13.6.03

MANHÃ DE JUNHO


Talvez, talvez sejam os últimos
dias. Se for assim, são um esplendor.
Apesar dos aviões da Nato despejarem
bombas e bombas no Kosovo, a perfeição
mora neste muro branco
onde o escarlate
da flor da buganvília sobe ao encontro
da luz fresca da manhã de Junho.
A beleza (não há outra palavra
para dizê-lo), desta manhã
é terrível: persiste, domina,
apesar dos aviões, mesmo com
bombas a cair e crianças a morrer.




Eugénio de Andrade

12.6.03

INDO PARA O LEITO





Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz;

Até que eu lute, em luta o corpo jaz.

Como o inimigo diante do inimigo,

Canso-me de esperar se nunca brigo.

Solta esse cinto sideral que vela,

Céu cintilante, uma área ainda mais bela.

Desata esse corpete constelado,

Feito para deter o olhar ousado.

Entrega-te ao torpor que se derrama

De ti a mim, dizendo: hora da cama.

Tira o espartilho, quero descoberto

O que ele guarda, quieto, tão de perto.

O corpo que de tuas saias sai

É um campo em flor quando a sombra se esvai.

Arranca essa grinalda armada e deixa

Que cresça o diadema da madeixa.

Tira os sapatos e entra sem receio

Nesse templo de amor que é o nosso leito.

Os anjos mostram-se num branco véu

Aos homens. Tu, meu Anjo, és como o Céu

De Maomé. E se no branco têm contigo

Semelhança os espíritos, distingo:

O que o meu Anjo branco põe não é

O cabelo mas sim a carne em pé.

Deixa que a minha mão errante adentre

Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.

Minha América! Minha terra à vista,

Reino de paz, se um homem só a conquista,

Minha Mina preciosa, meu Império,

Feliz de quem penetre o teu mistério!

Liberto-me ficando teu escravo;

Onde cai minha mão, meu selo gravo.

Nudez total! Todo o prazer provém

De um corpo (como a alma sem corpo) sem

Vestes. As jóias que a mulher ostenta

São como as bolas de ouro de Atalanta:

O olho do tolo que uma gema inflama

Ilude-se com ela e perde a dama.

Como encadernação vistosa, feita

Para iletrados, a mulher se enfeita;

Mas ela é um livro místico e somente

A alguns (a que tal graça se consente)

É dado lê-la. Eu sou um que sabe;

Como se diante da parteira, abre-

Te: atira, sim, o linho branco fora,

Nem penitência nem decência agora.

Para ensinar-te eu me desnudo antes:

A coberta de um homem te é bastante.




John Donne
TRATADO DO EGOÍSMO


Sucedeu-me nascer egoísta. Não é que me faltasse generosidade, mas também não sobrava e apesar de não me importar que os outros possuíssem, a verdade é que só sossegava se também eu possuísse. Fosse o alpista especial para dar ao canário sempre que não cantava com aquela vontade que nós humanos gostamos de ver num animal, mesmo que a não tenhamos a não ser para ouvir o pássaro cantar todas as manhãs com um trinar minimamente audível e agradável, substituindo o horrível despertador que penetrava paredes, furava canos e colidia com janelas, estilhaçando cabeças ensonadas logo àquela hora imprópria, estragando o dia a um prédio de 3 andares; fosse o bâton da Célia que era, na verdade, o seu único indício de beleza e que ela esfregava nos lábios com a sofreguidão de quem o sabe como qualquer pessoa que a visse do lado esquerdo, lado em que o nariz ganhava uma dimensão cruel, estranhamente mais saliente e o olho vesgo parecia saltar da órbita pisada e a bochecha excessivamente sardenta refulgia como um aquário fosco em que se vissem apenas pequenos pontos no lugar dos peixes; fosse o amor que até a vizinha do rés-do-chão ainda sentia aos 86 anos e do qual tanto alarde fazia quando eu bem sabia que o Sr. Adérito, 18 anos mais jovem do que a esposa, se demorava em cinemas pouco recomendáveis na companhia de colegiais à procura de maneiras de manifestar a sua rebeldia.
Até me rio sozinha quando penso no alpista e no bâton! Isto são coisas que se invejem? Mas a velha, mesmo enganada não o sabia e vivia a sua ilusão de amor eterno, e eu cobiçava secretamente ser traída... destruir aquela segurança era o primeiro passo a dar. Enviei uma carta batida à máquina ( anónima, como convém) indicando-lhe a morada do cinema e as sessões diletas do seu dileto maridinho. Passaram-se semanas e ela insistia em louvar as qualidades do paneleiro que tinha em casa, até que, como se a carta recolhida tivesse ficado esquecida a um canto e subitamente a visse quando limpava a jarra da dinastia mung, comecei a ouvir um arfar asmático do fundo das escadas e passos indecisos. A porta bateu violentamente, como se quatro braços humanos a segurassem e a arremessassem contra a parede e, por momentos, duvidei da sinceridade da velha, teria ela realmente a idade que com tanto à vontade propagandeava?
O Adérito nem voltou para casa. Eu não tinha amor, mas ela também nunca mais dele se poderia gabar. E foi então que o Alberto apareceu, substituindo o amor de mulher pelo amor de mãe.
Ela até podia ter as persianas mais impecavelmente limpas do bairro, mas eu já só lhe invejava essa dedicação saída do nada de um filho saído do nada amparando-a com nada, só com essa presença de amor que lhe iluminava a fronte cinzenta agora sorridente exibindo-se à vizinhança com o filho pelo braço, orgulhosa de um braço forte amparar o seu, acreditava ela, para sempre.
As paredes do prédio não existiam e assim pude acompanhar as exigências de dinheiro, dinheiro que a mamã dizia não possuir.
Os cheques que o carteiro teimosamente enfiava na minha caixa de correio e que eu sempre devolvia à caixa da velhota, chegaram ao conhecimento do Alberto através de uma entrevista que lhe solicitei alegando motivos de interesse para ambos. Cobiçava-lhe o dinheiro e o filho e descobri que ao 3º encontro, para além de cobiçar o dinheiro que eu sabia existir, o Alberto também já me cobiçava a mim. Felicidade! Redimo-me do meu pecado vislumbrando-o em outrem.
Atirou-se de uma janela, apesar de viver num rés-do-chão. E a polícia nem inquiriu sobre esse facto, uma ideia do meu Alberto. Levar a mãezinha ao pombal lá em cima com a intenção de lhe mostrar o pombo campeão comprado para competição para conseguir o tal dinheiro que precisava, lembra-se mãe?
Com o bâton que eu já possuía tingiu o passeio (onde já se viu uma matrona daquela idade pintar-se daquela maneira?), entornou alpista que eu já possuía e que albergava no avental por todo o asfalto e o amor que tinha pelo filho que a matou deixou-mo em herança e já o multiplicámos por 5. Afinal, pensando bem, não sou assim tão egoísta.

22.5.03

O DESAFIADOR






Na ronda pelos jornais da nossa praça encontrei esta pérola... imperdível.



Apesar do mito e do que se diz e escreve dele, há sempre coisas a aprender com Vincent Gallo. Por exemplo, que é uma "pessoa mesquinha". Ontem, não fez cerimónias, e disse mal de Kirsten Dunst ou de Wynona Rider, que estavam previstas para entrar no filme como duas das raparigas com quem Bud se cruza no seu percurso; com nenhuma das actrizes o encontro foi frutuoso, mas com a frágil Wynona, de quem Gallo foi o protector na rodagem de "A Casa dos Espíritos", foi especialmente cruel - "a minha ideia era ter Winona no filme; acredito que ela roubou mesmo aquela loja, podia ser bom para 'Brown Bunny'".

Pode descobrir-se, ainda, que nunca leu um livro. Provocação de um actor, realizador, músico, fotógrafo, manequim e etc.? "Numa provocação há sempre verdade. De facto nunca li um romance. Li partes de 'O Padrinho', na altura em que o filme saiu, mas deixei-o a meio. Vivi algum tempo com William S. Burroughs, mas nunca li nada dele, a não ser postais que me enviava. Nunca li um argumento, mas consigo estar horas a ouvir um realizador a contar-me a história do seu filme. A palavra escrita não me provoca emoção. Os meus pais não liam. A Bíblia lá de casa nunca foi lida. Só consigo ler livros técnicos, porque servem para concretizar algo ou melhorar a produtividade".

Nesta altura, a sua produtividade em termos do que é habitual numa conferência de imprensa já era grande e Gallo conquistara a sala do Palais des Festivals. O encontro começara mal, no entanto, com promessas de provocações mútuas e este diálogo:

- Queríamos saber se o pénis que se vê no filme é verdadeiro ou é uma prótese?

- Vejo que ficou a pensar nesse assunto, é porque ficou impressionado!

Gallo não virou a cara ao desafio, e a sua candura tratou do assunto. "Ego trip? Ainda não viram uma 'ego trip' de Vincent Gallo. Andam a dizer pelas minhas costas que tenho um ego gigantesco. Isso não me afecta. Há muito que decidi aceitar o facto de não ser popular. É a zona em que me sinto bem. Na escola infantil, eu era o Mr. Popular. As amigas da minha mãe e as miúdas gostavam de mim, porque eu era louro. A certa altura, o meu cabelo escureceu e tornei-me menos escandinavo. A minha reacção foi proteger-me, e decidi não estar aberto nem à amizade nem ao amor. Por receio de rejeição. É por isso que chego tarde aos encontros. Se chego a horas, pode haver sempre o caso de alguém não aparecer".

E assim falou Vincent, que foi visto na Croisette com uma camisola com uma palavra mágica escrita nas costas: "Gallo". Alguém lançou: "Tem medo que se esqueçam dele".
(Vasco Câmara IN «Público»)

21.5.03

SEVILHA


Em Sevilha, ciganas de vestidos coloridos e rodados com rosas inertes, já murchas do calor andaluz encostadas ao peito, cercam-me e acercam-se da minha mão para abrirem a palma afogueda à adivinhação dos olhos treinados. Sabem bem o que dizer ao "tipo" a que aparentemente pertenço, como sabem ao alemão que se aproxima com um sorriso de curiosidade complacente face à exótica postura das sevilhanas. Melhor só em Barcelona, onde me podem relatar o destino em castelhano, catalão, inglês, alemão, francês e italiano. Cartomantes poliglotas.

Hoje, agarram na mão livre (na outra está a caneca de cerveja, claro está!) de um adepto do Celtic de Glasgow e asseguram-lhe que dali a poucas horas a taça UEFA estará na mão dos escoceses. E agarram na mão livre do adepto do Futebol Clube do Porto (na outra está o farnel, pois claro!) e garantem-lhe que a vitória já lhes não foge.

Business.
PODE ALGUÉM SER QUEM NÃO É





- Senhora de preto
diga o que lhe dói
é dor ou saudade
que o peito lhe rói
o que tem, o que foi
o que dói no peito?
- É que o meu homem partiu

Disse-me na praia
frente ao paredão
"tira a tua saia
dá-me a tua mão
o teu corpo, o teu mar
teu andar, teu passo
que vai sobre as ondas, vem"

Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?

Seja um bom agoiro
ou seja um mau presságio
sonhei com o choro
de alguém num naufrágio
não tenho confiança
já cansa este esperar
por uma carta em vão

"por cá me governo"
escreveu-me então
"aqui é quase Inverno
aí quase Verão
mês d'Abril, águas mil
no Brasil também tem
noites de S. João e mar"

Pode alguém ser quem não é?

É estranho no ventre
ser de outro lugar
e tão confusamente
ver desmoronar
um a um sonhos sãos
duas mãos
passando da alegria ao desamor


Pode alguém ser livre
se outro alguém não é
a algema dum outro
serve-me no pé
nas duas mãos,
sonhos vãos, pesadelos
diz-me:
Pode alguém ser quem não é?
MORRESTE-ME





Sublinhei:


Comigo, a casa estava mais vazia. O frio entrava e, dentro de mim, solidificava. As várias sombras da sombra de mim, imóveis, passeavam-se de corpo para corpo, porque todos eles, todos meus, eram igualmente negros e frios. E abri a janela. Muito longe do luto do meu sentir, do meu ser, ser mesmo, o sol-pôr a estender-se na aurora breve solene da nossa casa fechada, pai. E pensei, não poderiam os homens morrer como morrem os dias?...



José Luís Peixoto,
«Morreste-me»

20.5.03

THE TETONS AND THE SNAKE RIVER



Ansel Adams, 1942


Uma serpente esgueira-se por entre os picos nevados iluminados de uma cordilheira que tem por limite a cauda invisível do réptil aquoso.



ACRESCENTAR


Uma das últimas detecções do blogo é o Acrescentar, um blog que promete acrescentar novos ingredientes de bom-gosto ao panorama bloguístico português. Aconselho vivamente uma visita. Já o acrescentei aos meus favoritos.
SABEDORIA


A sabedoria é o lado épico da verdade.



Walter Benjamin

19.5.03

UM PRADO NO TEJO


É quando se atravessa a Ponte Vasco da Gama a determinada hora de maré baixa. Quem for desperto junto à janela tem o privilégio único de ver um vastíssimo prado a estender-se onde deveria estar o rio e não há lugar para questionamentos racionais, interrogações filosóficas e existenciais, análise depurada do fenómeno. Apenas encosto a testa ao vidro e acredito na realidade do surreal.
NOVA IORQUE


(...)

Nova Iorque, no seu estridor e na sua severa decrepitude castanha, no seu insondável declínio, gera sempre algumas manhãs estivais como esta, manhãs invadidas em todo o lado por uma afirmação tão determinada de vida nova que é quase cómica, como uma personagem de cartoon que sofre infindáveis e horrendos castigos e sai sempre incólume, ilesa, pronta para mais.

(...)




Michael Cunningham,
«As Horas»

17.5.03

ASSIS NA BOCA DO LOBO


Em Felgueiras há polícias, pelo menos vi-os nas imagens televisivas, no entanto (e aqui é que me parece que reside o equívoco de alguns), para conter a multidão em fúria era necessário um contingente que, julgo, nenhum cidadão comum em situação semelhante receberia. A isto chamo igualdade. E, afinal, quem o mandou ir a Felgueiras exactamente no dia em que se realizaria uma manifestação de apoio à ex-presidente da câmara? Bom-senso precisa-se...
THE LIE



Sir Walter Raleigh


Go, Soul, the body's guest,
Upon a thankless errand;
Fear not to touch the best;
The truth shall be thy warrant:
Go, since I needs must die,
And give the world the lie.

Say to the court, it glows
And shines like rotten wood;
Say to the church, it shows
What's good, and doth no good:
If church and court reply,
Then give them both the lie.

Tell potentates, they live
Acting by others' action;
Not loved unless they give,
Not strong but by a faction.
If potentates reply,
Give potentates the lie.

Tell men of high condition,
That manage the estate,
Their purpose is ambition,
Their practice only hate:
And if they once reply,
Then give them all the lie.

Tell them that brave it most,
They beg for more by spending,
Who, in their greatest cost,
Seek nothing but commending.
And if they make reply,
Then give them all the lie.

Tell zeal it wants devotion;
Tell love it is but lust;
Tell time it is but motion;
Tell flesh it is but dust:
And wish them not reply,
For thou must give the lie.

Tell age it daily wasteth;
Tell honour how it alters;
Tell beauty how she blasteth;
Tell favour how it falters:
And as they shall reply,
Give every one the lie.

Tell wit how much it wrangles
In tickle points of niceness;
Tell wisdom she entangles
Herself in overwiseness:
And when they do reply,
Straight give them both the lie.

Tell physic of her boldness;
Tell skill it is pretension;
Tell charity of coldness;
Tell law it is contention:
And as they do reply,
So give them still the lie.

Tell fortune of her blindness;
Tell nature of decay;
Tell friendship of unkindness;
Tell justice of delay:
And if they will reply,
Then give them all the lie.

Tell arts they have no soundness,
But vary by esteeming;
Tell schools they want profoundness,
And stand too much on seeming:
If arts and schools reply,
Give arts and schools the lie.

Tell faith it's fled the city;
Tell how the country erreth;
Tell manhood shakes off pity
And virtue least preferreth:
And if they do reply,
Spare not to give the lie.

So when thou hast, as I
Commanded thee, done blabbing—
Although to give the lie
Deserves no less than stabbing—
Stab at thee he that will,
No stab the soul can kill.




Sir Walter Raleigh

16.5.03

A GENTILEZA


O conteúdo das inúmeras cartas de resposta às minhas inúmeras candidaturas espontâneas são sempre (compreensivelmente!) fabricadas segundo um modelo comum a tantos outros infortunados candidatos e acompanha-as uma fria gentileza que me permite detectar um «... lamentamos todavia informar que neste momento não é possível dar satisfação ao seu pedido...» mesmo antes de abrir o sobrescrito. A última que recebi foi ontem. Em papel lindíssimo como que para suavizar a má notícia, com o nome da instituição no topo e o logótipo num baixo relevo de muito bom gosto. Até têm razão (será a utlização do papel parte de uma estratégia aconselhada por um grupo de psicólogos contratados para o efeito?)... ler aquela nega naquele papel deixou-me indiferente, provavelmente se o papel fosse rasca não reagiria com uma não-reacção.
O PORCO





Vendedores de rua faziam bom negócio com um brinquedo de papel que representava um porco: dobrando e desdobrando o papel de determinada maneira, o boneco transformava-se na cara de Hitler.



Wladyslaw Szpilman,
«O Pianista»

14.5.03

ADVOGADO DO DIABO x 2


Desconhecia existir em tão distante terra, tão profundo conhecedor do sistema judicial português (até utilizou o termo "salazarista" num belo rasgo de conhecimento da história do século XX português...). Um prodígio, é o que vos digo! Em poucos dias, sabia de trás para a frente todos os pormenores do caso da sua mais recente constituinte e proclamava a superioridade democrática do país colonizado sobre o país colonizador. Haja pachorra!
VODKA




Pois... é ele mesmo...
LÍNGUAS DE GATO


Um sonho que me contaram:


Eu e o pessoal reunimo-nos para assaltar um banco. Quando lá entrámos eram sacos e sacos a perder de vista, sacos com o cobiçado ouro lá dentro. Carregámo-los às costas com esforço e chegados finalmente ao esconderijo onde veriamos o nosso tesouro pela primeira vez, era grande a expectativa. Quando enfim abrimos os sacos, em vez de reluzentes barras de ouro, demos de caras com línguas de gato, aqueles biscoitos que sempre tinha adorado mas que naquele momento detestei como nunca tinha detestado algo. Afinal, já não ia ser milionário.

13.5.03

NA ESTAÇÃO





Virginia Woolf: I'm dying in this town!
Leonard Woolf: If you were thinking clearly, Virginia, you would recall it was London that brought you low.
Virginia Woolf: If I were thinking clearly? If I were thinking clearly?
Leonard Woolf: We brought you to Richmond to give you peace.
Virginia Woolf: If I were thinking clearly, Leonard, I would tell you that I wrestle alone in the dark, in the deep dark, and that only I can know. Only I can understand my condition. You live with the threat, you tell me you live with the threat of my extinction. Leonard, I live with it too.

12.5.03

DESTAQUE PARA GEORGE ORWELL





A RTP online faz aqui referência ao centenário do nascimento de George Orwell.
MOTORISTAS & PEDINTES


Não é novidade que existe uma misteriosa incompatibilidade entre os motoristas de autocarro e os pedintes, de tal forma que, quando uma fila de carros parados num semáforo se apresenta ao pobre de mão esticada como um potencial manancial de esmolas, nem se aproximam da janela entreaberta do motorista responsável pela carga humana que transporta.
Mas e quando o pedinte se converte em passageiro? A má-vontade avoluma-se no tom de voz e a mulher curvada com a cara coberta curva-se ao desprezo nada disfarçado do homenzinho que lhe recebe as moedas como quem recebe pedaços de carvão em brasa.


ESCUTA, POSTO


O posto de escuta pretende ser um "farol" do que de melhor se vai publicando nos blogs portugueses, reconheço o mérito desse trabalho de recolha mas, devido precisamente ao seu carácter antológico, alguns conteúdos, em especial de cariz cultural, não são sequer referidos, concentrando-se a atenção do posto sobretudo em textos de reflexão social e política cuja qualidade não discuto tão indubitável ela é. Felicito o esforço do posto mas pedia-lhe mais equilíbrio nas escolhas para que a escuta seja realmente universal e para que os ecos da blogosfera não redundem numa uniformidade incompatível com o próprio espírito bloguista.
Posto isto...

11.5.03

FESTRÓIA





Mesmo com uma redução de cerca de 40% do subsídio, o Festróia avança e este ano homenageia Ruy de Carvalho, a Suiça e exibe uma mostra de curtos galeses.
QUERO UM IGUAL





Foi um fenómeno. E está quase tudo dito. O insólito é que aquilo que parece estar a animar os meios de comunicação, sobretudo além-fronteiras, nesta fase de expectativa que acompanha a pré-estreia é não tanto o conteúdo da película, perfeitamente secundarizado em detrimento do estilo de Neo and friends. Haverá tempo para se esmiuçar o argumento (se muito não estiver já esmiuçado com o primeiro filme da trilogia) mas por agora humildemente me rendo a esta magnífica peça de vestuário que Neo enverga no cartaz que aqui deixo.
"ESTE É O MEU CORPO" DE FILIPA MELO





Não é esboçada sequer uma tentativa de procura do móbil do crime, embora por detrás de um acto de barbárie se esconda invariavelmente uma «razão», por mais absurda ou incompreensível que possa parecer. A loucura, momentânea ou continuada e declarada, esbarra no «prazer» da morte violenta e a ausência de configuração física que relacione o indivíduo acusado com o acto praticado, ou seja, a sua aparente «normalidade», acaba quase sempre abalada pela descoberta de um qualquer facto traumatizante no decorrer da vida que impele o sujeito a provocar, a infligir aos outros a dor que ele próprio experimentara.
Em «Este é o Meu Corpo» de Filipa Melo, não importa a psique do assassino, nem tão pouco as circunstâncias que o levam a disferir o «golpe mortal»; assistimos antes à «elevação» da vítima a um estádio de ainda vida latente conseguida através da reconstituição existencial do corpo sem identidade, porque irreconhecível quando encontrado.
E é a busca dessa verdade que todo o ser-humano se arroga possuir que transporta os intervenientes da história numa viagem intra-corporal e numa outra extra-corporal, apresentando como limites os seus corpos e memórias pessoais intransmissíveis, e aquele corpo sem rosto e desconhecidas recordações em cada recanto que principia, na autópsia, a sussurrar ao Médico-Legista alguns factos de uma vida breve. Encetado o diálogo, a identidade emerge.
O visível e o invisível. Penetrando no reino do que é somente adivinhável, a mão policial do Médico-Legista desvela os contornos de um «espaço» brutal porque tão real e conduz a investigação analisando os orgãos que contam histórias, vozes que empurram o Médico ao megulho no inferno da sua solidão e do Ser abandonado à bátega da chuva. Aqui o invisível é transparência, iluminação, manifestação visceral de acontecimentos registados.
A cadeia de abandonos é irónica e sagaz envolvendo todos os participantes da intriga a começar pelo corpo resultante do delito. Um pai abandona uma filha, uma filha abandona um pai, um amigo deixa-se abandonar a uma amiga, um marido abandona uma mulher, uma amante abandona um amante, uma mãe abandona um filho. Mas o abandono nunca é total, tal como o abandono supremo, o abandono à morte, também não é, porque desemboca num encontro ou reencontro, o meio de apaziguar o sofrimento provocado por uma ausência.
Eduarda está morta há pouco mais de um dia e é dissecada pelo Médico-Legista cujo nome nunca chegamos a saber ( e é como se a não-identidade dele e a não-identidade dela os unisse nesse vácuo, e a descoberta gradual dela seja a descoberta gradual dele), contudo, os orgãos intactos, esse interior que tudo revela ( e não é só o cérebro, a «estrela» de uma autópsia, que amalgama os segredos de uma vida; tudo é útil quando um desconhecido esfolado é deitado na maca metálica, operação comparável àquela ida ao psicanalista relatada pelo Médico, simplesmente desta vez o «doente» não evitava recostar-se no divã e não hesitava em desnudar-se por completo até não restarem dúvidas a respeito de significados e implicações) unia-se num apelo pelo apuramento de um nome indiciador de um fio de personalidade confirmada e até ali apenas suspeitada.
A memória de Eduarda sobrevive, resiste à morte física. Amada quando ainda era Eduarda e amada depois de já não o ser por todas as personagens masculinas do romance: António, Miguel, Jacinto e o Médico-Legista, o único que não a havia conhecido em vida. E este homem que conversa com os «seus» mortos não se limita a dissecar mais um cadáver, disseca o porquê do amor que sente pela massa disforme, repugnantemente bela ou de uma beleza repugnante, em que se convertera Eduarda.
A veterinária não se opõe ao impulso assassino de quem a mata, talvez porque adivinhasse o desfecho provável de uma história de amor sem amor, sem muito para contar. Sobraria um corpo, o seu corpo, para testemunhar a banalidade de mais uma morte. Não teria previsto a cruel encenação post-mortem que o carrasco decidira executar.
A multiplicidade de Eduarda (amante, mãe, amiga, filha e desconhecida), comum a todo o ser-humano, é a negação da procurada identidade; a unidade não tem aqui lugar. E gorada uma identidade condensada num nome apenas, numa mexa de cabelo afagada mil vezes ou na forma como todos os dias se dão os bons dias aos outros, restam as identidades, os resíduos insuspeitados na perspectiva de uma autópsia que nunca será a nossa sobre nós próprios.
O corpo virado do avesso é resgatado do olvido porque morto uma segunda vez.


ELEGIR MI PAISAJE



Foto de Mario Benedetti por Omar Meneses


Si pudiera elegir mi paisaje
de cosas memorables, mi paisaje
de otoño desolado,
elegiría, robaría esta calle
que es anterior a mi y a todos.

Ella devuelve mi mirada inservible,
la de hace apenas quince o veinte años
cuando la casa verde envenenaba el cielo.
Por eso es cruel dejarla recién atardecida
con tantos balcones como nidos a solas
y tantos pasos como nunca esperados.

Aquí estarán siempre, aquí, los enemigos,
los espías aleves de la soledad,
las piernas de mujer que arrastran a mis ojos
lejos de la ecuación dedos incógnitas.

Aquí hay pájaros, lluvia, alguna muerte,
hojas secas, bocinas y nombres desolados,
nubes que van creciendo en mi ventana
mientras la humedad trae lamentos y moscas.

Sin embargo existe también el pasado
con sus súbitas rosas y modestos escándalos
con sus duros sonidos de una ansiedad cualquiera
y su insignificante comezón de recuerdos.

Ah si pudiera elegir mi paisaje
elegiría, robaría esta calle,
esta calle recién atardecida
en la que encarnizadamente revivo
y de la que sé con estricta nostalgia
el número y el nombre de sus setenta árboles.




Mario Benedetti

9.5.03

O SOM DA SOLIDÃO


No ano em que Varsóvia é libertada, 1945, Wladyslaw Szpilman escreve a primeira versão de «O Pianista». É dos escombros de um mundo perdido que a sua voz se eleva.


Wladyslaw Szpilman é pianista na Rádio Polaca em Varsóvia quando, em finais de Agosto de 1939, as tropas nazis sitiam e ocupam a cidade - ocupação essa que se prolongará até ao final da guerra. Afixada a progressiva supressão de liberdades cívicas e humanas, em proclamações com parágrafos especialmente dedicados a judeus (nos quais era garantida a segurança de pessoas e bens) e, mais tarde, assumindo a forma de decretos crescentemente repressivos dirigidos à comunidade judaica em exclusivo, assim estava a ser preparado o terreno para a criação do «ghetto» de Varsóvia, que chegaria a albergar cerca de meio milhão de judeus e que os alemães, num comentário oficial, designaram por «bairro judaico». Segundo um jornal do regime, «os alemães eram uma raça demasiado culta e magnânima (...) para confinar até mesmo parasitas como os judeus em ghettos, um remanescente medieval indigno da nova ordem da Europa. Em vez disso, haveria na cidade um bairro judaico onde só viveriam judeus, no qual desfrutariam de total liberdade e poderiam continuar a praticar os seus costumes e a sua cultura raciais. Por razões puramente higiénicas, esse bairro seria cercado por um muro, para que o tifo e outras doenças dos judeus não se propagassem a outras partes da cidade».
Szpilman e a família encontram-se entre os «escolhidos» que são encarcerados no «ghetto». O absurdo dessa realidade com aparência de liberdade é sublinhada pelo narrador ao declarar: «Eu saía muitas vezes, para caminhar ao acaso, e encontrava inesperadamente um desses muros. Barravam-me o caminho quando queria continuar a andar e não havia nenhuma razão lógica para me deter». É o relato dessa vivência cada vez mais precária, em conformidade com o plano nazi de eliminação dos «parasitas do organismo saudável dos povos arianos», que o protagonista nos revela, recorrendo à descrição crua de factos mas sem manifestar ódio face aos usurpadores da sua e de tantas outras vidas. Prefere ironizar, como quando lhe é sugerido tocar no casino do comando de extermínio alemão, «onde oficiais da Gestapo e das SS se distraíam, à noite, depois de um dia cansativo a assassinar judeus».
O pianista nunca cessa de o ser. Instado por um amigo ou protector a sentar-se frente a um qualquer piano miraculosamente poupado aos efeitos do abandono ou à simples pilhagem, sente os dedos rígidos a «moverem-se com relutância sobre as teclas» e o som parece-lhe «irritantemente estranho», como se também a música, à semelhança daquele mundo em ruínas, se aproximasse do fim. A vinda de cada Inverno, anunciado pela mudança de cor das folhas nas árvores da Aleje Ujazdowskie e pelo «vento que soprava mais frio de dia para dia», aliado ao duro trabalho braçal (é um dos escravos que trabalha na demolição dos muros do «ghetto»), provoca-lhe a ansiedade de quem depende dos dedos para poder pensar numa futura carreira como pianista. Sim, mesmo vivendo na permanente dúvida de quando chegaria a sua vez de entrar nos vagões de gado desinfectados da Umschlagplatz, on de partilhara a última refeição com a família, mesmo assim Szpilman pensa num futuro baseado no único bem que lhe resta do período anterior à guerra.
Esta é também uma história de fantasmas, ausências e solidão, e de como dessa absoluta solidão dependia a sobrevivência de Szpilman, dolorosamente consciente da subserviência que deve ao silêncio. E do inverosímil encontro entre a presa e o caçador que, afinal, nada mais era do que um homem deslocado, um homem que corou quando teve que admitir, perante a pergunta do polaco, que era alemão.
Como afirma Andrzej Szpilman no prefácio, o seu pai não é escritor. Mas é a este não-escritor que devemos um retrato da criação e destruição do «ghetto» de Varsóvia, desapaixonado e poético a espaços (eis um exemplo: «As penas das almofadas rasgadas entupiam as valetas e encontravam-se por todo o lado: cada sopro de vento levantava grandes nuvens delas, que turbilhonavam no ar como uma densa queda de neve em sentido inverso, da terra para o céu»). Ou de como as almas que nele habitavam se tornaram parte da solução final nazi desde o início.
O som da solidão é um comboio que se afasta.



IN DNa de 3 de Maio de 2003



Adrien Brody como Wladyslaw Szpilman no filme de Polanski

8.5.03

ARTE COM BARATAS


O artigo completo encontram-no aqui, a arte é de Catherine Chalmers e as representações que poderão ver já a seguir fazem parte da exposição «Executions», parte do projecto da artista dedicado às baratas.

why do they disgust us? Perhaps because they are similar to us.



Electrocution




Hanging




Electric Chair


Weird indeed


KARRAS, KARADRAS, AINDA A DORMIR


06h30 horas da manhã, sentada à mesa do pequeno-almoço e já não sei como nem porquê, disse-lhe que não gostava do final de «O Exorcista» de William Friedkin. Por outro lado, o início agarra-me de imediato, talvez por envolver uma escavação arqueológica no Iraque e por ser extraordinariamente bem filmado o encontro imediato entre o padre Merrin e o demónio.

F: E lembras-te do nome do padre?

C: Era um nome grego, não era? Ka... qualquer coisa... Karadras! Ou Karadras é o nome de uma cidade no Iraque?

F: (risos) Karadras! vais-te rir quando te disser o que é Karadras...

C: O que é?

F: Lord of the rings... doesn't that ring a bell?

C: Ooops... Karadras é a montanha que a fellowship atravessa antes de se dirigir para as minas de Mória... E afinal qual é o nome do padre do exorcista?

F: Damien é o primeiro nome...

C: Como é que a mãe o chamava quando lhe fala a partir do corpo possuído da Reagan?

F: Dimmie.

C: Completa!

F: Karras! Sabes aquela cena quase no fim em que um dos padres está debruçado sobre o outro como que a dar-lhe a extrema unção? E treme por todos os lados? Era um padre real e o tremor também era real, um real temor ao realizador que o ameaçou com coisas menos divinas se ele não conseguisse, finalmente, fazer a cena da forma devida.


QUEM? AH...


Agora que a incerteza quanto à identidade "escondida" menos escondida dos últimos tempos e, penso, sem intenção do próprio de a esconder, caiu por terra, uma nostalgia desse breve mistério (que digo? inexistente mistério!), que animou alguns blogs da nossa crescente comunidade, já ressoa... Talvez outros enigmas que tais provenientes da praça política portuguesa se avizinhem...
PAULO BRANCO COM 6 FILMES EM CANNES





Cannes aproxima-se e a representação portuguesa no mais importante certame cinematográfico do mundo assume, desde já, contornos inéditos. O produtor Paulo Branco consegue ter 6 filmes "seus" no festival em categorias várias, sendo que 3 são portugueses.


Riesgo, trabajo y pasión son las palabras que le definen. <----- Entrevista com Paulo Branco

7.5.03

AT THE OPERA





At the opera in Milan with my daughter and me, Needleman leaned out of his box and fell into the orchestra pit. Too proud to admit it was a mistake, he attended the opera every night for a month and repeated it each time. (Woody Allen em «Side Effects»)
FESTA NO CHIADO




Já está em marcha... a esta hora João Francisco Vilhena apresenta «Atlântico» de Pedro Rosa Mendes no Café Chiado.
TEATRO DE ANIMAÇÃO DE SETÚBAL


O TAS levará ao palco nos próximos dias 14, 15, 16 e 27 de Maio a peça de Garrett «Falar verdade a mentir», adaptada para uma assistência de crianças do ensino básico.





No dia 28 de Maio é apresentada a peça «O gato e a gaivota» baseada no delicioso livro de Luis Sepúlveda «A história da gaivota e do gato que a ensinou a voar» também destinada a um público mais jovem.
TIAGO OLIVEIRA NA ARTE & OFICINA


Depois de participar na anterior exposição colectiva da Arte & Oficina (Setúbal) designada «(Atmo) Esfera Terra Homem Igual (III) ...a nós», Tiago Oliveira apresenta-se agora na mesma galeria com uma mostra individual do seu trabalho a que deu o nome de «Jardim dos Jogos». A inauguração decorrerá no sábado, dia 10 de Maio às 18 horas, e estará patente ao público até 1 de Junho.

6.5.03

UM LIVRO ANTIGO


A Bíblia é um livro antigo -
Escrito por Homens já desaparecidos
por sugestão de Espectros Sagrados -
Temas - Belém -
Paraíso - a velha Morada -
Satanás - o Brigadeiro -
Judas - o Grande Infractor -
David - o Trovador -
Pecado - um reconhecido Precipício
a que outros devem resistir -
Os rapazes que "crêem" são solitários -
Os outros estão "perdidos" -
Tivesse a História melhor narrador -
E todos os rapazes viriam -
O sermão de Orpheu cativava -
E não condenava. -



Emily Dickinson
TAMBÉM A TIME...





... dedica um artigo aos costumes no filme «The Matrix» que é capa na edição desta semana da revista.
TIRAR FOTOGRAFIAS É COLOCAR UMA CABEÇA, UM OLHO E UM CORAÇÃO NO MESMO EIXO





Henri Cartier-Bresson na Biblioteca Nacional de França até 27 de Julho.
5 DIAS, 4 REALIZADORAS


O Auditório Municipal Charlot em Setúbal, recebe nos próximos 5 dias, a começar amanhã, um mini-festival de cinema promovido pelos alunos do 4º ano de Comunicação Social da ESE da cidade do Sado.
Os filmes - «Rosa Negra» (1992) de Margarida Gil, «Até Amanhã, Mário» (1993) de Solveig Nordlund, «O Anjo da Guarda» (1999) de Margarida Gil, «Glória» (1999) de Manuela Viegas & «Capitães de Abril» (1999) de Maria de Medeiros - têm todos início às 18 horas e, meus amigos, a entrada é gratuita.





Antes de tudo, «Capitães de Abril» é uma declaração de amor. Uma declaração de amor de uma mulher que tinha 8 anos no 25 de Abril por um capitão que veio de Santarém conquistar a Liberdade e, alguns anos depois, morreu jovem como dizem que acontece aos que os deuses preferem. Por isso, Salgueiro Maia é, em «Capitães de Abril», mais que uma figura histórica, antes um herói romântico, uma figura desenhada por um olhar que já vê mais a efabulação que a realidade. Por isso, este é um filme que nos comove, tanto mais que nem os personagens viveram felizes para sempre, nem o quotidiano disso deu conta. (Jorge Leitão Ramos)


DRESSING TO DODGE BULLETS: THAT 'MATRIX' LOOK





É o título do artigo do New York Times, dedicado a um dos aspectos mais marcantes do filme, as vestimentas dos heróis.


That the real world is unreal is a very powerful metaphorical idea that resonates, particularly with the young.

5.5.03

LA OREJA DE VAN GOGH





Ouvi há pouco um excerto da música «Puedes contar conmigo» dos La Oreja de Van Gogh e gostei do som, mas o que mais me chamou a atenção foi um certo toque de cantiga de amigo ou de amor da lírica galaico-portuguesa, sobretudo nos versos finais:


Y no puedo evitar echarte de menos
mientras das la mano a mi tiempo y te vas.
Yo siento que quiero verte y verte y pienso
que recordarás las tardes de invierno por Madrid,
las noches enteras sin dormir.
La vida pasaba y yo sentía que me iba a morir de amor
al verte esperando en mi portal sentado en el suelo sin pensar
que puedes contar conmigo.
Que recordarás las tardes de invierno por Madrid,
las noches enteras sin dormir.
La vida se pasa y yo me muero, me muero por ti.



Investiguei um pouco e encontrei este «Dile al sol» do primeiro álbum da banda espanhola. Aqui o tom tem qualquer coisa de rimance...


Hubo una guerra en la antigüedad,
que separó un joven y dulce amor,
él tuvo que ir al frente a luchar.
Fue una lanza la que atravesó,
mil sentimientos y un corazón,
él murió de pie, nunca regresó.

Vuelve a mí,
y dame tu mano al andar,
vuelve a mí,
y mira mis ojos llorar.
Dile al sol,
que haga volar,
tu calor,
hacia nuestro hogar,
para que vuelvas a mí.

Ella no olvida aquel frío adiós,
se heló su sangre y tembló su voz,
mientras se alejaba su joven amor.
Cuentan que todas las mañanas va,
a conversar con un viejo árbol gris,
a él le habla de su gran soledad.

Vuelve a mí,
y dame tu mano al andar,
vuelve a mí,
y mira mis ojos llorar.

Dile al sol,
que haga volar,
tu calor,
hacia nuestro hogar,
tu calor,
hacia nuestro hogar,
para que vuelvas a mí.

Dónde estás amor,
donde duermes hoy,
dame el beso aquel,
que me dijo adiós,
que me dijo, adiós.

Vuelve a mí,
y dame tu mano al andar.
vuelve a mí,
y mira mis ojos llorar.
Dile al sol,
que haga volar,
tu calor,
hacia nuestro hogar,
para que vuelvas a mí.



O título do novo álbum dos La Oreja de Van Gogh é «Lo que te conté mientras te hacías la dormida» e, já agora, já vi, aqui mesmo em Portugal um café meio escondido com o nome «A orelha de Van Gogh».
PACTO DE AGRESSÃO


O vento iça-me. Já não piso as pedras, vogo acima delas. O sol pousa um raio ao acaso no ombro crispado de Bóreas. Eu regresso a solo firme, enquanto o tratado entre os tratantes que impedem o firme estabelecimento da primavera se reafirma.


A DUPLA



Isabel de Portugal por Tiziano (Museu do Prado, Madrid)


Após a morte da Imperatriz Isabel de Portugal a 1 de Maio de 1539, Carlos V encomenda a Tiziano um retrato fiel da mulher. Sabe-se que foi uma das mais belas rainhas de Espanha, mas após a sua morte e para o comprovar, restava somente a sua memória e um camafeu com a sua efígie a partir do qual Tiziano pintou a sua obra. Consta que a primeira versão da obra não terá agradado em absoluto ao Imperador graças à imperfeição do nariz de Isabel e assim Tiziano foi obrigado a retocar realisticamente o imperialíssimo nariz no retrato póstumo da esposa de Carlos. Uma dupla em tela.





O DUPLO


Acontece que a única vez que tive a oportunidade de ver José Mourinho em pessoa, apenas lhe consegui vislumbrar o reflexo projectado no canto direito do espelho onde eu própria estava projectada, preparada para um extenso corte das minha ondas capilares. Apresentou-se como sempre se apresenta, seco com feições empedernidas, uma expressão facial quase robótica, diria. Não vi, então, propriamente, a pessoa, mas sim uma imagem gerida pela luz, pelos gestos lentos e distantes e pela minha miopia crónica. O duplo imaterial do treinador do Futebol Clube do Porto.
Contudo, é curioso verificar que Mourinho (portador da boa nova: «seremos campeões para o ano») é uma espécie de duplo material de Jorge Nuno Pinto da Costa. Deve ser sensacional apertar a mão ao outro lado do espelho. Confundem-se nesta vitória do F.C.P., o "pai" e o "filho", e parece-me que já se podem sentar lado a lado nas "alturas" e contemplar a obra feita.


4.5.03

SAUDADE


Palavras há que,ao serem "dicionarizadas", se reduzem a esqueleto de coisa nenhuma.

3.5.03

AS VEIAS DOS BÚZIOS





(...)Sou o único criminoso que não há-de tornar nunca ao local do crime e se um dia tornar encontrá-lo-ei vazio como uma feira desarmada, com pontas de cigarro por aqui e por ali, as luzes apagadas e o papel que embrulhava as sanduíches dos que se cansaram de esperar levantado pelo ventinho que sopra onde não existe mais nada. Se a política é o ofício das coisas inacabadas ou a arte de escolher entre os inconvenientes (Druon), não trouxe aos outros senão o sentimento de um provisório instável, ancorado na recusa definitiva de deixar de ser pacientemente inquieto. Procuro-me entre as palavras para saber quem sou e não farei nunca um bom lugar na carreira de funcionário da modéstia, quanto mais não seja porque a única seriedade que concebo é aquela que permite todas as fantasias.


António Lobo Antunes,
«Livro de Crónicas»


2.5.03

ALGURES


O algures é um espelho em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu, descobrindo o muito que não teve nem terá.



Italo Calvino,
«As Cidades Invisíveis»
AT-TAMBUR





Música e dança tradicionais, instrumentos, recolhas, notícias... tudo isto encontrei no At-Tambur, site do grupo musical do mesmo nome com uma tremenda qualidade informativa e gráfica. Vale a pena visitar o sítio regularmente, aqui fica a dica.



1.5.03

GUGGENHEIM NO RIO



Alçado norte do Guggenheim de Bilbao


É só para 2007 mas já é notícia: o Rio de Janeiro terá um Museu Guggenheim à semelhança de Nova Iorque e Bilbao projectado desta feita por um francês, Jean Nouvel.



O Guggenheim em Nova Iorque
PERUANOS


Encostados à branca parede lateral da igreja, à sombra do campanário e do ninho de cegonha sem cegonha, os peruanos vendem brincos e pulseiras e colares e anéis e eu páro e olho os artigos expostos com as mãos nos joelhos (incómoda posição) e acabo por ficar de cócoras, atenta a cada par de brincos enquanto uma rapariga ao meu lado regateia o preço de dois enormes sóis que penderão daí a pouco das suas orelhas. O vendedor baixa-lhe o preço em 50 cêntimos e só em 50 cêntimos, apesar dos protestos e insistência da jovem que quer, por força, um desconto a dobrar.
Afasto-me e quando volto a passar pelo trio de peruanos, já almoçam no próprio local, em pé, e eu, sabendo intimamente porquê, invejo-os.
IN LOVE WITH SONNETS


Born in Sicily as a love poem, refined in Italy during the Renaissance, imported to England in the 16th century, favored by Shakespeare, Donne and Milton, resurrected by Wordsworth, maintained in the Victorian era by Elizabeth Barrett Browning and carried into the 20th century by Yeats, E. E. Cummings and Jack Kerouac, the sonnet is the subject of a new exhibition at the New York Public Library. Opening tomorrow and continuing through Aug. 2, "Passion's Discipline: The History of the Sonnet in the British Isles and America" has more than 250 items, including sonnets in the hand of Wordsworth, Coleridge, Keats and Browning; typescripts revised by W. H. Auden; a lavishly illustrated 15th-century Petrarch manuscript; 17th-century folios of Shakespeare's plays; and Sylvia Plath's dog-eared paperback edition of Donne's poems.

The New York Times


E já agora Camões, um dos mais brilhantes cultores do género...





Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança ainda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais,
e se torna, não tornam as idades.

Razão é já, ó anos!, que vos vades,
porque estes tão ligeiros que passais,
nem todos para um gosto são iguais,
nem sempre são conformes as vontades.

Aquilo a que já quis é tão mudado
que quase é outra causa: porque os dias
têm o primeiro gosto já danado.

Esperanças de novas alegrias
não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
que do contentamento são espias.



SEM LIMITES


There are so many things I want to do musically. Those possibilities have always seemed irritatingly endless. In fact my problem has always been trying not to just skip from style to style for the sake of it, but to try and find my own musical destiny.


Neil Hannon



Fotografia de Kevin Westenberg em Veneza para o álbum Casanova (1996)
COMPANHIA DE DANÇA CONTEMPORÂNEA DE SETÚBAL





Fundada em 1992 por Maria Bessa e António Rodrigues, ainda hoje os directores artísticos da CeDeCe, a Companhia de Dança Contemporânea de Setúbal, apesar das dificuldades financeiras com que se tem debatido (ver artigo de Guilherme Santos no DN de 15 de Fevereiro deste ano aqui), mantém quatro temporadas anuais em Setúbal, actuando no Fórum Luísa Todi. Amanhã, dia 2 de Maio, às 21h30, apresentam nova coreografia, nada mais nada menos do que «Romeu e Julieta».


Juliet: O, swear not by the moon, the inconstant moon, who monthly changes in her circled orb, lest that thy love prove likewise variable.

Romeo: What shall I swear by?

Juliet: Do not swear at all. Or, if thou wilt, swear by the gracious self which is the god of my idolatry, and I'll believe thee.



Shakespeare,
«Romeo & Juliet»

30.4.03

2





A OBRA AO NEGRO





À cabeceira dos doentes acontecera-lhe muitas vezes ouvir contar sonhos. Também ele tivera os seus. As pessoas contentavam-se, geralmente, em extrair dessas visões presságios às vezes certos, dado que revelam os segredos daquele que sonha; ele, todavia, pensava para consigo que tais jogos do espírito entregue a si mesmo tinham, sobretudo, a possibilidade de revelar a maneira como a alma se apercebe das coisas. Punha-se a enumerar as qualidades das substâncias que via em sonhos: a leveza, a impalpabilidade, a incoerência, a total liberdade em relação ao tempo, a mobilidade de formas de uma só pessoa, que faz que cada qual seja muitos, e vários se reduzam a um só, o sentimento quase platónico da reminiscência, o sentido quase insuportável de uma necessidade. Estas categorias fantasmais assemelhavam-se muito ao que os hermetistas pretendiam saber a vida de além-túmulo, como se o mundo da morte fosse, para a alma, a continuação do mundo da noite. Todavia, a própria vida, ao olhar de um homem prestes a deixá-la, adquiria também a estranha imobilidade e a bizarra arrumação dos sonhos.


Marguerite Yourcenar

29.4.03

MISERY





Pois é verdade, revi a obra-prima de Rob Reiner, o terrífico «Misery». Kathy Bates aterradora e James Caan sóbrio (lembram-se dele como Sonny, o filho mais velho e impulsivo de Vito Corleone em «O Padrinho»?). A evolução da personagem Annie (a enfermeira que qualquer um de nós gostaria de nunca encontrar pela frente) não se arrasta interminavelmente, é rápida e certeira, percebemos sem grande demora que Paul Sheldon teve a infelicidade de ser recolhido por uma lunática, a sua fã nº 1. Claro que a loucura da enfermeira se revela de forma mais evidente porque confrontada com uma «peripécia» por ela não esperada: a morte de Misery no manuscrito que Sheldon transporta aquando do acidente. Queimar esse e escrever outro com um final em conformidade com os desejos da protectora de Misery, eis a tarefa do escritor. Simplesmente o fim desejado por Annie, despoletará o seu próprio fim. E nem falta uma cena em que julgamos que a vilã está morta quando na verdade ainda mexe, por pouco tempo...
ODE AO SANGUE


Quisera ver o meu sangue a correr pelo chão:
A golpear o seu corpo de flor
- de solidão perdida e intolerável –
Para manifestar-se com a angústia
E poder chorar a perdição dos dias,
A cor áspera das minhas veias cediças.
Se pudesse vê-la sem ânsia
A queimar o ar malfadado, impenetrável,
Que move os tormentos secos da minha garganta
E aperta a minha pele incomparável;
Não as marés, as ervas antigas,
Toda a minha vida de eco incompreendido!


Quisera conhecê-la esplêndida para viver fora de mim,
Como um rio partido pelo vento,
Como a vontade que só a alma reconhece.
Não aguardarei por nada. Para que morada o ardor alheio
Sairá alguma vez
A observar a memória desabitada, sem paraíso,
A luz interminável.


Quisera estar nu, só e feliz,
Para arrebatar a sombra da morte
Como uma enorme e aziaga nuvem destruída.


Se um dia fôssemos estrangeiros,
Capazes de ouvir o murmúrio da erva como um sedento hábito
Peregrino,
Limpos do humor corrupto,
Cortaria as veias por amor
Para que se escutasse o seu fluir;
Para vestir meu corpo solitário
Com o fogo lânguido.


Mas não há-de chegar nunca esse tempo mágico,
Como não chega a felicidade
Onde não vive o esquecimento, a voz morta,
Já apagada.
Nem mar, céu, flor, mulher: nada.
Ninguém a viu levar a rosa vulnerável,
O deserto extraviado entre bocas inúteis.
Que duro silêncio a envolve,
Já não sei onde chega a vida
Ou quer abandoná-la desprendida.
Onde se estreita a pele impossível,
O seu lento signo enigmático: chama da essência sem despedida.


Chora através da carne,
Cravada num fosso sem céu,
Na noite desprezada
Com a sua língua eterna.
Uma tristeza ampla regressa à vida sem cansaço;
Encerrada no repouso.


A morte imensa vela o sonho sem alvorada!
Ninguém sabe nada.
Eis o que existe. A ansiedade volta para dentro,
Surda, detestável, apartada.


Majestosa em seu mundo obscuro, regressará à sua raiz
Indefinida, penetrante, solitária.
Talvez um rio, uma boca inesquecível
Possam recordá-la.




Ricardo Molinari



Georgia O'Keeffe

28.4.03

DERIVANDO


Ouço as passadas do relógio, aliás, de vários relógios espalhados por vários compartimentos. As passadas são mínimas e devolvidas pelo silêncio dos pequenos ruídos nocturnos, arrefecidos pela chuva leve que cai na noite e pelo arrepio da minha despropositada manga curta. Em cada compartimento corre o tempo e com ele as paredes e com elas as estrelas cobertas por diversos tectos acima do meu, plataformas lunares em repouso. A lua hoje hibernou. Gosto de não a ver todas noites. Não as diviso, as estrelas, divido-as antes em semblantes, em tempos iguais, diferentes do meu que está aqui e já não está e estanca e retoma a marcha. Toca o alarme de um carro e imagino um pé-de-cabra em fuga.



Wassily Kandinsky

24.4.03

NA WEMBLEY ARENA, LONDRES, 1999





Voltarei a este senhor...
FEAR


Hart Crane nasceu em 1899 em Garrettsville, Ohio e foi um autodidacta profundamente inspirado pela poesia de Walt Whitman cuja principal obra «The Bridge» nos oferece a visão espiritual e histórica do poeta em relação à sua América natal. Suicidou-se em 1932 ao saltar do convés de um navio que regressava a Nova Iorque vindo do México.





The host, he says that all is well
And the fire-wood glow is bright;
The food has a warm and tempting smell,—
But on the window licks the night.

Pile on the logs... Give me your hands,
Friends! No,— it is not fright...
But hold me... somewhere I heard demands...
And on the window licks the night.



Hart Crane



ENCONTRO COM D. QUIXOTE II


O meu encontro com D. Quixote foi bem diverso e bem mais tardio do que o relatado por Ana Hatherly. Aconteceu já na Universidade, numa cadeira de Literatura Espanhola por mim escolhida como opção e a minha guia nessa descoberta que também (como não podia deixar de ser!) se revestiu de fascínio foi a Professora Cristina Fernandes, uma jovem docente com uma impressionante vontade de nos "contaminar" com a beleza da literatura espanhola. Por mim falo quando digo que para além de um alargamento imenso dos meus conhecimentos da literatura maior de Espanha, também ficou a consciência da inesgotabilidade de prismas ou perspectivas de abordagem da obra de Cervantes.



Picasso


Milan Kundera, no JL de 31 de Dezembro de 1997, elogia assim o improvável:


A longa tradição do realismo psicológico criou algumas normas quase invioláveis. 1) É preciso dar o máximo de informações sobre uma personagem: aspecto físico, maneira de falar e de se comportar; 2) é preciso conhecer o passado de uma personagem, porque é nele que se encontram todas as motivações do seu comportamento presente; 3) a personagem deve ter uma total independência, quer dizer, o autor e as suas próprias considerações devem desaparecer para não perturbar o leitor que quer ceder à ilusão e tomar a ficção pela realidade.
Ora Musil rompeu este velho contrato entre o romance e o leitor. E outros romancistas com ele. Que sabemos nós da aparência física de Esch, a maior personagem de Broch? Nada. Excepto que tinha dentes grandes. Que sabemos nós da infância de K. Ou de Chveik? E nem Musil, nem Broch, nem Gombrowicz têm a menor dúvida em apresentar nos seus romances os pensamentos dessas personagens. A personagem não é a simulação de um ser vivo. É um ser imaginário. Um ego experimental. O romance volta assim ao seu início. Dom Quixote é quase impensável como ser vivo. Apesar disso, na nossa memória, que personagem existe mais viva do que ele?
Os primeiros romancistas não tiveram escrúpulos perante o improvável. No primeiro livro de “Dom Quixote”, há uma taberna algures em Espanha onde toda a gente se encontra por acaso: Dom Quixote, Sancho Pança, o barbeiro e o cura seus amigos, depois o jovem Cardenio a quem um certo Don Fernando roubou a noiva Lucinda, daí a nada também Doroteia, a noiva abandonada desse mesmo Fernando, mais tarde este e Lucinda, a seguir um oficial que fugiu de uma prisão moura mais o seu irmão que ele procura há anos, a filha Clara, o amante dela, que a persegue, e ele próprio perseguido pelos criados do pai... uma acumulação de coincidências e de reencontros totalmente improváveis. O que, em Cervantes, não significa ingenuidade ou azelhice. Os romances de então não tinham ainda concluído com o leitor o pacto da verosimilhança. Não queriam simular o real, queriam divertir, espantar, surpreender, enfeitiçar. Eram “lúdicos”, nisso residia o seu virtuosismo.
O início do século XIX representa uma mudanças enorme na história do romance. Diria quase um choque. O imperativo da imitação do real cobriu de ridículo a taberna de Cervantes.. o século XX revolta-se contra a herança do século XIX. Contudo, o mero regresso à taberna já não é possível. Entre ela e nós, a experiência do realismo impôs-se de modo que o jogo das coincidências improváveis já não poder ser inocente. Torna-se intencionalmente irónico, paródico («As Caves do Vaticano» ou «Ferdydurke», por exemplo) ou fantástico, onírico.


É o caso do primeiro romance de Kafka: «América». Leia-se o primeiro capítulo, com o reencontro totalmente inverosímel de Karl Rossmann com o tio: é como uma recordação nostálgica da taberna de Cervantes. Mas neste romance, as circunstâncias inverosímeis (ou mesmo impossíveis) são evocadas com uma tal minúcia, uma tal ilusão do real que se fica com a impressão de entrar num mundo que, inverosímel embora, é mais real do que a realidade. Fixemo-lo bem: Kafka entrou no seu primeiro universo «sobre-real» (na sua primeira «fusão do real e do sonho») pela taberna de Cervantes, pela porta do vaudeville.



ENCONTRO COM D. QUIXOTE






Em criança tive uma avó que contava histórias maravilhosas enquanto me ensinava a coser, a bordar, a fazer renda e essas coisas que as meninas, dantes, tinham de saber fazer. As histórias que a minha avó contava eram histórias de fadas, bruxas, milagres, naufrágios, guerras e heróis, e eu ouvi-as com tal atenção que me esquecia do bordado ou da renda e muitas vezes me caía da mão o dedal ou a agulha.
Dantes as crianças muito pequenas não iam para jardins de infância ou escolas primárias, antes de entrarem para a escola oficial aos 7 anos. Aprendia-se muita coisa em casa e foi em casa que eu aprendi a ler, e como gostava de aprender, muito cedo consegui um desembaraço incomum para a minha idade. O que me levava a aplicar-me a essa aprendizagem era o meu desejo de ler mais e mais histórias, tão fasninantes como as que a minha avó me contava e que em breve me deixou de contar, porque morreu quando eu era ainda pequena.
Transferi, portanto, para a leitura toda a minha atenção, enquanto os bordados e as rendas foram ficando pelo caminho. Embora lesse devagar e não percebesse tudo, era tal o meu fervor que a minha família teve de controlar os meus tempos de leitura e as obras que eu lia, porque eu queria estar sempre a ler e a ler tudo.
Lembro-me dos livros que podia ler e dos que não podia. Esses, estavam na sala de visitas, dentro de belos armários de tremidos e torcidos, com as portas de vidro forradas a seda de um vermelho escuro. Eram livros grandes com letras em oiro na capa e cheios de ilustrações.
Entre esses volumes bem resguardados estava a célebre obra de Miguel de Cervantes «Dom Quixote de la Mancha», numa edição de luxo, ilustrada por Gustave Doré, um famoso artista francês do século XIX. Eu não tinha autorização para ler nem sequer para tocar nesse livro, porque não era uma obra apropriada para uma criança tão pequena. Mas a história tinha-me sido mais ou menos contada e as gravuras mostradas, e foi tal o efeito que isso fez em mim, que eu só desejava saber mais e mais dessa história fantástica e ver e tornar a ver essas gravuras que me fascinavam.
Não tendo licença sequer para abrir o armário onde estava o «Dom Quixote», o que poderia eu fazer se não esperar que todos dormissem, entrar às escondidas na sala, abrir o dito armário e retirar a obra proibida? Foi o que eu fiz, muitas e muitas vezes. Ler, propriamente, eu não lia - era demasiado difícil para mim - mas as gravuras eu via-as todas, uma por uma, de uma ponta à outra. Algumas metiam-me tanto medo que eu fechava os olhos e encolhia-me toda. Mas voltava sempre a vê-las.
O tempo foi passando e ao progredir nos estudos e na leitura comecei a interessar-me por muitas outras obras, mas logo que tive idade suficiente fui ler o «Dom Quixote», que continuou a impressionar-me profundamente, embora de outra maneira.
Hoje possuo várias e valiosas edições do «Dom Quixote» e essa obra tem um lugar ímpar no meu afecto e na minha memória e nunca me esqueci daquele armário com as portas de vidro forradas a seda e da extraordinária impressão que deixou em mim essa leitura furtiva.




Ana Hatherly

23.4.03

PORTUGUESES: HERÓIS ADIADOS


Das feições de alma que caracterizam o povo português, a mais irritante é, sem dúvida, o seu excesso de disciplina. Somos o povo disciplinado por excelência. Levamos a disciplina social àquele ponto de excesso em que cousa nenhuma, por boa que seja - e eu não creio que a disciplina seja boa - por força que há-de ser prejudicial.
Tão regrada, regular e organizada é a vida social portuguesa que mais parece que somos um exército do que uma nação de gente com existências individuais. Nunca o português tem uma acção sua, quebrando com o meio, virando as costas aos vizinhos. Age sempre em grupo, sente sempre em grupo, pensa sempre em grupo. Está sempre à espera dos outros para tudo. E quando, por um milagre de desnacionalização temporária, pratica a traição à Pátria, de ter um gesto, um pensamento, ou um sentimento independente, a sua audácia nunca é completa, porque não tira os olhos dos outros, nem a sua atenção da sua crítica.
Parecemo-nos muito com os alemães. Como eles, agimos sempre em grupo, e cada um do grupo porque os outros agem.
Por isso aqui, como na Alemanha, nunca é possível determinar responsabilidades; elas são sempre da sexta pessoa num caso onde só agiram cinco. Como os alemães, nós esperamos sempre pela voz de comando. Como eles, sofremos da doença da Autoridade - acatar criaturas que ninguém sabe porque são acatadas, citar nomes que nenhuma valorização objectiva autentica como citáveis, seguir chefes que nenhum gesto de competência nomeou para as responsabilidades da acção. Como os alemães, nós compensamos a nossa rígida disciplina fundamental por uma indisciplina superficial, de crianças que brincam à vida. Refilamos só de palavras. Dizemos mal só às escondidas. E somos invejosos, grosseiros e bárbaros, de nosso verdadeiro feitio, porque tais são as qualidades de toda a criatura que a disciplina moeu, em quem a individualidade se atrofiou.
Diferimos dos alemães, é certo, em certos pontos evidentes das realizações da vida. Mas a diferença é apenas aparente. Eles elevaram a disciplina social, temperamento neles como em nós, a um sistema de estado e de governo; ao passo que nós, mais rigidamente disciplinados e coerentes, nunca infligimos a nossa rude disciplina social, especializando-a para um estado ou uma administração. Deixamo-la coerentemente entregue ao próprio vulto íntegro da sociedade. Daí a nossa decadência!
Somos incapazes de revolta e de agitação. Quando fizemos uma «revolução» foi implantar uma cousa igual ao que já estava. Manchámos essa revolução com a brandura com que tratámos os vencidos. E não nos resultou uma guerra civil, que nos despertasse; não nos resultou uma anarquia, uma perturbação das consciências. Ficamos miserandamente os mesmos disciplinados que éramos. Foi um gesto infantil, de superfície e fingimento.
Portugal precisa dum indisciplinador. Todos os indisciplinadores que temos tido, ou que temos querido ter, nos têm falhado. Como não acontecer assim, se é da nossa raça que eles saem? As poucas figuras que de vez em quando têm surgido na nossa vida política com aproveitáveis qualidades de perturbadores fracassam logo, traem logo a sua missão. Qual é a primeira cousa que fazem? Organizam um partido... Caem na disciplina por uma fatalidade ancestral.
Trabalhemos ao menos - nós, os novos - por perturbar as almas, por desorientar os espíritos. Cultivemos, em nós próprios, a desintegração mental como uma flor de preço. Construamos uma anarquia portuguesa. Escrupulisemos no doentio e no dissolvente. E a nossa missão, a par de ser a mais civilizada e a mais moderna, será também a mais moral e a mais patriótica.
O português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja. Somos um grande povo de heróis adiados. Partimos a cara a todos os ausentes, conquistamos de graça todas as mulheres sonhadas, e acordamos alegres, de manhã tarde, com a recordação colorida dos grandes feitos por cumprir. Cada um de nós tem um Quinto Império no bairro, e um auto-D.Sebastião em série fotográfica do Grandela. No meio disto (tudo), a República não acaba.
Somos hoje um pingo de tinta seca da mão que escreveu Império da esquerda à direita da geografia. É difícil distinguir se o nosso passado é que é o nosso futuro, ou se o nosso futuro é que é o nosso passado. Cantamos o fado a sério no intervalo indefinido. O lirismo, diz-se, é a qualidade máxima da raça. Cada vez cantamos mais um fado.
O Atlântico continua no seu lugar, até simbolicamente. E há sempre Império desde que haja Imperador.
Nada há de menos latino que um português. Somos muito mais helénicos - capazes, como os gregos, só de obter a proporção fora da lei, na liberdade, na ânsia, livres da pressão do Estado e da Sociedade. Não é uma blague geográfica o ficarem Lisboa e Atenas quase na mesma latitude.
(...) Nós não temos homens cultos; temos eruditos apenas. Ou antes, os homens cultos que temos, são homens de génio, o que é de mais para um povo tão pequeno.
Julgarão talvez que confundo culto com inteligente. Seria um erro julgar tal coisa. Eu nunca confundo nada. O homem inteligente é o que com facilidade tira conclusões do que lê ou vê; o homem culto é o que, naturalmente, sente e não tira conclusões, ou as tira, conforme calha ao seu feitio do momento.
Vem tudo a propósito de chegar a dizer qual é a tragédia de Portugal. É a de que, tendo vários eruditos, e muita gente inteligente, pouquíssima gente temos que seja culta. Vejam quanta criatura, quando lhe apresentam qualquer coisa de novo, procura compreender. Um homem culto procura sentir. Perceber envolve um esforço. Sentir envolve uma passividade deliciosa. O feitio enérgico, violento, indolente do português leva-o para a acção precipitada. A ciência da inacção, a mais civilizada das ciências, pouco está desenvolvida entre nós. A nossa tendência para agir ficou-nos, como uma maldição, da aventura das descobertas. Expiamos a glória dos nossos maiores na doentia preocupação do útil.




Fernando Pessoa


HORAS


Gelava o tempo branco do relógio.
Fundiu-se um dia o mostrador
aberto para dentro
num foco por onde as horas negras fugiram enlouquecidas!


Lá para longe na faixa rósea da distância
recuaram ante o incessante alarido dos sinos
e logo regressaram
desesperadamente procurando em vão
o maquinismo do relógio.


Via-se o dia fechado de silêncio
num quadrado de luz amarelada
e de novo preso o pé do jovem
quando ia para sair.




Edmundo de Bettencourt,
«Poemas de Edmundo de Bettencourt»



Paul Klee






21.4.03

ABSURDITY




«Shadow of a Twisted Hand Across My House» de David Lynch



Absurdity is what I like most in life, and there's humor in struggling in ignorance. If you saw a man repeatedly running into a wall until he was a bloody pulp, after a while it would make you laugh because it becomes absurd. But I don't just find humor in unhappiness - I find it extremely heroic the way people forge on despite the despair they often feel. Like the character in 'Eraserhead' - he's totally confused, yet he struggles to figure things out and do what's best. Isn't that fantastic?


David Lynch