figure things out and do what's best. Isn't that fantastic?


David Lynch






19.4.03

ARTISTAS AFRO-AMERICANOS NO METROPOLITAN





Decorre até 6 de Julho no Metropolitan Museum Of Art de Nova Iorque a exposição de gravuras, desenhos e pintura «African-American Artists, 1929-1945». São retratados aspectos da vida quotidiana dos Afro-Americanos durante a II Guerra Mundial, época da Depressão e New Deal, e ainda período da Renascença do Harlem.




Elevated Streetcar Scene, 1945
John Woodrow Wilson (American, born 1922)



Duas figuras na litografia olham quem as olha: o homem, figura central da cena, e a criança no colo da mãe. E a expressão de ambos é a mesma, um sorriso que se fica pela intenção, um sorriso onde há inocência e consciência, e que se demarca dos rostos fechados das mulheres.





QUEM ÉS TU, DE NOVO


Arrepio.


Quando a janela se fecha e se transforma num ovo
Ou se desfaz em estilhaços de céu azul e magenta
E o meu olhar tem razões que o coração não frequenta
Por favor diz-me quem és tu, de novo?

Quando o teu cheiro me leva às esquinas do vislumbre
E toda a verdade em ti é coisa incerta e tão vasta
Quem sou eu para negar que a tua presença me arrasta?
Quem és tu, na imensidão do deslumbre?

As redes são passageiras, as arquitecturas da fuga
De toda a água que corre, de todo o vento que passa
Quando uma teia se rasga ergo à lua a minha taça
E vejo nascer no espelho mais uma ruga

Quando o tecto se escancara e se confunde com a lua
A apontar-me o caminho melhor do que qualquer estrela
Ninguém me faz duvidar que foste sempre a mais bela
Por favor, diz-me que és alguém, de novo?

Quando a janela se fecha e se transforma num ovo
Ou se desfaz em estilhaços de céu azul e magenta
E o meu olhar tem razões que o coração não frequenta
Por favor diz-me quem és tu, de novo?



Jorge Palma








18.4.03

HITCHCOCK II


When an actress asked Hitchcock if her right or left profile was better, he told her - My dear, you're sitting on your best profile



DINAMIZAÇÃO CULTURAL, A QUE FOI E A QUE SERÁ


Folheando o primeiro número do Boletim das Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian saído em 1975 e tendo por tema de capa «democracia e cultura», deparei-me com este texto de C.H. sobre a dinamização cultural que se pretendeu imprimir em Portugal no pós 25 de Abril e as dificuldades na sua implementação (até hoje, 28 anos depois...):


No depois do 25 de Abril, e durante algum tempo, pouco, foi amplamente divulgada uma campanha de prospecção sociocultural, alargada de norte a sul do país, que, no fundamental, consistia no facto de intelectuais e artistas procederem a espectáculos e outras práticas pedagógicas e formativas que resultariam num real enriquecimento das populações, junto das quais se buscava e se propunha um contacto directo e fraternal.
As forças armadas, essas, que forneciam os meios operacionais necessários (sobretudo transportes e alojamentos), trabalhariam paralelamente e em termos imediatamente práticos, respondendo na medida do possível a solicitações prementes dos núcleos populacionais mais desprotegidos socialmente - como redes de água e esgotos, electrificação, higienização, campos de jogos infantis, arranjo de caminhos, etc., sem esquecer essa tarefa fundamental que é a formação de comissões de aldeia, núcleos primeiros de toda uma organização política eminentemente popular e democrática.
Partiram pois, dos grandes aglomerados urbanos, soldados, viaturas, alguns voluntários e vários artistas contratados: em busca do país real e do tempo a recuperar. Sem preocupações de mestrado, antes também no sentido da aprendizagem, percorreram outras terras e gentes outras - trocando, em verdade, conhecimentos, se não aprendendo mais que divulgando.
Tratou-se de uma das mais ambiciosas iniciativas saídas da Revolução: exactamente esta da tentativa de destruição dos limites cidade-campo, cultura livresca-cultura popular, intelectual (e/ou) artista-trabalhador braçal.
Como tudo neste país propenso ao relativo, ficou-se no âmbito do entusiasmo e da boa-vontade inicial este movimento (cultural) revolucionário - sequer praticado com cabeça, tronco e membros, antes improvisado ao sabor da circunstância - e portanto transformado em pouco mais que descoberta folclórica, simpatia paternalista e militância «cultural» diletante.
Algumas representações «teatrais» nas aldeias (sem um criterioso cuidado na escolha das peças e no estilo das encenações), algumas projecções de filmes (sem gente preparada para sobre eles desenvolver um diálogo frutuoso), algumas sessões de criação plástica impingidas às crianças (sem o necessário desenvolvimento futuro), alguma (mas descontínua) distribuição de livros - e esta devida ao apoio das Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian - , um ou outro colóquio culturalista num centro paroquial ou casa do povo, meia dúzia de bailaricos abrilhantados pelas bandas militares - eis no que consistiu, grosso modo, a tão falada «dinamização cultural», para mais desfasada totalmente dos empreendimentos entretando musculados pelos militares.
A experiência, com seus limtes e seus defeitos, foi no entanto positiva, se encarada como primeiro passo, gatinhante prospecção num campo onde tudo, ou quase tudo, está por fazer - ou inventar fazendo.
Interrompida pelas vicissitudes do processo político (a que não é alheia a chamada «reestruturação» do organismo militar promotor), a campanha de «dinamização cultural», desde que operando uma crítica correcta aos aspectos negativos da sua primeira actuação e revivificada com nova orgânica e meios técnicos e humanos minimamente adequados, pode e deve ser uma das estruturas de maior alcance da «revolução cultural».
Não, evidentemente, por um espaço de poucos dias ou semanas: há que a tornar permanente e permanentemente descentralizada, isto é, fora das «jaulas» culturais que são as cidades.
Não, evidentemente, desligada, marginalizada, do trabalho físico, concreto, que seja realizado pelas forças armadas: há que a integrar na própria labuta dos soldados e das populações, sem o que surgirá como que embalada em celofane, produto de luxo ou passatempo irremediavelmente elitista.
Não, evidentemente, circunscrita ao específico da «cultura», que é onde a pretende encerrar a ideologia burguesa: há que a tornar, para que seja útil e consequente, instrumento de trabalho político.
Só assim a «dinamização cultural» corresponderá ao que dela espera um povo desde há séculos remetido à condição de máquina de produção económica. Um povo que no entanto foi capaz de preservar e é capaz de desenvolver o seu dinamismo próprio - cultural e não só.



Alguma ingenuidade própria do espírito revolucionário perpassa no texto contudo, no essencial, a mensagem encaixa ainda no Potugal de hoje. A dinamização cultural não chega ainda a todos, nem nunca chegará a todos (Ah, Utopia!), mas para quando, mente minha inquieta, qualquer coisinha de mais substancial?







16.4.03

ROCK


Allan Bloom em «A Cultura Inculta» («The Closing Of The American Mind»), traduzido em português pela Europa-América, faz uma reflexão um tanto ou quanto patética a respeito do Rock. É uma das minhas leituras do momento, a desta obra publicada em 1987.


É este o significado da música rock. Não sugiro que ela tenha quaisquer fontes intelectuais elevadas. Mas ela subiu às suas actuais alturas na educação dos jovens nas cinzas da música clássica e numa atmosfera em que não há resistência intelectual às tentativas para fazer saltar as paixões mais grosseiras. Os racionalistas dos tempos modernos, tais como os economistas, são-lhe indiferentes e àquilo que representa. Os irracionalistas são todos a favor. Não há necessidade de recear que «as bestas louras» vão surgir das brandas almas dos nossos adolescentes. Mas a música rock faz só um apelo, um apelo bárbaro, ao desejo sexual - não ao amor, não ao eros, mas ao desejo sexual imaturo e ignorante. Reconhece as primeiras emanações da sensualidade emergente das crianças e dirige-se com seriedade, descobrindo-as e legitimando-as, não como pequenos rebentos que precisam ser cuidadosamente tratados a fim de se tornarem flores esplendorosas, mas como coisa real. o rock dá às crianças, numa salva de prata, com toda a autoridade pública da indústria do entretenimento, tudo quanto os pais lhes diziam que tinham de esperar até serem crescidos para o compreenderem mais tarde.
Os jovens sabem que o rock tem o compasso do acto sexual. É por isso que o Bolero de Ravel é a única peça de música clássica que é vulgarmente conhecida e apreciada por eles. Em ligação com alguma arte real e muita pseudo-arte, uma indústria enorme cultiva o gosto pelo estado orgiástico do sentimento ligado ao sexo, proporcionando uma corrente constante de material fresco para apetites vorazes. Nunca houve uma forma de arte tão exclusivamente dirigida às crianças.



Chega a ser grotesca esta caracterização da música rock e dos seus efeitos nocivos para os jovens. Fez-me lembrar certas mentes inquisitoriais que consideravam este ou aquele tipo de música obra do demónio. Vade retro!
GOTA


A gota caiu na testa, deslizou, flacidamente líquida, até estacar na ponta do nariz, depois de percorrida a extensão recurva que facilitara a distensão espreguiçante do pedaço de céu estilhaçado. Acabou humedecendo uma manga de algodão. O vermelho escureceu enquanto as nuvens, movendo-se lateral e preguiçosamente, desbravaram o caminho a um azul fugidio, breve, um trecho apenas como a gota solitária que impeliu um braço a esticar-se, uma palma de mão a abrir-se na certificação da incerteza do desmoronamento do céu.
TIME


Ticking away the moments that make up a dull day
You fritter and waste the hours in an offhand way
Kicking around on a piece of ground in your home town
Waiting for someone or something to show you the way

Tired of lying in the sunshine staying home to watch the rain
You are young and life is long and there is time to kill today
And then one day you find ten years have got behind you
No one told you when to run, you missed the starting gun

So you run and you run to catch up with the sun but it's sinking
Racing around to come up behind you again
The sun is the same in a relative way but you're older,
Shorter of breath and one day closer to death

Every year is getting shorter never seem to find the time
Plans that either come to naught or half a page of scribbled lines
Hanging on in quiet desperation is the English way
The time is gone, the song is over,
Thought I'd something more to say




Pink Floyd,
«The Dark Side Of The Moon»
FARGO


This is a true story. The events depicted in this film took place in Minnesota in 1987. At the request of the survivors, the names have been changed. Out of respect for the dead, the rest has been told exactly as it occured.
FLARE TO WHITE

FADE IN FROM WHITE

Slowly the white becomes a barely perceptible image: white
particles wave over a white background. A snowfall.

A car bursts through the curtain of snow.

The car is equipped with a hitch and is towing another car,
a brand-new light brown Cutlass Ciera with the pink sales
sticker showing in its rear window.

As the car roars past, leaving snow swirling in their dirft,
the title of the film fades in.

FARGO




Ethan & Joel Coen


DEVIL'S DICTIONARY


Referido na Janela Indiscreta, não resisti a consultar o Devil's Dictionary e deparei-me com algumas interessantes definições. Partilho aqui dois pares de significados especialmente pertinentes:


FREEDOM, n. Exemption from the stress of authority in a beggarly half
dozen of restraint's infinite multitude of methods. A political
condition that every nation supposes itself to enjoy in virtual
monopoly. Liberty. The distinction between freedom and liberty is
not accurately known; naturalists have never been able to find a
living specimen of either.

Freedom, as every schoolboy knows,
Once shrieked as Kosciusko fell;
On every wind, indeed, that blows
I hear her yell.

She screams whenever monarchs meet,
And parliaments as well,
To bind the chains about her feet
And toll her knell.

And when the sovereign people cast
The votes they cannot spell,
Upon the pestilential blast
Her clamors swell.

For all to whom the power's given
To sway or to compel,
Among themselves apportion Heaven
And give her Hell.

Blary O'Gary



LIBERTY, n. One of Imagination's most precious possessions.

The rising People, hot and out of breath,
Roared around the palace: "Liberty or death!"
"If death will do," the King said, "let me reign;
You'll have, I'm sure, no reason to complain."

Martha Braymance


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PEACE, n. In international affairs, a period of cheating between two
periods of fighting.

O, what's the loud uproar assailing
Mine ears without cease?
'Tis the voice of the hopeful, all-hailing
The horrors of peace.

Ah, Peace Universal; they woo it --
Would marry it, too.
If only they knew how to do it
'Twere easy to do.

They're working by night and by day
On their problem, like moles.
Have mercy, O Heaven, I pray,
On their meddlesome souls!

Ro Amil



WAR, n. A by-product of the arts of peace. The most menacing
political condition is a period of international amity. The student
of history who has not been taught to expect the unexpected may justly
boast himself inaccessible to the light. "In time of peace prepare
for war" has a deeper meaning than is commonly discerned; it means,
not merely that all things earthly have an end -- that change is the
one immutable and eternal law -- but that the soil of peace is thickly
sown with the seeds of war and singularly suited to their germination
and growth. It was when Kubla Khan had decreed his "stately pleasure
dome" -- when, that is to say, there were peace and fat feasting in
Xanadu -- that he

heard from afar
Ancestral voices prophesying war.

One of the greatest of poets, Coleridge was one of the wisest of
men, and it was not for nothing that he read us this parable. Let us
have a little less of "hands across the sea," and a little more of
that elemental distrust that is the security of nations. War loves to
come like a thief in the night; professions of eternal amity provide
the night.








15.4.03

«AS AFINIDADES ELECTIVAS» DE GOETHE


Obra redigida na fase madura do escritor alemão, “As Afinidades Electivas” é, a seu modo, uma tragédia sobre a impraticabilidade do amor que condena os amantes ao desencontro por razões morais, sociais e... cósmicas. O sucessivo adiamento da vivência amorosa é imposto pela conjuntura tirânica que no início do século XIX preside à mentalidade eminentemente aristocrática defensora do casamento entre classes, mas acima de tudo apologista da instituição do matrimónio como sagrada (embora esta posição seja trabalhada pelo autor por forma a colocar em evidência a hipocrisia característica do apregoado mas não praticado) . Por isso a manifestação de um desejo de união só (!!!) porque se ama, é acidamente rejeitado como uma espécie de sacrilégio.
Não mencionei o vocábulo “tragédia” em vão... com efeito, o elemento trágico interfere de forma definitiva e paira na atmosfera, por vezes aparentemente idílica do romance, desde o seu início com claros sinais premonitórios de acontecimentos dúbios a vir. Goethe escreve, então, uma tragédia sob a forma de romance o que não deixa de ser curioso tendo em consideração a admiração do autor pela tragédia grega, sendo que ele próprio elaborou por exemplo uma “Ifigénia em Táurida” tida como uma das incontornáveis tragédias da literatura alemã.
Uma convivência a quatro converte-se rapidamente, não na destruição de um lar como seria de esperar, mas na transição (nunca atingida na sua totalidade) do que se julgava querer para o que indubitavelmente se quer. A tragédia reside na circunstância de que o encontro destas almas gémeas não é durável porque lhes é vedado o acesso à concretização do amor. Um silêncio cúmplice está subjacente à estranha aceitação do adultério debaixo do tecto outrora partilhado por um casal que pensava ser feliz. A “troca” é quase natural até que o mundo exterior se dá conta do perigo que ronda aquela casa e os amantes se afastam, momento a partir do qual se inicia o caminho descendente a percorrer pelas personagens e exposto na segunda parte do livro.
Uma estranha força que me ocorre apenas designar de “cósmica” apaga a esperança no triunfo do amor, daí talvez o final místico da obra que mais não é do que, provavelmente, a vitória de uma outra forma de amor... e afinal, o amor não morre com as pessoas. E que mais não é este “regresso” de Ottilie do que uma espécie de deus ex machina típico da tragédia grega?

A ORQUESTRA


André Gago encenou para o TAS (Teatro de Animação de Setúbal) «A Orquestra» de Jean Anouilh em exibição no Teatro de Bolso até finais de Junho.
AMIGOS E ARTISTAS



De 1 de Abril até 28 de Setembro de 2003 estará patente no Centro de Arte Moderna, mais concretamente no espaço rotativo do piso 01, uma exposição de fotografias de Fernando Lemos, fotografias de artistas plásticos e escritores tiradas entre 1949 e 1952. «Amigos e Artistas», assim se intitula.
HITCHCOCK I


Ingrid Bergman, triying to make Hitchcock help her understand the motivation for the feelings of her character told Hitchcock:

I dont feel like that, I dont think
I can give you that kind of emotion


and Hitchcock replied:

Ingrid -- Fake It

14.4.03

CHUVA II


A chuva é igualmente responsável por gripes e poemas lacrimejantes



Carlos Drummond de Andrade,
«O Avesso das Coisas»




CHUVA I


A chuva desmancha prazeres e cria outros, de solidão e intimidade



Carlos Drummond de Andrade,
«O Avesso das Coisas»




BEING FUNNY


I think being funny is not anyone's first choice



Woody Allen



9.4.03

HERNÂNI CIDADE SOBRE SEBASTIÃO DA GAMA


(...) É que naquela alma, perfeita em sua inteireza e unidade, não havia deveres profissionais ou virtudes de circunstância: tudo era vivido em profundidade ou altura que excluem qualquer forma de superficialidade. O mesmo é que dizer: ser estudante ou ser professor, ser filho ou ser marido, eram apenas formas várias de ser poeta – de ser Ele mesmo, que como ninguém melhor sentia profundidades sob a própria aparência do banal e gostava do sabor do transcendente nos próprios aspectos do quotidiano.
Como poeta, sentia pelos pais pobres, que por ele se sacrificavam, a ternura que o estimulava no trabalho. Como poeta, vivia em profundidade o sentimento da dignidade que impede as atitudes mendicantes ou menos leais. Como poeta, finalmente, convivia com os rapazes que ensinava e lhe confiavam alma e espírito, coração e cabeça, na alegres fraternidade que estimula para a dádiva total – bonum est diffusivum sui.
A dádiva total!... Aos rapazes da Escola, aos amigos e colegas, à companheira do lar, à família em que foi gerado, à Serra-Mãe!... Não cabem estas almas nos limites do próprio ser, quanto mais nos limites do circunstancial!
JOSÉ RÉGIO SOBRE SEBASTIÃO DA GAMA


(...) Não obstante, compreendo agora como certa gravidade da obra de Sebastião da Gama – essa profunda gravidade que em vários seus poemas tão admiravelmente ombreia com a graça, a frescura, a juvenilidade, até a malícia, quer dos mesmos quer dos poemas vizinhos – era ganhada na convivência da Morte: essa Morte à qual, num dos mais tocantes e complexos gritos do nosso lirismo, ele pede a Deus que o poupe, por ainda se não julgar digno dela! Só tal convivência, que é a dos que vão morrer, ou pressentem morrer cedo, ou vivem mortos para as superfluidades da vida corrente, - ainda que tão vivos, como Sebastião da Gama, para todas as amabilidades do Momento eterno – só tal convivência ensina coisas que também só a verdadeira poesia comunica.

MATILDE ROSA ARAÚJO SOBRE SEBASTIÃO DA GAMA


(...) Às vezes vejo-te mesmo, de braços abertos, a sorrir, um cravinho vermelho no sobretudo azul escuro, os lábios gretados de frio, sorrindo com o teu sorriso terno. Os olhitos verdes a piscarem, a falarem duma alma imensa de ternura – e nessa alegria tão completa, tão chã, quanta compreensão desiludida e iludida pela tua bondade franciscana de criança que, só pelo tempo que lhe doeu, foi Homem.

8.4.03

DAVID MOURÃO-FERREIRA SOBRE SEBASTIÃO DA GAMA


Acaba de morrer Sebastião da Gama. À nossa infinita comoção nos parecem, agora, inúteis quaisquer palavras. Atordoados, não nos apercebemos talvez ainda bem da exacta estatura do Poeta que ele foi – para apenas sentirmos, no choque violento desta primeira hora, o íntimo vazio em que nos deixa a sua ausência.


«Cigarra que se preza, quando morre
não deve estar a meio da canção»


-Assim dizia Sebastião da Gama, no poema com que, pela última vez, colaborou em Távola Redonda – o poema Alegoria, inserto depois no último livro que publicou, esse Campo Aberto de título tão tragicamente certo e presago.
Sebastião da Gama não se deixou surpreender pela Morte; e, morrendo jovem (pouco mais velho que Sá-Carneiro, ainda mais novo que Cesário e Nobre), Sebastião da Gama deixa uma obra complexa, de amor e exaltação à Vida, elegiacamente cheia de ternura pelas coisas e pelos seres, de um misticismo sui generis – que é a projecção, no plano de Deus, de uma transbordante simpatia humana.


«A parte que lhe coube por destino,
tem de morrer deixando-a já cantada.
Que faz que a não escutem nem lhe acudam?
É preciso é sentir que se está vivo.
É preciso é que as asas que sosseguem
O tenham merecido».


Poucos Poetas se terão sentido assim tão vivos. Sob o seu aspecto de rústico, cheio de bonomia e simplicidade, sem nada ter de um literato, sem atitudes, sem reservas, Sebastião da Gama realizou, involuntariamente, um ideal de franciscanismo – e a sua alma delicadíssima promovia milagres de entendimento e repartia-se, misteriosamente grande, por tudo em que tocava.
A sua ética de Poeta comportava preceitos muito exigentes e muito certos. Cada verso, para ele, era um acto de fé: as suas asas, agora sossegadas, bem se mereceram; simplesmente, sofremos, e muito, porque à nossa amizade nos parece que o sossego chegou cedo demais.
79º ANIVERSÁRIO DO NASCIMENTO DE SEBASTIÃO DA GAMA


No próximo dia 10 de Abril pelas 21h terá lugar no Pólo de Azeitão da Biblioteca Municipal de Setúbal uma sessão comemorativa do 79º aniversário do nascimento de Sebastião da Gama com a inauguração da exposição «Poesia e Pintura da Arrábida» e com o lançamento da 12ª edição do «Diário» de Sebastião da Gama.


O Cais


À Maria Sara



Já o cais não é de pedra,
De tanto sentir o Mar.
Já nãoé, a pedra, lisa:
Já ganha forma de velas
Pandas de vento e de orgulho;
Já deixou de ser branquinha
P’ra ser azul como as águas.


Já o cordame, que sonha
Noite e dia sobre o cais,
O tem o sonho tornado
Em algas prenhes de iodo.
Degraus de pedra se animam
E pelas ondas se atrevem
-botes sem mestre, perdidos,
sem outro leme que o gosto
de ir pelas ondas adentro.


Marujos que nunca o foram,
Assentadinhos no cais
Desde a hora de nascer,
Quem foi que disse que tinham
Raízes naquelas pedras?
Já lhes despontam nas costas,
Já por ares e mares os levam
Asas leves de gaivota.


Cada traineira que passa
Convida o cais a sair.
Já o cais não é de pedra.
- : O sal moldou-lhe uma quilha,
As ondas o encurvaram,
Os limos o arrastaram
P’ra lá de todo o limite
E o cais cedeu ao convite
Se ser um barco sem mestre.


Lá vai perdido nas ondas
E não lhe importa a chegada.
Deitou a bússola ao Mar.
Fez uma estaca do leme
Que atesta o sítio em que foi.
Voltou as costas à terra
E o seu destino cumpriu-se,
Que era partir e mais nada.




Sebastião da Gama
ISOLATE


I'm lost without a chance in hell



Paradise Lost


4.4.03

SAUDADES DE BERNA


Onde jamais reencontrar
a submissa ambiência suíça?
Onde outra vez reencontrar
a insuíça voz insubmissa?



João Cabral de Melo Neto,
«Museu de Tudo»




EPÍLOGO


Não há servilismo na voz de Langston Hughes, pelo contrário, nota-se uma firmeza paciente no homem que obedece quando o mandam comer na cozinha, uma confiança lúcida no Amanhã, um Amanhã assente na adversidade do Hoje em que o irmão mais escuro serenamente fortalece corpo e alma porque sabe que chegará o dia em que se sentará à mesa.
É uma voz tranquila e tranquilizadora, não transpira ódio, mas uma pena pelo adiamento do inadiável.
O também eu implica a inclusão do homem excluído do mapa humano dos Estados Unidos e embora a conquista real de direitos seja colheita futura, a verdade é que Hughes canta a América e é a América no presente, assumindo o cantar e o Ser como direitos já conquistados, é a voz do poeta confundindo-se com a do homem sem interferência da voz a combater, a que aliena.
O poema é o anúncio pacífico de um profeta. Um profeta é um homem com esperança.


Também eu canto a América,

sou o irmão mais escuro.
Mandam-me comer na cozinha
quando têm visitas,
mas eu rio-me,
e como bem,
e fico forte.

Amanhã,
sento-me à mesa
quando tiverem visitas.
Ninguém ousará
dizer-me,
«come na cozinha»,
Então.

Além disso,
verão como sou belo
e terão vergonha, -

Também eu sou a América.





3.4.03

CHOPINESQUE


É pouco conhecida a graça simples da poesia do moçambicano Reinaldo Ferreira.


Oh! taciturno
e esquivo
motivo
todo nocturno...

Polpas macias
de dedos leves
cintados por ametistas,
são organistas
dos meus ditongos
longos
e breves...

Como contraste,
para desgaste
dos sons, veludo sobre cetim,
vogais gritantes,
tamborilantes,
decapitantes,
sons oxidantes
como em clarim...

E o taciturno
e esquivo
motivo
todo nocturno,
sonha a palavra
com arabescos
da sua lavra.

Sonha a palavra,
detesta a frase,
sabe o encanto
do que é só quase.

Por isso tende
- mas não atinge,
porque transcende -
para a imagem
visualizada
duma paisagem
subjectivada
que nos dilata
mas nos compreende,
onde gravitam
coisas errantes,
em translações
de percepções
centrifugantes.

E são imensas,
por não sofrerem
nem o tamanho
nem dimensão;
e são intensas.
Porque não passam
duma evasão
das inconsciências
que me contenho.

Tudo incoerências
coisificadas;
rastos de gestos
que nunca foram
mais que iminências
balbuciadas...





NOS ANTÍPODAS


No DN de hoje vi uma fotografia de George Bush pai e o neto Pierce Bush divertidos na abertura da temporada dos Houston Astros contra os Colorado Rockies.
Compreendo-os. Não é uma guerra lá longe que impedirá que a vida decorra como sempre.

Naturalmente que a menina iraquiana ferida, em pé no corredor de um hospital em Bagdad com um olhar que nos interroga, como dizia Carlos Fino na sua reportagem, parecia fixar a sua vida... suspensa.




MARKED TO DIE


If we are marked to die, we are enough to do our country loss; and if to live, the fewer men, the greater share of honour.


William Shakespeare,
«Henry V»




2.4.03

PASTILHA


Será que a pastilha que Deco cuspiu para a relva quando ainda estava no banco no Portugal – Macedónia, já se alojou em alguma desafortunada sola?





QUE RAIO... ?


O Marquês de Sade escreveu algures que Deus era o único equívoco que não podia perdoar à humanidade. Eu pessoalmente tenho alguma dificuldade em perdoar a patetice premeditada camuflada de coragem. Fazia zapping quando dei por mim a ouvir no programa da Sic «Terça em Grande» um convidado a afirmar que respeitava todas as religiões, que, inclusivamente, lhe tinham ensinado quando pequenino umas coisas sobre um certo Jesus, uma certa Maria e um certo burro, mas que, para ele, tudo isso não passava de uma «cagada».

(e eu a pensar para mim que o ilustrativo vocábulo se aplicava ao que acabara de ouvir)





PARAÍSO?


«É fantástico. Ainda há, neste continente, homens que prometem, sem rir, um paraíso na terra. Mas, por definição, o paraíso não pode estar na terra... não é um lugar, é uma dimensão.»


João Aguiar,
«O Homem sem Nome»




DUELO


Eastwood pisa desafiadoramente a bota negra, imaculada do Coronel Mortimer (Lee Van Cleef). Van Cleef responde pisando a bota poeirenta do rival. O mote para as pistolas serem sacadas dos coldres.

O chapéu negro do Coronel no chão e Eastwood a acertar-lhe repetidamente sempre que o outro o tenta apanhar até que o jogo de paciência/demonstração de força é quebrado por um tiro falhado. A oportunidade de Mortimer se mostrar. Uma bala impulsiona o chapéu de Eastwood para o ar. E outra. E outra. E ainda outra. E o chapéu sempre no ar, um bailado que termina com a concordância sem palavra, mas tácita de que a aliança dos opostos seria selada sob aquele céu negro.

O duelo mais original que já vi num western. Sem sangue, sem morte.

«Por mais alguns dólares» de Sergio Leone. Foi ontem, na RTP2.







1.4.03

ACHTUNG


Depois de despedido da CNN, os serviços de Peter Arnett são novamente dispensados, desta feita pela NBC. São dias históricos sem dúvida estes, dias em que assistimos ao colapso gradativo da democracia americana? A liberdade de expressão que os americanos afirmam não existir no Iraque de Saddam Hussein onde as pessoas vivem na sombra do medo e debaixo da bota do regime (expressão muito usada nos últimos dias nos briefings militares), marco primeiro de qualquer democracia que se preze, afinal parece também não proliferar por terras do Tio Sam. Como diz Clarice Starling a Hannibal Lecter em «O Silêncio dos Inocentes», era interessante que tal poder de percepção face aos outros, fosse apontado para si mesmo, ou por outras palavras, não era má ideia se olhasse para o seu umbigo. Uma guerra preventiva, partindo de si e a si dirigida, contra a crescente intolerância das autoridades americanas quando contrariada uma causa que se quer nacional? Será que a tal percepção só é possível à distância ou Hannibal Lecter reflecte mudo por um momento num claro reconhecimento (vertiginoso decerto) da sua monstruosidade?