28.2.03

THE SHINING


Revi-o. Pela décima vez? anda por aí...

A edição que existe em DVD e que faz parte da colecção Kubrick só tem um defeito (e julgo que os apreciadores do filme concordarão comigo): os extras sabem a pouco. Contudo, o curto "making of" de Vivian Kubrick dá todo o relevo à figura de Jack Nicholson, recomenda-se.


O COMPANHEIRO SECRETO


E subitamente senti-me muito feliz pela grande segurança do mar, quando comparada com a inquietação de terra firme, por ter escolhido essa vida sem tentações e que não apresentava problemas perturbadores, dotada de uma certa beleza moral pela absoluta clareza do seu apelo e pela singeleza dos seus propósitos.


Joseph Conrad,
“O Companheiro Secreto”

27.2.03

FRAGMENTOS


Recomendo uma audição do trabalho "Mais... uma vez" da promissora banda de Guimarães Fragmentos.
Porque é que não ouço falar deles?

21.2.03

BREVE BIOGRAFIA DE VAN GOGH


Agride e esculpe o malogro.
A narração dos depósitos sequenciais de memória
Confunde-se com os poços de luz escondida,
Atirada para o fim sem o estreitamento do braço imóvel
Ou o envelhecimento da identidade,
Agora improvisada.
A lógica não tem representação pictórica,
Por isso o desconhecimento,
A penitente ausência de uma denunciada vacilação
À tela de mármore.
O testemunho da cadência da cor
Sobreviveu aos ciprestes flamantes
Dos firmamentos circulares.
Os sulcos de tinta,
Aproximam as órbitas de dor
E a moagem chora escombros,
Jardins desertos
E chumbo que,
Antevemos,
Irá desabar no campo de trigo.
SILÊNCIO


Tudo o que quis foi dizer que não valia a pena o massacre das palavras que, fustigadas pelas lágrimas, deixavam de possuir aquele travo salgado sincero e passavam a saber a sal travado e contido e nada despedaçado pela segmentação colorida das sílabas torcidas e espiraladas que soletravam um caminho de pureza. Mas que sabia ela a respeito da pureza? A pureza era um braço sem corpo, trucidado numa chacina distante, num qualquer país sem mapa, nem nevoeiros, nem tão pouco armaduras reluzentes que evocassem uma equívoca glória passada de generais sentados em cavalos, observando a batalha perdida na segurança de uma colina sem flores que chorassem sangue. A pureza coincidia com o horror e como o horror lhe era interdito em vagos dedos espalmados contra lábios fechados, ou em mãos de prece, ou num olhar de repreensão, suficientes para reter o seu impulso de seguir as pedras coloridas que dessem acesso à penumbra da verdade ocultada em enormes casulos impossíveis, rachados, lascados, aguardando apenas a quebra do proibido, acabou por compreender que lhe era exigida a cegueira. E foi então que se esforçou para ser bem sucedida a mutilação que gerações de mutilados clamavam.
AVROM SÜTZKEVER


Soube da existência do poeta lituano Avrom Sützkever através do texto «Shalom, Poeta» de Luis Sepúlveda e dele conheço apenas aquilo que Sepúlveda divulga na sua crónica, alguns dados biográficos e excertos da sua poesia de resistência. Como explicar, por isso, a minha fascinação por Sützkever se acedi apenas a retalhos mínimos da sua obra? Porque o lituano sobreviveu a um monstro a que chamamos inevitabilidade e soube relatar o seu tímido heroísmo pessoal quando o mundo que conhecera desabara à sua volta:

Poderão naufragar barcos em terra?
Eu sinto que debaixo dos meus pés naufragam barcos.


Enquanto cava a sua própria sepultura sob o olhar dos algozes, sucede-lhe partir um verme em dois:

O verme partido em dois faz-se em quatro
Outro corte outra vez e multiplicam-se os quatro
E todos estes seres criados pela minha mão?
Regressa então o sol ao meu humor sombrio
E a esperança dá-me força ao braço:
Se um vermezinho não se rende à enxada
És tu acaso menos que um verme?


Poucas palavras me terão abalado tanto como estas pelo que contêm de humanidade renascida numa humanidade desconcertada.
Sützkever não está traduzido em português, o que não constitui propriamente uma surpresa, mas os fragmentos que existem na nossa língua graças à tradução da obra de Sepúlveda, embora não suficientes, são preciosos exemplos de como o horror pode resultar em poesia, em beleza e em como o Homem se despe de si para reentrar em si, reencontrando-se nos abismos mais inacessíveis da sua condição. O chicote não apaga o Homem.
SORRISO ENIGMÁTICO?


Lá está ela na sua pose eterna com um sorriso que o vidro que a reveste e os turistas de máquinas fotográficas em punho não permitem desvendar. O reflexo dos flashes no vidro e o meu reflexo (e o de mais algumas dezenas de pessoas...) a sobrepôr-se ao rosto tão estudado da Mona Lisa de Da Vinci. Estive lá, rondei a redoma, mas apenas consegui vislumbrar-lhe o sorriso nas reproduções que se vendem dentro do Louvre, nos arredores do Louvre, por toda Paris. Isto sim, o verdadeiro enigma.

20.2.03

ANJOS EM QUEDA


Todos somos anjos em queda e a primavera é somente o prenúncio do amarelecimento deteriorante (mas não isento de beleza) da vida.
A VOZ


Comecei por te dizer que nem sequer tinhas voto na matéria no que respeitava à tua voz porque só eu a ouvia na sua redondez pura, primária, só eu conhecia a verdade do seu som.
A voz própria lateja dentro do próprio como se palavras absurdas fossem lançadas a um recipiente metálico com o intuito único de apreciar o efeito de eco que o Verbo provoca no portador do elemento estranho em que dificilmente nos reconhecemos. A esterilidade do solo é evidente. Não nascerão girassóis na terra grumosa da perplexidade ante o que todos dizem que me pertence. Mas, no reconhecimento amplo dessa voz que me chega do exterior, detecto o seu corpo sensível e sei que a ouço em primeira mão, o meu acesso a ela é pleno. E é tua. A voz. E a minha, para mim, é apenas um projecto de som, um ruído ainda em perspectiva sem grande probabilidade de êxito entre os demais ruídos. Nunca saberei escutá-la como minha.
NAKED


Louise: How did you get here?

Johnny:Well, basically, there was this little dot, right? And the dot went bang and the bang expanded. Energy formed into matter, matter cooled, matter lived, the amoeba to fish, to fish to fowl, to fowl to frog, to frog to mammal, the mammal to monkey, to monkey to man, amo amas amat, quid pro quo, memento mori, ad infinitum, sprinkle on a little bit of grated cheese and leave under the grill ‘till doomsday.


(do filme «Naked» de Mike Leigh)
MUNDO É COMÉDIA


Dez figas para vós, pois com furtado
Consular nome vos chamais Prudência,
Se, fazendo co’o Mundo conferência,
Discursais, revolveis, e eis tudo errado!

Quem vos vir, Apetite, disfarçado,
Digno vos julgará de reverência;
E a vós, Ódio, por homem de consciência,
Vendo-vos tão sesudo e tão pesado.

Dois a dois, três a três e quatro a quatro,
Entram, de flamas tácitas ardendo,
Astutos Paladiões em simples Tróias.

Quem enganas, ó Mundo, em teu teatro?
A mi não, pelo menos, que estou vendo
Dentro do vestuário estas tramóias.



D. Francisco Manuel de Melo



A agudeza certeira da poesia barroca...

19.2.03

BATTLE ROYALE: O FUTURO É AGORA



Forma de combate à indisciplina juvenil no Japão num futuro não muito distante: seleccionar uma turma de adolescentes de 15 anos todos os anos, raptá-los, reuni-los, informá-los de que estão numa ilha deserta sem fuga possível e que, ao fim de três dias, apenas um pode restar, caso contrário o colar que todos têm preso ao pescoço explodirá. Único saída para cumprir o objectivo imposto: matarem-se uns aos outros.
Trata-se de um filme inspirado na cultura dos jogos de computador, sendo que é assumida uma postura crítica ao actual momento da sociedade japonesa (e o paralelo com outras sociedades ditas civilizadas é inevitável…) profundamente sarcástica. A tragédia, o sangue provocam o riso no espectador… e quando é conseguido este efeito (claramente desejado pelo realizador) que nos resta senão interrogarmo-nos (e aqui peço emprestado o título do poema de D. Francisco Manuel de Melo): O mundo é comédia?
ACORDEI COM A CASA A ESTREMECER



Acordei com a casa a estremecer, a ondular como se o mar a tivesse tragado e já à deriva flutuasse, improvável jangada de betão cedendo à violência das águas argilosas, solo vacilante mas sólido, bíblico, incerto.
Acordei e a minha esperança, a minha egoísta esperança, era que um peixe voador esbarrasse contra a minha janela acossada pela força súbita e em breve pretérita do vento. Apenas ouvi o som de uma porta a fechar-se com a robustez que as coisas repentinas sempre parecem possuir.
Acordei, abri a porta fechada e o vento calou-se.
AS COISAS QUE IMPORTAM



As coisas mais importantes são as mais difíceis de dizer: São as coisas de que nos envergonhamos, porque as palavras as diminuem - as palavras encolhem as coisas que parecem ilimitadas quando estão na nossa cabeça até ficarem de tamanho real quando são deitadas cá para fora. Mas não é só isto, pois não? As coisas mais importantes encontram-se demasiado perto do local onde está enterrado o nosso coração secreto, como marcos a assinalar um tesouro que os nossos inimigos adorariam roubar. E podemos fazer revelações que nos sairão bastante caras e fazer com que as pessoas nos olhem com estranheza, sem perceber nada do que dissemos. Isso é o pior, creio eu. Quando o segredo fica fechado cá dentro, não porque não haja ninguém para o revelar, mas sim por falta de um ouvinte compreensivo.


Stephen King
«Estações Diferentes» («O Corpo«)