31.3.03

OS MORTOS DE SOBRECASACA


A Lídia, leitora do Timewatching, demonstrou na janela Indiscreta a sua satisfação por aqui ter visto Carlos Drummond de Andrade, por isso mesmo aqui fica mais um brilhante exemplo da poesia de Drummond:


Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,
alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,
em que todos se debruçavam
na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca.
Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes
e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.
Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava
que rebentava daquelas páginas.
HELLO



É como se o eco fantasmagórico Is there anybody out there? dos Pink Floyd ressoasse através daquele HELLO que Jim, em «28 Dias Depois» de Danny Boyle, grita pelos corredores de um hospital deserto e pelo deserto das ruas de Londres. Este grito inicialmente de incompreensão, de pasmo e logo em seguida mais próximo de um registo de desespero, sofre, pelo menos, duas variações ao longo do filme: na barraca de cheeseburgers e no final não verbalizado mas imagético.
Jim entra na barraca e encontra uma família morta. O seu HELLO no instante da decoberta denota a resignação confiante de quem até aí não recebera resposta de uma voz sã, é um HELLO grave, seguro, certo da ausência de vida no meio da putrefacção. Mas alguém sobrevivera e o segredo da perdição (relativa na medida em que tudo se resume a matar ou morrer) de Jim está nesse recontro que acaba, inevitavelmente, na morte do infectado. Por outro lado, a salvação reside na message in the bottle derradeira, o SOS de três naufrágos cercados por mar numa ilha (quase) deserta.
A esperança está nas mulheres como pretendia o militar que os alicia até Manchester com a promessa de salvação? Não. A esperança é uma mulher, um homem e uma adolescente. A união na adversidade.


PROCESS OF GUILT: PORTRAITS OF REGRET


Portraits of regret (Outubro de 2002) é o primeiro trabalho em edição de autor da banda de doom metal, process of guilt. Para além das várias actuações do grupo eborense em diversos pontos do país, vale a pena salientar que foi considerado a demo do mês por uma revista da especialidade cujo nome agora me escapa (desculpa Nuno!). O grafismo do álbum é lindíssimo e da autoria dos próprios que passo a apresentar: Hugo Santos, Nuno David, Gonçalo Correia e Custódio Rato. Os process têm concerto agendado no Bar ADN em Setúbal para o próximo dia 1 de Maio. Para mais informações: process_of_guilt@hotmail.com

Um excerto da letra de «departure»:

And everyday I live
It’s just the same
Pain
Watching this
Departure of me

30.3.03

SOL DE VIDRO


Letárgico batia
Este humedecido sol de vidro,
Desnudando a fraqueza
Com a sua respiração escassa.


A nitidez ressoava distante,
Agitava-se num confim
De invisibilidade,
Decidindo em concílio secreto
O alvoroço tangencial da luz.


Arrastadas as trevas pela neblina,
Buliçosa e precoce
Nos pensamentos como no juízo,
Importunava palavras
(apenas palavras)
Com jogos de crédulos
Dissimulando os azuis evidentes
Da manhã cingida
De metamorfoses consecutivas
Até restarem apenas riachos escondidos,
Fontes cobertas de silvas –
A ressurreição da tepidez madura dos dias.


Inútil plantar roseiras.
Os olhos distinguem os espinhos somente.


Um nevoeiro entardecido,
Velho,
Cansado,
Subtrai-se à visão das paredes
E é ouvido pelas pedras.

29.3.03

NO HARD FEELINGS, GOD BLESS


Luís Castro, jornalista da RTP, relatou ontem no Telejornal a «humilhação», nas palavras do próprio, a que foi sujeito (juntamente com o repórte de imagem Vítor Silva) pela polícia militar americana no Iraque. Passados os 3 dias de inexplicável cativeiro acompanhado de uma situação de violência física, os portugueses são libertados com duas expressões características daqueles que, sem escrúpulos, pretendem desculpar tudo o que constitua dano colateral nesta guerra: No hard feelings, God bless.
É típico. A agressão, o pálido reconhecimento do erro e a cândida esperança de que não haja ressentimentos.

«Desculpa lá se te pusemos a bota na nuca, se te pontapeámos nas costelas, se não te deixámos dizer à família que estavas vivo, mas hey! Não somos soldadinhos de chumbo, estamos em guerra e quem vai à guerra dá e leva.»

«Civis iraquianos, não nos levem a mal se as bombas vos matam a vós e não aos vossos líderes, é caro o preço da liberdade (mesmo que depois cá não estejam para dela usufruir).»

O «God bless» é ainda mais pacóvio, mas este hábito das elites americanas de colocar sempre Deus ao barulho, bem como os seus congéneres árabes, nada tem de surpreendente. Deus tudo legitima, é uma espécie de «e não se fala mais no assunto», um divino selo de garantia se dúvidas ainda restassem quanto às boas intenções dos terreais salvadores da nação iraquiana.

«Vai na paz do Senhor e não me voltes a aparecer à frente!»

«Coitadinhos, são tão pobrezinhos e oprimidos, mas nós viemos ajudar-vos a ser riquinhos e livres e se Deus quiser (e nós deixarmos...) conhecerão e aceitarão a nossa imaculada moral que será acolhida pelos vossos encéfalos tolhidos por anos de ditadura, que Deus vos abençoe!»

Fundamentar a violência é já por si infundamentado, mas fazê-lo com palavras ocas é dar razão (e eu dou-a!) ao sábio Neil Hannon quando diz: «words said without feeling, never to heaven go». Há sempre uma promessa de repetição belicista num no hard feelings ou num God bless. É assustadora a naturalidade com que aquilo lhes sai. É mecânico. A impunidade confere a ilusão do poder ilimitado.
É esta a democracia que querem implementar no Iraque?
A LÓGICA DOS HOMENS


... a lógica dos homens, em vez de compensar a sua imbecilidade, duplica-a, triplica-a e torna-a ofensiva.


Javier Marías,
«Todas as Almas»

CERCADOS


A não muitos dias de sabermos que as tropas aliadas estão às portas de Bagdad, é pertinente ver «Cercados» de Ridley Scott, uma obra que ficou um tanto esquecida entre «Hannibal» e «Gladiator», mas cujo conteúdo não pode deixar de nos transportar para o actual momento de guerra no Iraque. Estabelecer-se um paralelo entre Bagdad e Mogadíscio é inevitável.

Quem cercará quem?

27.3.03

TIRANIA: UMA PERSPECTIVA


Neste curto mas elucidativo diálogo entres duas personagens do filme «Kafka», emerge uma perspectiva da tirania, uma teoria que qualquer tirano que se preze bem conhece e aplica como os do passado assimilaram e puseram em prática.


Doctor Murnau: A crowd is easier to control than an individual. A crowd has a common purpose. The purpose of the individual is always in question.

Kafka: That’s what you’re trying to eliminate, isn’t it? Everything that makes one human being different from another. But you’ll never reach a man’s soul through a lens.

Doctor Murnau: That rather depends on which end of the microscope you’re on, doesn’t it?


Saddam e Bush são alunos aplicados desta cartilha.
Estão do mesmo lado do microscópio. A lógica é a mesma.
DELICATESSEN


Vi anteontem pela primeira vez «Delicatessen», filme realizado pela dupla Jeunet e Caro. O mundo retratado é um misto de realidade e ficção, começando pelo edifício onde as personagens habitam e que é o único que resta entre os escombros de todos os outros que já haviam existido e acabando na caça ao alimento que comanda cada impulso cerebral dos inquilinos do talhante. O talhante. O típico homem egoísta que reúne uma diminuta corte de gente obediente porque esfomeada controlada com o mero cintilar do famigerado cutelo que cada novo ajudante acaba por sentir como o instrumento do talento do carrasco. Canibais. Por imposição das circunstâncias esquecem a sua condição humana, embora amem, procurem a morte, vejam televisão, limpem a casa, durmam, sejam dóceis ou violentos como acontece com os humanos. Mundo subterrâneo. Nos esgotos vivem os trogloditas, homens que renunciaram à corrupção do upper world , são os lúcidos dados como loucos. Devorar. Até hoje a barriga dos canibais não pára de crescer. Até um dia rebentar.
FROZEN JEWS



Já aqui falei de Avrom Sützkever, um dos maiores poetas Yidish, lituano de nascimento, sobrevivente do holocausto nazi.
Porque os inocentes continuam a morrer, deixo-vos um poema de Sützkever traduzido do yidish e por mim encontrado há um par de horas.

Have you seen, in fields of snow, frozen Jews, row on row?
Blue marble forms lying, not breathing, not dying.
Somewhere a flicker of a frozen soul - glint of fish in an icy swell.
All brood. Speech and silence are one. Night snow encases the sun.
A smile glows immobile from a rose lip's chill.
Baby and mother, side by side. Odd that her nipple's dried.


Fist, fixed in ice, of a naked old man: the power's undone in his hand.
I've sampled death in all guises. Nothing surprises.
Yet a frost in July in this heat - a crazy assault in the street.
I and blue carrion, face to face. Frozen Jews in a snowy space.
Marble shrouds my skin. Words ebb. Light grows thin.
I'm frozen, I'm rooted in place like the naked old man enfeebled by ice.




TEMPESTADE DE AREIA


Um dos convidados de Mário Crespo ontem na SicNotícias foi o meteorologista Anthímio de Azevedo, ali presente para, dentro do possível, explicar o porquê de uma tempestade de areia num deserto… claro, de repente tornou-se imprescindível averiguar as formas misteriosas de actuação da natureza, até que ponto pode esta invulgaridade (!) interferir no «Objectivo: Bagdad». Por entre tecnicismos indecifráveis que o nosso especialista português em tempestades de areia no Iraque proferiu (após 5 minutos de um discurso algo ininteligível ou, pelo menos, pouco simples, apressou-se o nosso entendido na matéria a ressalvar que o seu conhecimento não era o de um Lawrence da Arábia) apercebi-me do conteúdo da sua teoria que me pareceu, confesso, algo desajeitada (a teoria da relatividade também deve ter parecido desajeitada a muito boa gente e, no entanto, é, nada mais nada menos do que a teoria da relatividade!). Anthímio de Azevedo crê, apesar de não ser um Lawrence of Arabia, que as bombas que desde o início da ofensiva aliada têm caído em Bagdad seguidas das ondas de calor que, obviamente, despoletam, contribuíram para a violenta tempestade de areia registada na região. Desconheço a base científica para a elaboração deste enredo, mas não é suposto ser normal uma tempestade de areia num deserto?

26.3.03

O SORRISO DEPOIS DA PROMESSA


: )
OPINAR OU NÃO OPINAR, EIS A QUESTÃO


Bem sei que ter opinião e manifestá-la é um exercício que se impõe, mas não só porque agora fomos arrastados para uma guerra (?) suja e pessoal da dinastia Bush... hesito em expô-la aqui porque não conheço quem me lê... prometo que me esforçarei por fazê-lo, apesar desses rostos incógnitos que se fixam de quando em vez por aqui.

Aguardem...

25.3.03

RICHARD CORY


Quando Richard Cory ia à cidade,
As pessoas na calçada se voltavam para ele;
Era, da cabeça aos pés, um cavalheiro,
Os traços nítidos, senhorialmente esbelto.

Sabia vestir-se, mas sem afectação,
Quando falava era sempre muito humano;
Todavia, o coração acelerava-se ao ouvi-lo dizer “Bom dia!”
E ao andar dir-se-ia que tinha uma auréola.

Era rico, sim, mais rico do que um rei
E admiravelmente destro em todas as artes;
Nós, enfim, não nos cansávamos de supor
Que estar no seu lugar seria mais do que um sonho.

E assim trabalhávamos, aspirando à luz,
A maldizer o pão, vivendo quase à míngua;
E, numa calma noite de estio, Richard Cory
Foi para casa e estourou os miolos.



Edwin Arlington Robinson
«O FÍSICO PRODIGIOSO» DE JORGE DE SENA


Como o próprio autor confessa nas notas finais que acompanham a minha edição de “O Físico Prodigioso”, a novela baseou-se em dois “exemplos” do “Orto do Esposo”, livro moralístico-religioso da primeira metade do século XV: o do homem com poderes mágicos de cura através do seu sangue virgem, e o do homem que não conseguiam enforcar porque o diabo o levantava no ar.
Trata-se de um “conto” de imortalidade e de invisibilidade asseguradas pela posse de um barrete mágico e pela presença protectora do próprio diabo que retira prazer da mera observação das movimentações humanas (mas sempre com o seu quê de “maravilha”; e utilizo aqui a palavra maravilha no sentido com que a encontramos nos livros de cavalaria – acontecimento inverosímil) do protagonista cujo nome é por ele mesmo considerado acessório e assim ocultado.
Contudo, a contemplação do físico pelo diabo tem o seu custo: a alma vazada do jovem inicia-se na agonia de tudo ter. Desta forma, uma “rebelião” interior irrompe e interrompe a até então intocável plenitude de imortal de que gozava. É assim o seu zelo e não um diabo insatisfeito que o arrasta para um calabouço da inquisição onde permanecerá longos anos perdendo o viço que o caracterizara, mas transmitindo-o a outros por meio de uma obra de contaminação digna do seu patrono. Curioso é que o diabo, apesar da degradação física do seu protegido, não cessa de o amar salvando-o, inclusivamente, da provação última, a morte.
É uma novela que julgo “recuperar” o conceito de “aventura” tal qual exposto nos seus contornos essenciais nos livros de cavalaria. O absurdo, a tentação, a linha ténue que por vezes demarca o mal do bem, surgem no caminho do donzel apresentado sob uma luz aqui e ali semelhante à que ilumina um Galaaz, mas com uma diferença fundamental: Galaaz, o herói casto da “Demanda do Santo Graal”, serve Deus; o físico prodigioso é um escolhido do demónio (e assume várias formas ao longo do livro, identificando-se no entanto sempre pela referência à audição súbita de um “riso casquinado”). Ambos prisioneiros, embora de forças antagónicas.


24.3.03

SCIENCE FICTION


O marciano encontrou-me na rua e teve
Medo da minha impossibilidade humana.
Como pode existir, pensou consigo, um ser
Que no existir põe tamanha anulação da
Existência?



Carlos Drummond de Andrade

15.3.03

HOJE


É espreitar o post da Cristina Fernandes acompanhado de uma fotografia de Truman Capote por Henri Cartier-Bresson na Janela Indiscreta.


«Ouve-me, Buddy», lia numa novela
de Truman Capote: «só existe
um pecado imperdoável.
A crueldade premeditada»
THE UNKNOWN CITIZEN





(To JS/07 M 378
this marble monument
is erected by the state)


He was found by the Bureau of statistics to be
One against whom there was no official complaint,
And all the reports on his conduct agree
That, in the modern sense of an old-fashioned word, he was a saint,
For in everything he did he served the Greater community.
Except for the war till the day he retired
He worked in a factory and never got fired,
But satisfied his employers, Fudge Motors inc.
Yet he wasn’t a scab or odd in his views,
For his union reports that he paid his dues,
(our report on his union shows it was sound)
and our social psychology workers found
that he was popular with his mates and liked a drink.
The press are convinced that he bought a paper every day
And that his reactions to advertisements were normal in every way.
Policies taken out in his name prove that he was fully insured,
And his health-card shows he was once in a hospital but left it cured.
Both producers research and high-grade living declare
He was fully sensible to the advantages of the Instalment plan
And had everything necessary to the modern man,
A phonograph, a radio, a car and a frigidaire.
Our researchers into Public opinion are content
That he held the proper opinions for the time of the year;
When there was peace, he was for peace: when there was war, he went.
He was married and added five children to the population,
Which our eugenist says was the right number for a parent of his generation.
And our teachers report that he never interfered with their education.
Was he free? Was he happy? The question is absurd:
Had anything been wrong, we should certainly have heard.



W. H. Auden

14.3.03

«ESTAÇÕES DIFERENTES» DE STEPHEN KING


São conhecidas as frutuosas ligações mantidas entre Stephen King e o cinema, visíveis nas numerosas adaptações de algumas obras do autor norte – americano para o grande ecrã. E, para quem acredita que uma ida ao cinema não tem necessariamente de se esgotar no “The End” que com pena ou alívio vemos surgir na tela, King acaba por se transformar num autor de leitura incontornável sendo-o, aliás, desde a sua auspiciosa estreia como romancista com «Carrie» transposta para o cinema pelo realizador Brian de Palma, convertendo o título primeiro da sua já vasta produção num clássico da literatura e do cinema fantásticos.
«Estações Diferentes» rege-se pelo signo da violência e da morte (por vezes do horror – e não tanto do terror – tão recorrente na obra de Stephen King), mas também da redenção e da regeneração apesar de, em última análise, o carácter outonal do humano prevalecer e imperar o desencanto de um tempo perdido, irrecuperável. Todos somos anjos em queda e a primavera é somente o prenúncio do amarelecimento deteriorante (mas não isento de beleza) da vida. Quatro novelas (como o próprio autor as apelida) se distribuem pelas mais de quinhentas páginas do livro: «Os Condenados de Shawshank», «Aluno Dotado», «O Corpo» e «A Técnica de Respiração», cada uma correspondendo a uma estação do ano e às suas supostas implicações psíquicas.
King dificilmente se afasta do sobrenatural, no entanto, nas quatro novelas que compõem esta obra, apenas uma se reporta a um facto verdadeiramente implausível e, por isso mesmo, pertencente a essa “twilight zone” em que King sempre acaba por enredar os seus leitores. Falo de “A Técnica de Respiração”, o último dos textos, em que uma mulher grávida sofre um acidente de viação à porta do hospital onde iria dar à luz, sendo decapitada como resultado do violento impacto; contudo, quando seria de esperar a morte instantânea da mulher, aquilo a que incrédulos “assistimos” (quase como personagens da novela, como testemunhas que rodeiam o corpo incompleto da vítima) é à resistência respiratória da mulher para que o filho possa nascer como, na verdade, acaba por suceder morrendo a mãe de seguida. Aqui é criada uma dimensão marginal para contar o estranho caso narrado pelo médico que estivera presente, mas nos anteriores textos contidos na obra a dimensão é “terreal”, histórias possíveis embora sempre apimentadas por circunstâncias extra – ordinárias que, sem dúvida, ultrapassam o natural, mas cuja substância se detém sempre num inusitado universo provável. Senão vejamos: em “Os Condenados de Shawshank” a paciência e inteligência de um homem inocente acabam por resultar na sua fuga da prisão intransponível onde supostamente deveria morrer; em “Aluno Dotado”, um jovem americano descobre que um dos seus vizinhos é um antigo comandante de um campo de concentração nazi, estabelecendo-se uma relação de ódio e cumplicidade entre o caçador e a presa de contornos assustadores; por fim em “O Corpo”, um grupo de amigos enceta uma viagem em busca do corpo de um rapaz dado como desaparecido, este último particularmente divertido e comovente e, já agora, o meu preferido.




TODAY


Recomendo a leitura das considerações que Pedro Mexia faz na Coluna Infame a respeito do filme «O Futuro Radioso» de Atom Egoyan.


...os mortos reais e os mortos metafóricos são um só diagnóstico de um presente nada radioso.

13.3.03

ED GEIN


Por supostamente ter inspirado a criação dos assassinos de «O Silêncio dos Inocentes» e de «Psycho», quis conhecer (salvo seja!) Ed Gein, o pacato lavrador de Plainfield que em 1957 matou duas mulheres da pequena localidade no Wiscousin com rituais post-mortem inacreditáveis. Acirrado pela memória de uma mãe doentiamente religiosa e castradora, Gein decide punir as «meretrizes» (na linguagem bíblica que desde cedo lhe é incutida) que se lhe atravessam no caminho, guardando como «troféus» partes dos seus corpos. Poupo-me a mais pormenores. Não há subtileza nesta biografia de assassino porque Gein era tudo menos subtil: um homenzinho insignificante com uma desusada obsessão pela mãe que mata sem fazer um grande esforço para o ocultar. Tomavam-no por um simples ou um tímido e como tal era tolerado.
Buffalo Bill e Norman Bates, a ficção, supera a realidade.
FRAGILE


Convém que não nos esqueçamos...


If blood will flow when flesh and steel are one
Drying in the colour of the evening sun
Tomorrow’s rain will wash the stains away
But something in our minds will always stay

Perhaps this final act was meant
To clinch a lifetime’s argument
That nothing comes from violence and nothing ever could
For all those born beneath an angry star
Lest we forget how fragile we are

On and the rain will fall
Like tears from a star, like tears from a star
On and on the rain will say
How fragile we are, how fragile we are



Sting
HOJE ACONSELHO...


... uma passagem pela breve reflexão sobre «A streetcar named desire» de Elia Kazan em freira dadaísta.

É, então, um enredo sobre e do sentir, da vida, sobre o que importa, porque é lá que está o choque, a unificação e o brilho-poeira de quem, realmente, andou por aí.

12.3.03

«A LENTIDÃO» DE MILAN KUNDERA


A degustação do tempo. A sua recusa como passagem transversal de vacuidade. A sua aceitação enquanto usufruto de uma totalidade hedonística.
Aqui a vida é composta por generosas movimentações xadrezísticas, cerebrais e emocionais, abstractas e concretas, e é nesse tabuleiro pleno de ressaltos espaciais e temporais que as personagens díspares, incoerentes e profundamente humanas de Kundera se deslocam sem nunca na verdade se deslocarem.
Existências longínquas entrecruzam-se sem nunca se cruzarem numa real conjugação de experiências menores ou maiores. E é nesta estaticidade que também é uma circularidade que reside a génese da obra... os tempos e os espaços apenas se tocam, apenas se reconhecem e saúdam graças à lentidão, esse conceito abstracto que parece um rotundo nada, mas que se prolonga em reticências múltiplas até desembocar no concretismo absoluto e talvez por isso mesmo, absurdo.
As “peças” humanas estão dispostas numa ordem imperceptível, aleatória, mas lógica e apenas os sentidos desbaratados pelos desafios emotivos proporcionados pelo jogo constante, calculado ou instintivo, que as personagens entre si ou dentro de si e contra si próprias disputam, as fará compreender e assimilar, ainda que casual e inconscientemente, a “matemática existencial”, feita de rectas e curvas e equações e adições e subtrações e muita, muita incerteza. Vejamos o que o narrador nos diz a este respeito: “..., esta experiência assume a forma de duas equações elementares: o grau da lentidão é directamente proporcional à intensidade da memória; o grau de velocidade é directamente proporcional à intensidade do esquecimento.”.
E é a memória de um acontecimento com dois séculos que reúne dois homens marcados por um “rendez-vous” único, irrepetível, logo seguido de desencontro amoroso, da amargura do dia seguinte. O inverosímil encontro dos dois homens pertencentes a épocas distintas, levanta o véu do significado da enigmática lentidão que mais não é, afinal, do que a permanência dos afectos no seu imortal cultivo. A lentidão é plural e solidifica-se em raízes inquebrantáveis de velhas árvores seculares.
A UM NARIZ GRANDE


E o segundo:


Hoje espero, nariz, de te assoar,
Se para te chegar a mão me dás.
Ainda que impossível se me faz
Chegar a tanto eu como assoar-te,
Porque é chegar às nuvens o chegar-te.
Das musas a que for mais nariguda
Manda-lhe que me acuda,
Que se a fonte
De Pégaso é verdade está no monte,
O mais alto de todos em ti está,
Porque monte tão alto não no há.

Falta o saber, nariz, para o louvor
De que és merecedor.
Que hei-de dizer?
Para espantares tu hão-te de ver,
Porque nunca se pode dizer tanto
Que faça como tu tão grande espanto.
És tão grande, nariz, que há opiniões,
E prova-o com razões
Certo moderno,
Que em comprimento és, nariz, eterno,
Porque ainda que princípio te soubemos,
Notícia de teu fim nunca tivemos.

Cuido que sem narizes, por mostrar
Seu poder em acabar,
Sua grandeza,
Deixou gente sem conto a natureza
Que assoas, Gabriel, quando te assoas,
Os narizes de mais de mil pessoas.

Aos mais narizes dás o ser que tem,
Nariz, e daqui vem
Que os nossos são
Os narizes em que há mor perfeição;
Que se os negros os tem esborrachados,
É porque estão em ti mais apartados.
Dos narizes todos é sabido
Terem um só sentido,
E é assi;
Mas em ti, como corpo de per si,
Cinco sentidos há que, em conclusão,
És nariz que tem uso de razão.

E ainda que espante tanto nesta idade
Que por monstruosidade
Sejas tido,
Nariz, a muita gente tenho ouvido
Que ainda hás-de espantar mais na que há-de vir,
Porque ainda há muito em ti por descobrir.

Vai-te, canção, e diz a este nariz
Que eu sou o que te fiz.
E para lho dizeres
Daqui donde estás podes, se quiseres;
Não tens necessidade de abalar-te,
Porque este nariz está em toda a parte.



D. Tomás de Noronha
A UMA MULHER QUE SENDO VELHA SE ENFEITAVA


A mestria do barroco literário português em dois poemas de D. Tomás de Noronha, aqui vai o primeiro:


Escuta, ó Sara, pois te falta espelho
Para ver tuas faltas,
Não quero que te falte meu conselho
Em presunções tão altas;
Lembro-te só agora que és terra e lodo
E em terra hás de tornar-te deste modo;
Mas não te digo, nem te lembro nada,
Porque há muito que em terra estás tornada.

Que importa que algum tempo a prata pura
De tuas mãos nacesse,
E que de teus cabelos a espessura
As minas de ouro desse,
Se o tempo vil, que tudo troca e muda,
Somente de ouro pôs por mais ajuda
Em tuas mãos de prata o amarelo,
E a prata de tuas mãos em teu cabelo.

Se um tempo foram de marfim brunido
No século dourado,
Não vês que o tempo as tem já consumido?
Não vês que as tem gastado?
Deixa, Senhora, deixa os vãos enredos,
Pois quando toco teus nodosos dedos
Me parece que apalpo sem enganos
Cinco cordões de frades franciscanos.

Viciando a natureza com tuas tintas,
Com pincéis delicados
Jasmins e rosas em teu rosto pintas;
Deixa esses vãos cuidados,
Que quanto mais tua cara se alvorota,
Máscara me pareces de chacota;
E se sem tintas, cuido neste passo
Que esta máscara está em calhamaço.

Como pretendes pois com mil enganos
Vestir mil primaveras,
Se passou a primavera de teus anos?
Como não desesperas,
Se o tempo te pôs já no inverno frio
Adonde toda a fruta perde o brio,
Parecendo teu rosto, e porque enfada,
Fruta que se secou, noz arrogada?

Se feitura de Deus Eva não fora,
Dissera sem porfias
Que de Eva foste mãe, velha Senhora,
Pois te sobejam os dias
Para esta presunção, que agora tenho;
E concluindo enfim, a alcançar venho,
Pois alcançar não posso a tua idade,
Que deves de ser mãe da eternidade.

Parece que teus olhos, por consciência,
A idade os tem metidos
Em duas lapas fazendo penitência;
E estão tão escondidos,
Que quando os vou buscar, porque me choram,
Não acerto com o beco donde moram,
Porque o tempo os mudou seu passo e passo
Da flor do rosto lá para o cachaço.

Se a meus olhos despida te ofereces,
Minha alma logo pasma,
E estítica nos ossos me pareces,
Ou quando não fantasma;
E assim, senhora, se te vejo em osso,
Com essa cara posta em tal pescoço,
Me pareces, tirada a cabeleira,
Em cima de um bordão uma caveira.

Como ainda queres em desatinos
Dar a meninos mama,
Se já contigo desmamei meninos?
Deixa esse torpe fama,

Sabe que sei (e disto não me gabo)
Que te alugou sem dúvida o diabo,
Invejando teu corpo, cara e dedos,
Para fazer a Santo Antão os medos.

Deixa Senhora, deixa o vão cuidado,
A sagrado te acolhe,
Primeiro que te ponham em sagrado;
Este conselho escolhe,
Admite o que te digo sem desgosto,
Que eu quando vejo teu funesto rosto
Já também dele o seu conselho tomo,
Porque mudo me diz Memento homo.



D. Tomás de Noronha
( ? – 1651)
OBRIGADO


Pela referência ao Timewatching no Blog de Esquerda, em umblogsobrekleist e no Espigas ao Vento, aqui fica o meu agradecimento.
GANGS DE NOVA IORQUE


A história para lá da História é relativamente banal: um filho que quer vingar a morte do pai. Por outro lado, a História ou o momento histórico no qual as personagens se movimentam e do qual fazem parte, assume o interesse que as coisas pouco conhecidas sempre apresentam.
Selva urbana será, porventura, a expressão que melhor caracterizará uma cidade anárquica onde impera a lei do mais forte ou talvez não tanto do mais forte, mas do mais intimidante. E quem, senão um homem com o apelido de butcher para instigar o medo em «Five Points» (apesar de ele próprio admitir que o motivo da sua longevidade como soberano do bairro é o medo)? e temos um Daniel Day-Lewis espantoso na pele de Bill Cutting, o pseudo-guerreiro, o cruzado da pureza étnica dos nativos americanos (como se tal fosse possível!). Mas não será este «patriotismo» de Cutting um pretexto para o que na realidade e acima de tudo o move, a detenção do poder? No entanto, é um homem que arranca o próprio olho que não conseguiu encarar o inimigo que o poupou…
A batalha entre gangs rivais no início da película é memorável, bem como aquele afastamento progressivo do campo de batalha com um triângulo tingido de sangue no meio da cidade coberta de neve.

O SONHO É UM JOGO


O sonho é um jogo que monopolizo em meu benefício com a participação por mim manipulada de terceiros.
Quando se torna difícil adormecer, tento forçar um sonho com um tema e personagens que se incorporem na minha intenção, no meu anárquico apetite do momento.
Acontece por vezes esse pequeno mundo ruir antes de respirar, adormeço no cansaço que a criação exige e, como uma intacta cidade-fantasma, o sonho edificado mas não “vivido” é adiado para uma outra noite de insónia.



Fernando Félix

11.3.03

HÁ PALAVRAS QUE NOS BEIJAM


Há palavras que nos beijam
como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
de imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
quando a noite perde o rosto;
palavras que se recusam
aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
entre palavras sem cor,
esperadas inesperadas
como a poesia ou o amor.

(o nome de quem se ama
letra a letra revelado
no mármore distraído
no papel abandonado)

Palavras que nos transportam
aonde a noite é mais forte,
ao silêncio dos amantes
abraçados contra a morte.



Alexandre O'Neill
TRAINSPOTTING


Haverá rebeldia sem causa? Mesmo no mítico filme de Nicholas Ray interpretado pelo rebelde por excelência, James Dean, se torna evidente que a pose rebelde não é um acaso e esconde sempre uma motivação por mais obscura ou coberta que se encontre pela densa cortina do grande teatro do mundo.
Um modelo de sociedade esgotado aos olhos de uma juventude para a qual a esperança é utopia, à qual a expectativa legítima num sonho de futuro é negada no que é entendido como uma espoliação, um saque, um acto de pirataria social e humana pode, para começar, constituir-se como soberana causa para comportamentos marginais, desafiadores da ordem instituída, ordem essa gasta por excessivas circunscrições morais nascentes de um novo cinzentismo europeu, versão anos 90. As jovens personagens de “Trainspotting” criam ficções individuais dependentes da dependência de substâncias químicas e entram “alegremente” no mercado dos sonhos possíveis, voláteis como a sua própria existência de repetido risco, ilusórios como qualquer alienação provocada e, sobretudo, não compatível com o estado que buscam por meio da experimentação sem franjas inovadoras porque o caminho que escolhem percorrer (e é uma questão de escolha escolher não escolher a vida) é redundante dentro dos padrões de rebeldia na medida em que já havia sido mil vezes calcorreado por outros tantos rebeldes repletos de causas e razões. Não confundamos porém causas e razões com validação elementar de atitudes: Edimburgo, a Escócia, o Reino Unido, a Europa, repelem a transgressão, vêm nela uma doença sem causa aparente.
A droga é a garantia de uma pacífica “after-life” momentânea, tal como o seria a vitamina C caso fosse ilegal. Um tédio quase baudelairiano parece igualmente reger esta geração de excluídos na noite do além-sonho. Os punks compraziam-se na manifestação ostensiva da sua ostensiva diferença, estes filhos de hippies retardatários ou de hippies convertidos ao facilitismo material, pelo contrário, albergam-se, barricam-se na noite claustrofóbica, em apartamentos bafientos, discotecas e bares onde a ilegalidade é a lei. Réplicas de almas nobres dançando ao som da liberdade reinventada segundo os mesmos moldes de sempre, encontram somente o novelo labiríntico do cansaço, da exaustão, apenas dinâmicas no linguajar primordial e tão honesto que confere acção ao que apenas são palavras. Não é fácil ser a reprodução de uma reprodução de uma reprodução... ad aeternum.




3.3.03

AO LARGO


Ao largo da costa
Tudo fazia sentido.

Ter os pés em terra,
Era tê-los descalços,
Feridos pela dura c o n s t â n c i a
De não saber onde ficava a terra do sentido.

E se a terra do sentido fosse o mar?

Os pinheiros
Lançam o subtil aceno de terra
E embora sejam minúsculas silhuetas,
Etéreas copas de céu,
Prendem as rugas
Do céu que tocam.

1.3.03

LEITURAS


Site no qual colaboro dedicado ao resumo e recensão de livros, aberto à participação de todos os leitores em: http://leituras.no.sapo.pt
DAMAS


Jogo perverso.
Aconselham-me a jogar e não pensar.
Eu penso e não jogo.
TRÊS, DOIS, UM


Fernando Félix, leitor recente deste também recente blog, envia-me este pequeno texto que não resisto a publicar:


1. Crivar o mundo de esquinas que, uma vez dobradas, mostrem portas semi-abertas à espera da mão que as empurre.

2. Ultrapassar umbrais e ultrapassar o medo do escuro.

3. Descer escadas com os pés prestes a resvalarem para o fundo, sentir o vazio no estômago e retomar a segurança do corrimão.



Asseguras-me que se trata da contagem para a tua "sobrevivência", "numerada mas sem ordem definida".
Eu reduziria os teus três items a apenas uma palavra, mas não me apetece dizer qual...