13.6.03

MANHÃ DE JUNHO


Talvez, talvez sejam os últimos
dias. Se for assim, são um esplendor.
Apesar dos aviões da Nato despejarem
bombas e bombas no Kosovo, a perfeição
mora neste muro branco
onde o escarlate
da flor da buganvília sobe ao encontro
da luz fresca da manhã de Junho.
A beleza (não há outra palavra
para dizê-lo), desta manhã
é terrível: persiste, domina,
apesar dos aviões, mesmo com
bombas a cair e crianças a morrer.




Eugénio de Andrade

12.6.03

INDO PARA O LEITO





Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz;

Até que eu lute, em luta o corpo jaz.

Como o inimigo diante do inimigo,

Canso-me de esperar se nunca brigo.

Solta esse cinto sideral que vela,

Céu cintilante, uma área ainda mais bela.

Desata esse corpete constelado,

Feito para deter o olhar ousado.

Entrega-te ao torpor que se derrama

De ti a mim, dizendo: hora da cama.

Tira o espartilho, quero descoberto

O que ele guarda, quieto, tão de perto.

O corpo que de tuas saias sai

É um campo em flor quando a sombra se esvai.

Arranca essa grinalda armada e deixa

Que cresça o diadema da madeixa.

Tira os sapatos e entra sem receio

Nesse templo de amor que é o nosso leito.

Os anjos mostram-se num branco véu

Aos homens. Tu, meu Anjo, és como o Céu

De Maomé. E se no branco têm contigo

Semelhança os espíritos, distingo:

O que o meu Anjo branco põe não é

O cabelo mas sim a carne em pé.

Deixa que a minha mão errante adentre

Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.

Minha América! Minha terra à vista,

Reino de paz, se um homem só a conquista,

Minha Mina preciosa, meu Império,

Feliz de quem penetre o teu mistério!

Liberto-me ficando teu escravo;

Onde cai minha mão, meu selo gravo.

Nudez total! Todo o prazer provém

De um corpo (como a alma sem corpo) sem

Vestes. As jóias que a mulher ostenta

São como as bolas de ouro de Atalanta:

O olho do tolo que uma gema inflama

Ilude-se com ela e perde a dama.

Como encadernação vistosa, feita

Para iletrados, a mulher se enfeita;

Mas ela é um livro místico e somente

A alguns (a que tal graça se consente)

É dado lê-la. Eu sou um que sabe;

Como se diante da parteira, abre-

Te: atira, sim, o linho branco fora,

Nem penitência nem decência agora.

Para ensinar-te eu me desnudo antes:

A coberta de um homem te é bastante.




John Donne
TRATADO DO EGOÍSMO


Sucedeu-me nascer egoísta. Não é que me faltasse generosidade, mas também não sobrava e apesar de não me importar que os outros possuíssem, a verdade é que só sossegava se também eu possuísse. Fosse o alpista especial para dar ao canário sempre que não cantava com aquela vontade que nós humanos gostamos de ver num animal, mesmo que a não tenhamos a não ser para ouvir o pássaro cantar todas as manhãs com um trinar minimamente audível e agradável, substituindo o horrível despertador que penetrava paredes, furava canos e colidia com janelas, estilhaçando cabeças ensonadas logo àquela hora imprópria, estragando o dia a um prédio de 3 andares; fosse o bâton da Célia que era, na verdade, o seu único indício de beleza e que ela esfregava nos lábios com a sofreguidão de quem o sabe como qualquer pessoa que a visse do lado esquerdo, lado em que o nariz ganhava uma dimensão cruel, estranhamente mais saliente e o olho vesgo parecia saltar da órbita pisada e a bochecha excessivamente sardenta refulgia como um aquário fosco em que se vissem apenas pequenos pontos no lugar dos peixes; fosse o amor que até a vizinha do rés-do-chão ainda sentia aos 86 anos e do qual tanto alarde fazia quando eu bem sabia que o Sr. Adérito, 18 anos mais jovem do que a esposa, se demorava em cinemas pouco recomendáveis na companhia de colegiais à procura de maneiras de manifestar a sua rebeldia.
Até me rio sozinha quando penso no alpista e no bâton! Isto são coisas que se invejem? Mas a velha, mesmo enganada não o sabia e vivia a sua ilusão de amor eterno, e eu cobiçava secretamente ser traída... destruir aquela segurança era o primeiro passo a dar. Enviei uma carta batida à máquina ( anónima, como convém) indicando-lhe a morada do cinema e as sessões diletas do seu dileto maridinho. Passaram-se semanas e ela insistia em louvar as qualidades do paneleiro que tinha em casa, até que, como se a carta recolhida tivesse ficado esquecida a um canto e subitamente a visse quando limpava a jarra da dinastia mung, comecei a ouvir um arfar asmático do fundo das escadas e passos indecisos. A porta bateu violentamente, como se quatro braços humanos a segurassem e a arremessassem contra a parede e, por momentos, duvidei da sinceridade da velha, teria ela realmente a idade que com tanto à vontade propagandeava?
O Adérito nem voltou para casa. Eu não tinha amor, mas ela também nunca mais dele se poderia gabar. E foi então que o Alberto apareceu, substituindo o amor de mulher pelo amor de mãe.
Ela até podia ter as persianas mais impecavelmente limpas do bairro, mas eu já só lhe invejava essa dedicação saída do nada de um filho saído do nada amparando-a com nada, só com essa presença de amor que lhe iluminava a fronte cinzenta agora sorridente exibindo-se à vizinhança com o filho pelo braço, orgulhosa de um braço forte amparar o seu, acreditava ela, para sempre.
As paredes do prédio não existiam e assim pude acompanhar as exigências de dinheiro, dinheiro que a mamã dizia não possuir.
Os cheques que o carteiro teimosamente enfiava na minha caixa de correio e que eu sempre devolvia à caixa da velhota, chegaram ao conhecimento do Alberto através de uma entrevista que lhe solicitei alegando motivos de interesse para ambos. Cobiçava-lhe o dinheiro e o filho e descobri que ao 3º encontro, para além de cobiçar o dinheiro que eu sabia existir, o Alberto também já me cobiçava a mim. Felicidade! Redimo-me do meu pecado vislumbrando-o em outrem.
Atirou-se de uma janela, apesar de viver num rés-do-chão. E a polícia nem inquiriu sobre esse facto, uma ideia do meu Alberto. Levar a mãezinha ao pombal lá em cima com a intenção de lhe mostrar o pombo campeão comprado para competição para conseguir o tal dinheiro que precisava, lembra-se mãe?
Com o bâton que eu já possuía tingiu o passeio (onde já se viu uma matrona daquela idade pintar-se daquela maneira?), entornou alpista que eu já possuía e que albergava no avental por todo o asfalto e o amor que tinha pelo filho que a matou deixou-mo em herança e já o multiplicámos por 5. Afinal, pensando bem, não sou assim tão egoísta.

22.5.03

O DESAFIADOR






Na ronda pelos jornais da nossa praça encontrei esta pérola... imperdível.



Apesar do mito e do que se diz e escreve dele, há sempre coisas a aprender com Vincent Gallo. Por exemplo, que é uma "pessoa mesquinha". Ontem, não fez cerimónias, e disse mal de Kirsten Dunst ou de Wynona Rider, que estavam previstas para entrar no filme como duas das raparigas com quem Bud se cruza no seu percurso; com nenhuma das actrizes o encontro foi frutuoso, mas com a frágil Wynona, de quem Gallo foi o protector na rodagem de "A Casa dos Espíritos", foi especialmente cruel - "a minha ideia era ter Winona no filme; acredito que ela roubou mesmo aquela loja, podia ser bom para 'Brown Bunny'".

Pode descobrir-se, ainda, que nunca leu um livro. Provocação de um actor, realizador, músico, fotógrafo, manequim e etc.? "Numa provocação há sempre verdade. De facto nunca li um romance. Li partes de 'O Padrinho', na altura em que o filme saiu, mas deixei-o a meio. Vivi algum tempo com William S. Burroughs, mas nunca li nada dele, a não ser postais que me enviava. Nunca li um argumento, mas consigo estar horas a ouvir um realizador a contar-me a história do seu filme. A palavra escrita não me provoca emoção. Os meus pais não liam. A Bíblia lá de casa nunca foi lida. Só consigo ler livros técnicos, porque servem para concretizar algo ou melhorar a produtividade".

Nesta altura, a sua produtividade em termos do que é habitual numa conferência de imprensa já era grande e Gallo conquistara a sala do Palais des Festivals. O encontro começara mal, no entanto, com promessas de provocações mútuas e este diálogo:

- Queríamos saber se o pénis que se vê no filme é verdadeiro ou é uma prótese?

- Vejo que ficou a pensar nesse assunto, é porque ficou impressionado!

Gallo não virou a cara ao desafio, e a sua candura tratou do assunto. "Ego trip? Ainda não viram uma 'ego trip' de Vincent Gallo. Andam a dizer pelas minhas costas que tenho um ego gigantesco. Isso não me afecta. Há muito que decidi aceitar o facto de não ser popular. É a zona em que me sinto bem. Na escola infantil, eu era o Mr. Popular. As amigas da minha mãe e as miúdas gostavam de mim, porque eu era louro. A certa altura, o meu cabelo escureceu e tornei-me menos escandinavo. A minha reacção foi proteger-me, e decidi não estar aberto nem à amizade nem ao amor. Por receio de rejeição. É por isso que chego tarde aos encontros. Se chego a horas, pode haver sempre o caso de alguém não aparecer".

E assim falou Vincent, que foi visto na Croisette com uma camisola com uma palavra mágica escrita nas costas: "Gallo". Alguém lançou: "Tem medo que se esqueçam dele".
(Vasco Câmara IN «Público»)

21.5.03

SEVILHA


Em Sevilha, ciganas de vestidos coloridos e rodados com rosas inertes, já murchas do calor andaluz encostadas ao peito, cercam-me e acercam-se da minha mão para abrirem a palma afogueda à adivinhação dos olhos treinados. Sabem bem o que dizer ao "tipo" a que aparentemente pertenço, como sabem ao alemão que se aproxima com um sorriso de curiosidade complacente face à exótica postura das sevilhanas. Melhor só em Barcelona, onde me podem relatar o destino em castelhano, catalão, inglês, alemão, francês e italiano. Cartomantes poliglotas.

Hoje, agarram na mão livre (na outra está a caneca de cerveja, claro está!) de um adepto do Celtic de Glasgow e asseguram-lhe que dali a poucas horas a taça UEFA estará na mão dos escoceses. E agarram na mão livre do adepto do Futebol Clube do Porto (na outra está o farnel, pois claro!) e garantem-lhe que a vitória já lhes não foge.

Business.
PODE ALGUÉM SER QUEM NÃO É





- Senhora de preto
diga o que lhe dói
é dor ou saudade
que o peito lhe rói
o que tem, o que foi
o que dói no peito?
- É que o meu homem partiu

Disse-me na praia
frente ao paredão
"tira a tua saia
dá-me a tua mão
o teu corpo, o teu mar
teu andar, teu passo
que vai sobre as ondas, vem"

Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?

Seja um bom agoiro
ou seja um mau presságio
sonhei com o choro
de alguém num naufrágio
não tenho confiança
já cansa este esperar
por uma carta em vão

"por cá me governo"
escreveu-me então
"aqui é quase Inverno
aí quase Verão
mês d'Abril, águas mil
no Brasil também tem
noites de S. João e mar"

Pode alguém ser quem não é?

É estranho no ventre
ser de outro lugar
e tão confusamente
ver desmoronar
um a um sonhos sãos
duas mãos
passando da alegria ao desamor


Pode alguém ser livre
se outro alguém não é
a algema dum outro
serve-me no pé
nas duas mãos,
sonhos vãos, pesadelos
diz-me:
Pode alguém ser quem não é?
MORRESTE-ME





Sublinhei:


Comigo, a casa estava mais vazia. O frio entrava e, dentro de mim, solidificava. As várias sombras da sombra de mim, imóveis, passeavam-se de corpo para corpo, porque todos eles, todos meus, eram igualmente negros e frios. E abri a janela. Muito longe do luto do meu sentir, do meu ser, ser mesmo, o sol-pôr a estender-se na aurora breve solene da nossa casa fechada, pai. E pensei, não poderiam os homens morrer como morrem os dias?...



José Luís Peixoto,
«Morreste-me»

20.5.03

THE TETONS AND THE SNAKE RIVER



Ansel Adams, 1942


Uma serpente esgueira-se por entre os picos nevados iluminados de uma cordilheira que tem por limite a cauda invisível do réptil aquoso.



ACRESCENTAR


Uma das últimas detecções do blogo é o Acrescentar, um blog que promete acrescentar novos ingredientes de bom-gosto ao panorama bloguístico português. Aconselho vivamente uma visita. Já o acrescentei aos meus favoritos.
SABEDORIA


A sabedoria é o lado épico da verdade.



Walter Benjamin

19.5.03

UM PRADO NO TEJO


É quando se atravessa a Ponte Vasco da Gama a determinada hora de maré baixa. Quem for desperto junto à janela tem o privilégio único de ver um vastíssimo prado a estender-se onde deveria estar o rio e não há lugar para questionamentos racionais, interrogações filosóficas e existenciais, análise depurada do fenómeno. Apenas encosto a testa ao vidro e acredito na realidade do surreal.
NOVA IORQUE


(...)

Nova Iorque, no seu estridor e na sua severa decrepitude castanha, no seu insondável declínio, gera sempre algumas manhãs estivais como esta, manhãs invadidas em todo o lado por uma afirmação tão determinada de vida nova que é quase cómica, como uma personagem de cartoon que sofre infindáveis e horrendos castigos e sai sempre incólume, ilesa, pronta para mais.

(...)




Michael Cunningham,
«As Horas»

17.5.03

ASSIS NA BOCA DO LOBO


Em Felgueiras há polícias, pelo menos vi-os nas imagens televisivas, no entanto (e aqui é que me parece que reside o equívoco de alguns), para conter a multidão em fúria era necessário um contingente que, julgo, nenhum cidadão comum em situação semelhante receberia. A isto chamo igualdade. E, afinal, quem o mandou ir a Felgueiras exactamente no dia em que se realizaria uma manifestação de apoio à ex-presidente da câmara? Bom-senso precisa-se...
THE LIE



Sir Walter Raleigh


Go, Soul, the body's guest,
Upon a thankless errand;
Fear not to touch the best;
The truth shall be thy warrant:
Go, since I needs must die,
And give the world the lie.

Say to the court, it glows
And shines like rotten wood;
Say to the church, it shows
What's good, and doth no good:
If church and court reply,
Then give them both the lie.

Tell potentates, they live
Acting by others' action;
Not loved unless they give,
Not strong but by a faction.
If potentates reply,
Give potentates the lie.

Tell men of high condition,
That manage the estate,
Their purpose is ambition,
Their practice only hate:
And if they once reply,
Then give them all the lie.

Tell them that brave it most,
They beg for more by spending,
Who, in their greatest cost,
Seek nothing but commending.
And if they make reply,
Then give them all the lie.

Tell zeal it wants devotion;
Tell love it is but lust;
Tell time it is but motion;
Tell flesh it is but dust:
And wish them not reply,
For thou must give the lie.

Tell age it daily wasteth;
Tell honour how it alters;
Tell beauty how she blasteth;
Tell favour how it falters:
And as they shall reply,
Give every one the lie.

Tell wit how much it wrangles
In tickle points of niceness;
Tell wisdom she entangles
Herself in overwiseness:
And when they do reply,
Straight give them both the lie.

Tell physic of her boldness;
Tell skill it is pretension;
Tell charity of coldness;
Tell law it is contention:
And as they do reply,
So give them still the lie.

Tell fortune of her blindness;
Tell nature of decay;
Tell friendship of unkindness;
Tell justice of delay:
And if they will reply,
Then give them all the lie.

Tell arts they have no soundness,
But vary by esteeming;
Tell schools they want profoundness,
And stand too much on seeming:
If arts and schools reply,
Give arts and schools the lie.

Tell faith it's fled the city;
Tell how the country erreth;
Tell manhood shakes off pity
And virtue least preferreth:
And if they do reply,
Spare not to give the lie.

So when thou hast, as I
Commanded thee, done blabbing—
Although to give the lie
Deserves no less than stabbing—
Stab at thee he that will,
No stab the soul can kill.




Sir Walter Raleigh

16.5.03

A GENTILEZA


O conteúdo das inúmeras cartas de resposta às minhas inúmeras candidaturas espontâneas são sempre (compreensivelmente!) fabricadas segundo um modelo comum a tantos outros infortunados candidatos e acompanha-as uma fria gentileza que me permite detectar um «... lamentamos todavia informar que neste momento não é possível dar satisfação ao seu pedido...» mesmo antes de abrir o sobrescrito. A última que recebi foi ontem. Em papel lindíssimo como que para suavizar a má notícia, com o nome da instituição no topo e o logótipo num baixo relevo de muito bom gosto. Até têm razão (será a utlização do papel parte de uma estratégia aconselhada por um grupo de psicólogos contratados para o efeito?)... ler aquela nega naquele papel deixou-me indiferente, provavelmente se o papel fosse rasca não reagiria com uma não-reacção.
O PORCO





Vendedores de rua faziam bom negócio com um brinquedo de papel que representava um porco: dobrando e desdobrando o papel de determinada maneira, o boneco transformava-se na cara de Hitler.



Wladyslaw Szpilman,
«O Pianista»

14.5.03

ADVOGADO DO DIABO x 2


Desconhecia existir em tão distante terra, tão profundo conhecedor do sistema judicial português (até utilizou o termo "salazarista" num belo rasgo de conhecimento da história do século XX português...). Um prodígio, é o que vos digo! Em poucos dias, sabia de trás para a frente todos os pormenores do caso da sua mais recente constituinte e proclamava a superioridade democrática do país colonizado sobre o país colonizador. Haja pachorra!
VODKA




Pois... é ele mesmo...
LÍNGUAS DE GATO


Um sonho que me contaram:


Eu e o pessoal reunimo-nos para assaltar um banco. Quando lá entrámos eram sacos e sacos a perder de vista, sacos com o cobiçado ouro lá dentro. Carregámo-los às costas com esforço e chegados finalmente ao esconderijo onde veriamos o nosso tesouro pela primeira vez, era grande a expectativa. Quando enfim abrimos os sacos, em vez de reluzentes barras de ouro, demos de caras com línguas de gato, aqueles biscoitos que sempre tinha adorado mas que naquele momento detestei como nunca tinha detestado algo. Afinal, já não ia ser milionário.

13.5.03

NA ESTAÇÃO





Virginia Woolf: I'm dying in this town!
Leonard Woolf: If you were thinking clearly, Virginia, you would recall it was London that brought you low.
Virginia Woolf: If I were thinking clearly? If I were thinking clearly?
Leonard Woolf: We brought you to Richmond to give you peace.
Virginia Woolf: If I were thinking clearly, Leonard, I would tell you that I wrestle alone in the dark, in the deep dark, and that only I can know. Only I can understand my condition. You live with the threat, you tell me you live with the threat of my extinction. Leonard, I live with it too.

12.5.03

DESTAQUE PARA GEORGE ORWELL





A RTP online faz aqui referência ao centenário do nascimento de George Orwell.
MOTORISTAS & PEDINTES


Não é novidade que existe uma misteriosa incompatibilidade entre os motoristas de autocarro e os pedintes, de tal forma que, quando uma fila de carros parados num semáforo se apresenta ao pobre de mão esticada como um potencial manancial de esmolas, nem se aproximam da janela entreaberta do motorista responsável pela carga humana que transporta.
Mas e quando o pedinte se converte em passageiro? A má-vontade avoluma-se no tom de voz e a mulher curvada com a cara coberta curva-se ao desprezo nada disfarçado do homenzinho que lhe recebe as moedas como quem recebe pedaços de carvão em brasa.


ESCUTA, POSTO


O posto de escuta pretende ser um "farol" do que de melhor se vai publicando nos blogs portugueses, reconheço o mérito desse trabalho de recolha mas, devido precisamente ao seu carácter antológico, alguns conteúdos, em especial de cariz cultural, não são sequer referidos, concentrando-se a atenção do posto sobretudo em textos de reflexão social e política cuja qualidade não discuto tão indubitável ela é. Felicito o esforço do posto mas pedia-lhe mais equilíbrio nas escolhas para que a escuta seja realmente universal e para que os ecos da blogosfera não redundem numa uniformidade incompatível com o próprio espírito bloguista.
Posto isto...

11.5.03

FESTRÓIA





Mesmo com uma redução de cerca de 40% do subsídio, o Festróia avança e este ano homenageia Ruy de Carvalho, a Suiça e exibe uma mostra de curtos galeses.
QUERO UM IGUAL





Foi um fenómeno. E está quase tudo dito. O insólito é que aquilo que parece estar a animar os meios de comunicação, sobretudo além-fronteiras, nesta fase de expectativa que acompanha a pré-estreia é não tanto o conteúdo da película, perfeitamente secundarizado em detrimento do estilo de Neo and friends. Haverá tempo para se esmiuçar o argumento (se muito não estiver já esmiuçado com o primeiro filme da trilogia) mas por agora humildemente me rendo a esta magnífica peça de vestuário que Neo enverga no cartaz que aqui deixo.
"ESTE É O MEU CORPO" DE FILIPA MELO





Não é esboçada sequer uma tentativa de procura do móbil do crime, embora por detrás de um acto de barbárie se esconda invariavelmente uma «razão», por mais absurda ou incompreensível que possa parecer. A loucura, momentânea ou continuada e declarada, esbarra no «prazer» da morte violenta e a ausência de configuração física que relacione o indivíduo acusado com o acto praticado, ou seja, a sua aparente «normalidade», acaba quase sempre abalada pela descoberta de um qualquer facto traumatizante no decorrer da vida que impele o sujeito a provocar, a infligir aos outros a dor que ele próprio experimentara.
Em «Este é o Meu Corpo» de Filipa Melo, não importa a psique do assassino, nem tão pouco as circunstâncias que o levam a disferir o «golpe mortal»; assistimos antes à «elevação» da vítima a um estádio de ainda vida latente conseguida através da reconstituição existencial do corpo sem identidade, porque irreconhecível quando encontrado.
E é a busca dessa verdade que todo o ser-humano se arroga possuir que transporta os intervenientes da história numa viagem intra-corporal e numa outra extra-corporal, apresentando como limites os seus corpos e memórias pessoais intransmissíveis, e aquele corpo sem rosto e desconhecidas recordações em cada recanto que principia, na autópsia, a sussurrar ao Médico-Legista alguns factos de uma vida breve. Encetado o diálogo, a identidade emerge.
O visível e o invisível. Penetrando no reino do que é somente adivinhável, a mão policial do Médico-Legista desvela os contornos de um «espaço» brutal porque tão real e conduz a investigação analisando os orgãos que contam histórias, vozes que empurram o Médico ao megulho no inferno da sua solidão e do Ser abandonado à bátega da chuva. Aqui o invisível é transparência, iluminação, manifestação visceral de acontecimentos registados.
A cadeia de abandonos é irónica e sagaz envolvendo todos os participantes da intriga a começar pelo corpo resultante do delito. Um pai abandona uma filha, uma filha abandona um pai, um amigo deixa-se abandonar a uma amiga, um marido abandona uma mulher, uma amante abandona um amante, uma mãe abandona um filho. Mas o abandono nunca é total, tal como o abandono supremo, o abandono à morte, também não é, porque desemboca num encontro ou reencontro, o meio de apaziguar o sofrimento provocado por uma ausência.
Eduarda está morta há pouco mais de um dia e é dissecada pelo Médico-Legista cujo nome nunca chegamos a saber ( e é como se a não-identidade dele e a não-identidade dela os unisse nesse vácuo, e a descoberta gradual dela seja a descoberta gradual dele), contudo, os orgãos intactos, esse interior que tudo revela ( e não é só o cérebro, a «estrela» de uma autópsia, que amalgama os segredos de uma vida; tudo é útil quando um desconhecido esfolado é deitado na maca metálica, operação comparável àquela ida ao psicanalista relatada pelo Médico, simplesmente desta vez o «doente» não evitava recostar-se no divã e não hesitava em desnudar-se por completo até não restarem dúvidas a respeito de significados e implicações) unia-se num apelo pelo apuramento de um nome indiciador de um fio de personalidade confirmada e até ali apenas suspeitada.
A memória de Eduarda sobrevive, resiste à morte física. Amada quando ainda era Eduarda e amada depois de já não o ser por todas as personagens masculinas do romance: António, Miguel, Jacinto e o Médico-Legista, o único que não a havia conhecido em vida. E este homem que conversa com os «seus» mortos não se limita a dissecar mais um cadáver, disseca o porquê do amor que sente pela massa disforme, repugnantemente bela ou de uma beleza repugnante, em que se convertera Eduarda.
A veterinária não se opõe ao impulso assassino de quem a mata, talvez porque adivinhasse o desfecho provável de uma história de amor sem amor, sem muito para contar. Sobraria um corpo, o seu corpo, para testemunhar a banalidade de mais uma morte. Não teria previsto a cruel encenação post-mortem que o carrasco decidira executar.
A multiplicidade de Eduarda (amante, mãe, amiga, filha e desconhecida), comum a todo o ser-humano, é a negação da procurada identidade; a unidade não tem aqui lugar. E gorada uma identidade condensada num nome apenas, numa mexa de cabelo afagada mil vezes ou na forma como todos os dias se dão os bons dias aos outros, restam as identidades, os resíduos insuspeitados na perspectiva de uma autópsia que nunca será a nossa sobre nós próprios.
O corpo virado do avesso é resgatado do olvido porque morto uma segunda vez.


ELEGIR MI PAISAJE



Foto de Mario Benedetti por Omar Meneses


Si pudiera elegir mi paisaje
de cosas memorables, mi paisaje
de otoño desolado,
elegiría, robaría esta calle
que es anterior a mi y a todos.

Ella devuelve mi mirada inservible,
la de hace apenas quince o veinte años
cuando la casa verde envenenaba el cielo.
Por eso es cruel dejarla recién atardecida
con tantos balcones como nidos a solas
y tantos pasos como nunca esperados.

Aquí estarán siempre, aquí, los enemigos,
los espías aleves de la soledad,
las piernas de mujer que arrastran a mis ojos
lejos de la ecuación dedos incógnitas.

Aquí hay pájaros, lluvia, alguna muerte,
hojas secas, bocinas y nombres desolados,
nubes que van creciendo en mi ventana
mientras la humedad trae lamentos y moscas.

Sin embargo existe también el pasado
con sus súbitas rosas y modestos escándalos
con sus duros sonidos de una ansiedad cualquiera
y su insignificante comezón de recuerdos.

Ah si pudiera elegir mi paisaje
elegiría, robaría esta calle,
esta calle recién atardecida
en la que encarnizadamente revivo
y de la que sé con estricta nostalgia
el número y el nombre de sus setenta árboles.




Mario Benedetti

9.5.03

O SOM DA SOLIDÃO


No ano em que Varsóvia é libertada, 1945, Wladyslaw Szpilman escreve a primeira versão de «O Pianista». É dos escombros de um mundo perdido que a sua voz se eleva.


Wladyslaw Szpilman é pianista na Rádio Polaca em Varsóvia quando, em finais de Agosto de 1939, as tropas nazis sitiam e ocupam a cidade - ocupação essa que se prolongará até ao final da guerra. Afixada a progressiva supressão de liberdades cívicas e humanas, em proclamações com parágrafos especialmente dedicados a judeus (nos quais era garantida a segurança de pessoas e bens) e, mais tarde, assumindo a forma de decretos crescentemente repressivos dirigidos à comunidade judaica em exclusivo, assim estava a ser preparado o terreno para a criação do «ghetto» de Varsóvia, que chegaria a albergar cerca de meio milhão de judeus e que os alemães, num comentário oficial, designaram por «bairro judaico». Segundo um jornal do regime, «os alemães eram uma raça demasiado culta e magnânima (...) para confinar até mesmo parasitas como os judeus em ghettos, um remanescente medieval indigno da nova ordem da Europa. Em vez disso, haveria na cidade um bairro judaico onde só viveriam judeus, no qual desfrutariam de total liberdade e poderiam continuar a praticar os seus costumes e a sua cultura raciais. Por razões puramente higiénicas, esse bairro seria cercado por um muro, para que o tifo e outras doenças dos judeus não se propagassem a outras partes da cidade».
Szpilman e a família encontram-se entre os «escolhidos» que são encarcerados no «ghetto». O absurdo dessa realidade com aparência de liberdade é sublinhada pelo narrador ao declarar: «Eu saía muitas vezes, para caminhar ao acaso, e encontrava inesperadamente um desses muros. Barravam-me o caminho quando queria continuar a andar e não havia nenhuma razão lógica para me deter». É o relato dessa vivência cada vez mais precária, em conformidade com o plano nazi de eliminação dos «parasitas do organismo saudável dos povos arianos», que o protagonista nos revela, recorrendo à descrição crua de factos mas sem manifestar ódio face aos usurpadores da sua e de tantas outras vidas. Prefere ironizar, como quando lhe é sugerido tocar no casino do comando de extermínio alemão, «onde oficiais da Gestapo e das SS se distraíam, à noite, depois de um dia cansativo a assassinar judeus».
O pianista nunca cessa de o ser. Instado por um amigo ou protector a sentar-se frente a um qualquer piano miraculosamente poupado aos efeitos do abandono ou à simples pilhagem, sente os dedos rígidos a «moverem-se com relutância sobre as teclas» e o som parece-lhe «irritantemente estranho», como se também a música, à semelhança daquele mundo em ruínas, se aproximasse do fim. A vinda de cada Inverno, anunciado pela mudança de cor das folhas nas árvores da Aleje Ujazdowskie e pelo «vento que soprava mais frio de dia para dia», aliado ao duro trabalho braçal (é um dos escravos que trabalha na demolição dos muros do «ghetto»), provoca-lhe a ansiedade de quem depende dos dedos para poder pensar numa futura carreira como pianista. Sim, mesmo vivendo na permanente dúvida de quando chegaria a sua vez de entrar nos vagões de gado desinfectados da Umschlagplatz, on de partilhara a última refeição com a família, mesmo assim Szpilman pensa num futuro baseado no único bem que lhe resta do período anterior à guerra.
Esta é também uma história de fantasmas, ausências e solidão, e de como dessa absoluta solidão dependia a sobrevivência de Szpilman, dolorosamente consciente da subserviência que deve ao silêncio. E do inverosímil encontro entre a presa e o caçador que, afinal, nada mais era do que um homem deslocado, um homem que corou quando teve que admitir, perante a pergunta do polaco, que era alemão.
Como afirma Andrzej Szpilman no prefácio, o seu pai não é escritor. Mas é a este não-escritor que devemos um retrato da criação e destruição do «ghetto» de Varsóvia, desapaixonado e poético a espaços (eis um exemplo: «As penas das almofadas rasgadas entupiam as valetas e encontravam-se por todo o lado: cada sopro de vento levantava grandes nuvens delas, que turbilhonavam no ar como uma densa queda de neve em sentido inverso, da terra para o céu»). Ou de como as almas que nele habitavam se tornaram parte da solução final nazi desde o início.
O som da solidão é um comboio que se afasta.



IN DNa de 3 de Maio de 2003



Adrien Brody como Wladyslaw Szpilman no filme de Polanski

8.5.03

ARTE COM BARATAS


O artigo completo encontram-no aqui, a arte é de Catherine Chalmers e as representações que poderão ver já a seguir fazem parte da exposição «Executions», parte do projecto da artista dedicado às baratas.

why do they disgust us? Perhaps because they are similar to us.



Electrocution




Hanging




Electric Chair


Weird indeed


KARRAS, KARADRAS, AINDA A DORMIR


06h30 horas da manhã, sentada à mesa do pequeno-almoço e já não sei como nem porquê, disse-lhe que não gostava do final de «O Exorcista» de William Friedkin. Por outro lado, o início agarra-me de imediato, talvez por envolver uma escavação arqueológica no Iraque e por ser extraordinariamente bem filmado o encontro imediato entre o padre Merrin e o demónio.

F: E lembras-te do nome do padre?

C: Era um nome grego, não era? Ka... qualquer coisa... Karadras! Ou Karadras é o nome de uma cidade no Iraque?

F: (risos) Karadras! vais-te rir quando te disser o que é Karadras...

C: O que é?

F: Lord of the rings... doesn't that ring a bell?

C: Ooops... Karadras é a montanha que a fellowship atravessa antes de se dirigir para as minas de Mória... E afinal qual é o nome do padre do exorcista?

F: Damien é o primeiro nome...

C: Como é que a mãe o chamava quando lhe fala a partir do corpo possuído da Reagan?

F: Dimmie.

C: Completa!

F: Karras! Sabes aquela cena quase no fim em que um dos padres está debruçado sobre o outro como que a dar-lhe a extrema unção? E treme por todos os lados? Era um padre real e o tremor também era real, um real temor ao realizador que o ameaçou com coisas menos divinas se ele não conseguisse, finalmente, fazer a cena da forma devida.


QUEM? AH...


Agora que a incerteza quanto à identidade "escondida" menos escondida dos últimos tempos e, penso, sem intenção do próprio de a esconder, caiu por terra, uma nostalgia desse breve mistério (que digo? inexistente mistério!), que animou alguns blogs da nossa crescente comunidade, já ressoa... Talvez outros enigmas que tais provenientes da praça política portuguesa se avizinhem...
PAULO BRANCO COM 6 FILMES EM CANNES





Cannes aproxima-se e a representação portuguesa no mais importante certame cinematográfico do mundo assume, desde já, contornos inéditos. O produtor Paulo Branco consegue ter 6 filmes "seus" no festival em categorias várias, sendo que 3 são portugueses.


Riesgo, trabajo y pasión son las palabras que le definen. <----- Entrevista com Paulo Branco

7.5.03

AT THE OPERA





At the opera in Milan with my daughter and me, Needleman leaned out of his box and fell into the orchestra pit. Too proud to admit it was a mistake, he attended the opera every night for a month and repeated it each time. (Woody Allen em «Side Effects»)
FESTA NO CHIADO




Já está em marcha... a esta hora João Francisco Vilhena apresenta «Atlântico» de Pedro Rosa Mendes no Café Chiado.
TEATRO DE ANIMAÇÃO DE SETÚBAL


O TAS levará ao palco nos próximos dias 14, 15, 16 e 27 de Maio a peça de Garrett «Falar verdade a mentir», adaptada para uma assistência de crianças do ensino básico.





No dia 28 de Maio é apresentada a peça «O gato e a gaivota» baseada no delicioso livro de Luis Sepúlveda «A história da gaivota e do gato que a ensinou a voar» também destinada a um público mais jovem.
TIAGO OLIVEIRA NA ARTE & OFICINA


Depois de participar na anterior exposição colectiva da Arte & Oficina (Setúbal) designada «(Atmo) Esfera Terra Homem Igual (III) ...a nós», Tiago Oliveira apresenta-se agora na mesma galeria com uma mostra individual do seu trabalho a que deu o nome de «Jardim dos Jogos». A inauguração decorrerá no sábado, dia 10 de Maio às 18 horas, e estará patente ao público até 1 de Junho.

6.5.03

UM LIVRO ANTIGO


A Bíblia é um livro antigo -
Escrito por Homens já desaparecidos
por sugestão de Espectros Sagrados -
Temas - Belém -
Paraíso - a velha Morada -
Satanás - o Brigadeiro -
Judas - o Grande Infractor -
David - o Trovador -
Pecado - um reconhecido Precipício
a que outros devem resistir -
Os rapazes que "crêem" são solitários -
Os outros estão "perdidos" -
Tivesse a História melhor narrador -
E todos os rapazes viriam -
O sermão de Orpheu cativava -
E não condenava. -



Emily Dickinson
TAMBÉM A TIME...





... dedica um artigo aos costumes no filme «The Matrix» que é capa na edição desta semana da revista.
TIRAR FOTOGRAFIAS É COLOCAR UMA CABEÇA, UM OLHO E UM CORAÇÃO NO MESMO EIXO





Henri Cartier-Bresson na Biblioteca Nacional de França até 27 de Julho.
5 DIAS, 4 REALIZADORAS


O Auditório Municipal Charlot em Setúbal, recebe nos próximos 5 dias, a começar amanhã, um mini-festival de cinema promovido pelos alunos do 4º ano de Comunicação Social da ESE da cidade do Sado.
Os filmes - «Rosa Negra» (1992) de Margarida Gil, «Até Amanhã, Mário» (1993) de Solveig Nordlund, «O Anjo da Guarda» (1999) de Margarida Gil, «Glória» (1999) de Manuela Viegas & «Capitães de Abril» (1999) de Maria de Medeiros - têm todos início às 18 horas e, meus amigos, a entrada é gratuita.





Antes de tudo, «Capitães de Abril» é uma declaração de amor. Uma declaração de amor de uma mulher que tinha 8 anos no 25 de Abril por um capitão que veio de Santarém conquistar a Liberdade e, alguns anos depois, morreu jovem como dizem que acontece aos que os deuses preferem. Por isso, Salgueiro Maia é, em «Capitães de Abril», mais que uma figura histórica, antes um herói romântico, uma figura desenhada por um olhar que já vê mais a efabulação que a realidade. Por isso, este é um filme que nos comove, tanto mais que nem os personagens viveram felizes para sempre, nem o quotidiano disso deu conta. (Jorge Leitão Ramos)


DRESSING TO DODGE BULLETS: THAT 'MATRIX' LOOK





É o título do artigo do New York Times, dedicado a um dos aspectos mais marcantes do filme, as vestimentas dos heróis.


That the real world is unreal is a very powerful metaphorical idea that resonates, particularly with the young.

5.5.03

LA OREJA DE VAN GOGH





Ouvi há pouco um excerto da música «Puedes contar conmigo» dos La Oreja de Van Gogh e gostei do som, mas o que mais me chamou a atenção foi um certo toque de cantiga de amigo ou de amor da lírica galaico-portuguesa, sobretudo nos versos finais:


Y no puedo evitar echarte de menos
mientras das la mano a mi tiempo y te vas.
Yo siento que quiero verte y verte y pienso
que recordarás las tardes de invierno por Madrid,
las noches enteras sin dormir.
La vida pasaba y yo sentía que me iba a morir de amor
al verte esperando en mi portal sentado en el suelo sin pensar
que puedes contar conmigo.
Que recordarás las tardes de invierno por Madrid,
las noches enteras sin dormir.
La vida se pasa y yo me muero, me muero por ti.



Investiguei um pouco e encontrei este «Dile al sol» do primeiro álbum da banda espanhola. Aqui o tom tem qualquer coisa de rimance...


Hubo una guerra en la antigüedad,
que separó un joven y dulce amor,
él tuvo que ir al frente a luchar.
Fue una lanza la que atravesó,
mil sentimientos y un corazón,
él murió de pie, nunca regresó.

Vuelve a mí,
y dame tu mano al andar,
vuelve a mí,
y mira mis ojos llorar.
Dile al sol,
que haga volar,
tu calor,
hacia nuestro hogar,
para que vuelvas a mí.

Ella no olvida aquel frío adiós,
se heló su sangre y tembló su voz,
mientras se alejaba su joven amor.
Cuentan que todas las mañanas va,
a conversar con un viejo árbol gris,
a él le habla de su gran soledad.

Vuelve a mí,
y dame tu mano al andar,
vuelve a mí,
y mira mis ojos llorar.

Dile al sol,
que haga volar,
tu calor,
hacia nuestro hogar,
tu calor,
hacia nuestro hogar,
para que vuelvas a mí.

Dónde estás amor,
donde duermes hoy,
dame el beso aquel,
que me dijo adiós,
que me dijo, adiós.

Vuelve a mí,
y dame tu mano al andar.
vuelve a mí,
y mira mis ojos llorar.
Dile al sol,
que haga volar,
tu calor,
hacia nuestro hogar,
para que vuelvas a mí.



O título do novo álbum dos La Oreja de Van Gogh é «Lo que te conté mientras te hacías la dormida» e, já agora, já vi, aqui mesmo em Portugal um café meio escondido com o nome «A orelha de Van Gogh».
PACTO DE AGRESSÃO


O vento iça-me. Já não piso as pedras, vogo acima delas. O sol pousa um raio ao acaso no ombro crispado de Bóreas. Eu regresso a solo firme, enquanto o tratado entre os tratantes que impedem o firme estabelecimento da primavera se reafirma.


A DUPLA



Isabel de Portugal por Tiziano (Museu do Prado, Madrid)


Após a morte da Imperatriz Isabel de Portugal a 1 de Maio de 1539, Carlos V encomenda a Tiziano um retrato fiel da mulher. Sabe-se que foi uma das mais belas rainhas de Espanha, mas após a sua morte e para o comprovar, restava somente a sua memória e um camafeu com a sua efígie a partir do qual Tiziano pintou a sua obra. Consta que a primeira versão da obra não terá agradado em absoluto ao Imperador graças à imperfeição do nariz de Isabel e assim Tiziano foi obrigado a retocar realisticamente o imperialíssimo nariz no retrato póstumo da esposa de Carlos. Uma dupla em tela.





O DUPLO


Acontece que a única vez que tive a oportunidade de ver José Mourinho em pessoa, apenas lhe consegui vislumbrar o reflexo projectado no canto direito do espelho onde eu própria estava projectada, preparada para um extenso corte das minha ondas capilares. Apresentou-se como sempre se apresenta, seco com feições empedernidas, uma expressão facial quase robótica, diria. Não vi, então, propriamente, a pessoa, mas sim uma imagem gerida pela luz, pelos gestos lentos e distantes e pela minha miopia crónica. O duplo imaterial do treinador do Futebol Clube do Porto.
Contudo, é curioso verificar que Mourinho (portador da boa nova: «seremos campeões para o ano») é uma espécie de duplo material de Jorge Nuno Pinto da Costa. Deve ser sensacional apertar a mão ao outro lado do espelho. Confundem-se nesta vitória do F.C.P., o "pai" e o "filho", e parece-me que já se podem sentar lado a lado nas "alturas" e contemplar a obra feita.


4.5.03

SAUDADE


Palavras há que,ao serem "dicionarizadas", se reduzem a esqueleto de coisa nenhuma.

3.5.03

AS VEIAS DOS BÚZIOS





(...)Sou o único criminoso que não há-de tornar nunca ao local do crime e se um dia tornar encontrá-lo-ei vazio como uma feira desarmada, com pontas de cigarro por aqui e por ali, as luzes apagadas e o papel que embrulhava as sanduíches dos que se cansaram de esperar levantado pelo ventinho que sopra onde não existe mais nada. Se a política é o ofício das coisas inacabadas ou a arte de escolher entre os inconvenientes (Druon), não trouxe aos outros senão o sentimento de um provisório instável, ancorado na recusa definitiva de deixar de ser pacientemente inquieto. Procuro-me entre as palavras para saber quem sou e não farei nunca um bom lugar na carreira de funcionário da modéstia, quanto mais não seja porque a única seriedade que concebo é aquela que permite todas as fantasias.


António Lobo Antunes,
«Livro de Crónicas»


2.5.03

ALGURES


O algures é um espelho em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu, descobrindo o muito que não teve nem terá.



Italo Calvino,
«As Cidades Invisíveis»
AT-TAMBUR





Música e dança tradicionais, instrumentos, recolhas, notícias... tudo isto encontrei no At-Tambur, site do grupo musical do mesmo nome com uma tremenda qualidade informativa e gráfica. Vale a pena visitar o sítio regularmente, aqui fica a dica.



1.5.03

GUGGENHEIM NO RIO



Alçado norte do Guggenheim de Bilbao


É só para 2007 mas já é notícia: o Rio de Janeiro terá um Museu Guggenheim à semelhança de Nova Iorque e Bilbao projectado desta feita por um francês, Jean Nouvel.



O Guggenheim em Nova Iorque
PERUANOS


Encostados à branca parede lateral da igreja, à sombra do campanário e do ninho de cegonha sem cegonha, os peruanos vendem brincos e pulseiras e colares e anéis e eu páro e olho os artigos expostos com as mãos nos joelhos (incómoda posição) e acabo por ficar de cócoras, atenta a cada par de brincos enquanto uma rapariga ao meu lado regateia o preço de dois enormes sóis que penderão daí a pouco das suas orelhas. O vendedor baixa-lhe o preço em 50 cêntimos e só em 50 cêntimos, apesar dos protestos e insistência da jovem que quer, por força, um desconto a dobrar.
Afasto-me e quando volto a passar pelo trio de peruanos, já almoçam no próprio local, em pé, e eu, sabendo intimamente porquê, invejo-os.
IN LOVE WITH SONNETS


Born in Sicily as a love poem, refined in Italy during the Renaissance, imported to England in the 16th century, favored by Shakespeare, Donne and Milton, resurrected by Wordsworth, maintained in the Victorian era by Elizabeth Barrett Browning and carried into the 20th century by Yeats, E. E. Cummings and Jack Kerouac, the sonnet is the subject of a new exhibition at the New York Public Library. Opening tomorrow and continuing through Aug. 2, "Passion's Discipline: The History of the Sonnet in the British Isles and America" has more than 250 items, including sonnets in the hand of Wordsworth, Coleridge, Keats and Browning; typescripts revised by W. H. Auden; a lavishly illustrated 15th-century Petrarch manuscript; 17th-century folios of Shakespeare's plays; and Sylvia Plath's dog-eared paperback edition of Donne's poems.

The New York Times


E já agora Camões, um dos mais brilhantes cultores do género...





Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança ainda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais,
e se torna, não tornam as idades.

Razão é já, ó anos!, que vos vades,
porque estes tão ligeiros que passais,
nem todos para um gosto são iguais,
nem sempre são conformes as vontades.

Aquilo a que já quis é tão mudado
que quase é outra causa: porque os dias
têm o primeiro gosto já danado.

Esperanças de novas alegrias
não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
que do contentamento são espias.



SEM LIMITES


There are so many things I want to do musically. Those possibilities have always seemed irritatingly endless. In fact my problem has always been trying not to just skip from style to style for the sake of it, but to try and find my own musical destiny.


Neil Hannon



Fotografia de Kevin Westenberg em Veneza para o álbum Casanova (1996)
COMPANHIA DE DANÇA CONTEMPORÂNEA DE SETÚBAL





Fundada em 1992 por Maria Bessa e António Rodrigues, ainda hoje os directores artísticos da CeDeCe, a Companhia de Dança Contemporânea de Setúbal, apesar das dificuldades financeiras com que se tem debatido (ver artigo de Guilherme Santos no DN de 15 de Fevereiro deste ano aqui), mantém quatro temporadas anuais em Setúbal, actuando no Fórum Luísa Todi. Amanhã, dia 2 de Maio, às 21h30, apresentam nova coreografia, nada mais nada menos do que «Romeu e Julieta».


Juliet: O, swear not by the moon, the inconstant moon, who monthly changes in her circled orb, lest that thy love prove likewise variable.

Romeo: What shall I swear by?

Juliet: Do not swear at all. Or, if thou wilt, swear by the gracious self which is the god of my idolatry, and I'll believe thee.



Shakespeare,
«Romeo & Juliet»

30.4.03

2





A OBRA AO NEGRO





À cabeceira dos doentes acontecera-lhe muitas vezes ouvir contar sonhos. Também ele tivera os seus. As pessoas contentavam-se, geralmente, em extrair dessas visões presságios às vezes certos, dado que revelam os segredos daquele que sonha; ele, todavia, pensava para consigo que tais jogos do espírito entregue a si mesmo tinham, sobretudo, a possibilidade de revelar a maneira como a alma se apercebe das coisas. Punha-se a enumerar as qualidades das substâncias que via em sonhos: a leveza, a impalpabilidade, a incoerência, a total liberdade em relação ao tempo, a mobilidade de formas de uma só pessoa, que faz que cada qual seja muitos, e vários se reduzam a um só, o sentimento quase platónico da reminiscência, o sentido quase insuportável de uma necessidade. Estas categorias fantasmais assemelhavam-se muito ao que os hermetistas pretendiam saber a vida de além-túmulo, como se o mundo da morte fosse, para a alma, a continuação do mundo da noite. Todavia, a própria vida, ao olhar de um homem prestes a deixá-la, adquiria também a estranha imobilidade e a bizarra arrumação dos sonhos.


Marguerite Yourcenar

29.4.03

MISERY





Pois é verdade, revi a obra-prima de Rob Reiner, o terrífico «Misery». Kathy Bates aterradora e James Caan sóbrio (lembram-se dele como Sonny, o filho mais velho e impulsivo de Vito Corleone em «O Padrinho»?). A evolução da personagem Annie (a enfermeira que qualquer um de nós gostaria de nunca encontrar pela frente) não se arrasta interminavelmente, é rápida e certeira, percebemos sem grande demora que Paul Sheldon teve a infelicidade de ser recolhido por uma lunática, a sua fã nº 1. Claro que a loucura da enfermeira se revela de forma mais evidente porque confrontada com uma «peripécia» por ela não esperada: a morte de Misery no manuscrito que Sheldon transporta aquando do acidente. Queimar esse e escrever outro com um final em conformidade com os desejos da protectora de Misery, eis a tarefa do escritor. Simplesmente o fim desejado por Annie, despoletará o seu próprio fim. E nem falta uma cena em que julgamos que a vilã está morta quando na verdade ainda mexe, por pouco tempo...
ODE AO SANGUE


Quisera ver o meu sangue a correr pelo chão:
A golpear o seu corpo de flor
- de solidão perdida e intolerável –
Para manifestar-se com a angústia
E poder chorar a perdição dos dias,
A cor áspera das minhas veias cediças.
Se pudesse vê-la sem ânsia
A queimar o ar malfadado, impenetrável,
Que move os tormentos secos da minha garganta
E aperta a minha pele incomparável;
Não as marés, as ervas antigas,
Toda a minha vida de eco incompreendido!


Quisera conhecê-la esplêndida para viver fora de mim,
Como um rio partido pelo vento,
Como a vontade que só a alma reconhece.
Não aguardarei por nada. Para que morada o ardor alheio
Sairá alguma vez
A observar a memória desabitada, sem paraíso,
A luz interminável.


Quisera estar nu, só e feliz,
Para arrebatar a sombra da morte
Como uma enorme e aziaga nuvem destruída.


Se um dia fôssemos estrangeiros,
Capazes de ouvir o murmúrio da erva como um sedento hábito
Peregrino,
Limpos do humor corrupto,
Cortaria as veias por amor
Para que se escutasse o seu fluir;
Para vestir meu corpo solitário
Com o fogo lânguido.


Mas não há-de chegar nunca esse tempo mágico,
Como não chega a felicidade
Onde não vive o esquecimento, a voz morta,
Já apagada.
Nem mar, céu, flor, mulher: nada.
Ninguém a viu levar a rosa vulnerável,
O deserto extraviado entre bocas inúteis.
Que duro silêncio a envolve,
Já não sei onde chega a vida
Ou quer abandoná-la desprendida.
Onde se estreita a pele impossível,
O seu lento signo enigmático: chama da essência sem despedida.


Chora através da carne,
Cravada num fosso sem céu,
Na noite desprezada
Com a sua língua eterna.
Uma tristeza ampla regressa à vida sem cansaço;
Encerrada no repouso.


A morte imensa vela o sonho sem alvorada!
Ninguém sabe nada.
Eis o que existe. A ansiedade volta para dentro,
Surda, detestável, apartada.


Majestosa em seu mundo obscuro, regressará à sua raiz
Indefinida, penetrante, solitária.
Talvez um rio, uma boca inesquecível
Possam recordá-la.




Ricardo Molinari



Georgia O'Keeffe

28.4.03

DERIVANDO


Ouço as passadas do relógio, aliás, de vários relógios espalhados por vários compartimentos. As passadas são mínimas e devolvidas pelo silêncio dos pequenos ruídos nocturnos, arrefecidos pela chuva leve que cai na noite e pelo arrepio da minha despropositada manga curta. Em cada compartimento corre o tempo e com ele as paredes e com elas as estrelas cobertas por diversos tectos acima do meu, plataformas lunares em repouso. A lua hoje hibernou. Gosto de não a ver todas noites. Não as diviso, as estrelas, divido-as antes em semblantes, em tempos iguais, diferentes do meu que está aqui e já não está e estanca e retoma a marcha. Toca o alarme de um carro e imagino um pé-de-cabra em fuga.



Wassily Kandinsky

24.4.03

NA WEMBLEY ARENA, LONDRES, 1999





Voltarei a este senhor...
FEAR


Hart Crane nasceu em 1899 em Garrettsville, Ohio e foi um autodidacta profundamente inspirado pela poesia de Walt Whitman cuja principal obra «The Bridge» nos oferece a visão espiritual e histórica do poeta em relação à sua América natal. Suicidou-se em 1932 ao saltar do convés de um navio que regressava a Nova Iorque vindo do México.





The host, he says that all is well
And the fire-wood glow is bright;
The food has a warm and tempting smell,—
But on the window licks the night.

Pile on the logs... Give me your hands,
Friends! No,— it is not fright...
But hold me... somewhere I heard demands...
And on the window licks the night.



Hart Crane



ENCONTRO COM D. QUIXOTE II


O meu encontro com D. Quixote foi bem diverso e bem mais tardio do que o relatado por Ana Hatherly. Aconteceu já na Universidade, numa cadeira de Literatura Espanhola por mim escolhida como opção e a minha guia nessa descoberta que também (como não podia deixar de ser!) se revestiu de fascínio foi a Professora Cristina Fernandes, uma jovem docente com uma impressionante vontade de nos "contaminar" com a beleza da literatura espanhola. Por mim falo quando digo que para além de um alargamento imenso dos meus conhecimentos da literatura maior de Espanha, também ficou a consciência da inesgotabilidade de prismas ou perspectivas de abordagem da obra de Cervantes.



Picasso


Milan Kundera, no JL de 31 de Dezembro de 1997, elogia assim o improvável:


A longa tradição do realismo psicológico criou algumas normas quase invioláveis. 1) É preciso dar o máximo de informações sobre uma personagem: aspecto físico, maneira de falar e de se comportar; 2) é preciso conhecer o passado de uma personagem, porque é nele que se encontram todas as motivações do seu comportamento presente; 3) a personagem deve ter uma total independência, quer dizer, o autor e as suas próprias considerações devem desaparecer para não perturbar o leitor que quer ceder à ilusão e tomar a ficção pela realidade.
Ora Musil rompeu este velho contrato entre o romance e o leitor. E outros romancistas com ele. Que sabemos nós da aparência física de Esch, a maior personagem de Broch? Nada. Excepto que tinha dentes grandes. Que sabemos nós da infância de K. Ou de Chveik? E nem Musil, nem Broch, nem Gombrowicz têm a menor dúvida em apresentar nos seus romances os pensamentos dessas personagens. A personagem não é a simulação de um ser vivo. É um ser imaginário. Um ego experimental. O romance volta assim ao seu início. Dom Quixote é quase impensável como ser vivo. Apesar disso, na nossa memória, que personagem existe mais viva do que ele?
Os primeiros romancistas não tiveram escrúpulos perante o improvável. No primeiro livro de “Dom Quixote”, há uma taberna algures em Espanha onde toda a gente se encontra por acaso: Dom Quixote, Sancho Pança, o barbeiro e o cura seus amigos, depois o jovem Cardenio a quem um certo Don Fernando roubou a noiva Lucinda, daí a nada também Doroteia, a noiva abandonada desse mesmo Fernando, mais tarde este e Lucinda, a seguir um oficial que fugiu de uma prisão moura mais o seu irmão que ele procura há anos, a filha Clara, o amante dela, que a persegue, e ele próprio perseguido pelos criados do pai... uma acumulação de coincidências e de reencontros totalmente improváveis. O que, em Cervantes, não significa ingenuidade ou azelhice. Os romances de então não tinham ainda concluído com o leitor o pacto da verosimilhança. Não queriam simular o real, queriam divertir, espantar, surpreender, enfeitiçar. Eram “lúdicos”, nisso residia o seu virtuosismo.
O início do século XIX representa uma mudanças enorme na história do romance. Diria quase um choque. O imperativo da imitação do real cobriu de ridículo a taberna de Cervantes.. o século XX revolta-se contra a herança do século XIX. Contudo, o mero regresso à taberna já não é possível. Entre ela e nós, a experiência do realismo impôs-se de modo que o jogo das coincidências improváveis já não poder ser inocente. Torna-se intencionalmente irónico, paródico («As Caves do Vaticano» ou «Ferdydurke», por exemplo) ou fantástico, onírico.


É o caso do primeiro romance de Kafka: «América». Leia-se o primeiro capítulo, com o reencontro totalmente inverosímel de Karl Rossmann com o tio: é como uma recordação nostálgica da taberna de Cervantes. Mas neste romance, as circunstâncias inverosímeis (ou mesmo impossíveis) são evocadas com uma tal minúcia, uma tal ilusão do real que se fica com a impressão de entrar num mundo que, inverosímel embora, é mais real do que a realidade. Fixemo-lo bem: Kafka entrou no seu primeiro universo «sobre-real» (na sua primeira «fusão do real e do sonho») pela taberna de Cervantes, pela porta do vaudeville.



ENCONTRO COM D. QUIXOTE






Em criança tive uma avó que contava histórias maravilhosas enquanto me ensinava a coser, a bordar, a fazer renda e essas coisas que as meninas, dantes, tinham de saber fazer. As histórias que a minha avó contava eram histórias de fadas, bruxas, milagres, naufrágios, guerras e heróis, e eu ouvi-as com tal atenção que me esquecia do bordado ou da renda e muitas vezes me caía da mão o dedal ou a agulha.
Dantes as crianças muito pequenas não iam para jardins de infância ou escolas primárias, antes de entrarem para a escola oficial aos 7 anos. Aprendia-se muita coisa em casa e foi em casa que eu aprendi a ler, e como gostava de aprender, muito cedo consegui um desembaraço incomum para a minha idade. O que me levava a aplicar-me a essa aprendizagem era o meu desejo de ler mais e mais histórias, tão fasninantes como as que a minha avó me contava e que em breve me deixou de contar, porque morreu quando eu era ainda pequena.
Transferi, portanto, para a leitura toda a minha atenção, enquanto os bordados e as rendas foram ficando pelo caminho. Embora lesse devagar e não percebesse tudo, era tal o meu fervor que a minha família teve de controlar os meus tempos de leitura e as obras que eu lia, porque eu queria estar sempre a ler e a ler tudo.
Lembro-me dos livros que podia ler e dos que não podia. Esses, estavam na sala de visitas, dentro de belos armários de tremidos e torcidos, com as portas de vidro forradas a seda de um vermelho escuro. Eram livros grandes com letras em oiro na capa e cheios de ilustrações.
Entre esses volumes bem resguardados estava a célebre obra de Miguel de Cervantes «Dom Quixote de la Mancha», numa edição de luxo, ilustrada por Gustave Doré, um famoso artista francês do século XIX. Eu não tinha autorização para ler nem sequer para tocar nesse livro, porque não era uma obra apropriada para uma criança tão pequena. Mas a história tinha-me sido mais ou menos contada e as gravuras mostradas, e foi tal o efeito que isso fez em mim, que eu só desejava saber mais e mais dessa história fantástica e ver e tornar a ver essas gravuras que me fascinavam.
Não tendo licença sequer para abrir o armário onde estava o «Dom Quixote», o que poderia eu fazer se não esperar que todos dormissem, entrar às escondidas na sala, abrir o dito armário e retirar a obra proibida? Foi o que eu fiz, muitas e muitas vezes. Ler, propriamente, eu não lia - era demasiado difícil para mim - mas as gravuras eu via-as todas, uma por uma, de uma ponta à outra. Algumas metiam-me tanto medo que eu fechava os olhos e encolhia-me toda. Mas voltava sempre a vê-las.
O tempo foi passando e ao progredir nos estudos e na leitura comecei a interessar-me por muitas outras obras, mas logo que tive idade suficiente fui ler o «Dom Quixote», que continuou a impressionar-me profundamente, embora de outra maneira.
Hoje possuo várias e valiosas edições do «Dom Quixote» e essa obra tem um lugar ímpar no meu afecto e na minha memória e nunca me esqueci daquele armário com as portas de vidro forradas a seda e da extraordinária impressão que deixou em mim essa leitura furtiva.




Ana Hatherly

23.4.03

PORTUGUESES: HERÓIS ADIADOS


Das feições de alma que caracterizam o povo português, a mais irritante é, sem dúvida, o seu excesso de disciplina. Somos o povo disciplinado por excelência. Levamos a disciplina social àquele ponto de excesso em que cousa nenhuma, por boa que seja - e eu não creio que a disciplina seja boa - por força que há-de ser prejudicial.
Tão regrada, regular e organizada é a vida social portuguesa que mais parece que somos um exército do que uma nação de gente com existências individuais. Nunca o português tem uma acção sua, quebrando com o meio, virando as costas aos vizinhos. Age sempre em grupo, sente sempre em grupo, pensa sempre em grupo. Está sempre à espera dos outros para tudo. E quando, por um milagre de desnacionalização temporária, pratica a traição à Pátria, de ter um gesto, um pensamento, ou um sentimento independente, a sua audácia nunca é completa, porque não tira os olhos dos outros, nem a sua atenção da sua crítica.
Parecemo-nos muito com os alemães. Como eles, agimos sempre em grupo, e cada um do grupo porque os outros agem.
Por isso aqui, como na Alemanha, nunca é possível determinar responsabilidades; elas são sempre da sexta pessoa num caso onde só agiram cinco. Como os alemães, nós esperamos sempre pela voz de comando. Como eles, sofremos da doença da Autoridade - acatar criaturas que ninguém sabe porque são acatadas, citar nomes que nenhuma valorização objectiva autentica como citáveis, seguir chefes que nenhum gesto de competência nomeou para as responsabilidades da acção. Como os alemães, nós compensamos a nossa rígida disciplina fundamental por uma indisciplina superficial, de crianças que brincam à vida. Refilamos só de palavras. Dizemos mal só às escondidas. E somos invejosos, grosseiros e bárbaros, de nosso verdadeiro feitio, porque tais são as qualidades de toda a criatura que a disciplina moeu, em quem a individualidade se atrofiou.
Diferimos dos alemães, é certo, em certos pontos evidentes das realizações da vida. Mas a diferença é apenas aparente. Eles elevaram a disciplina social, temperamento neles como em nós, a um sistema de estado e de governo; ao passo que nós, mais rigidamente disciplinados e coerentes, nunca infligimos a nossa rude disciplina social, especializando-a para um estado ou uma administração. Deixamo-la coerentemente entregue ao próprio vulto íntegro da sociedade. Daí a nossa decadência!
Somos incapazes de revolta e de agitação. Quando fizemos uma «revolução» foi implantar uma cousa igual ao que já estava. Manchámos essa revolução com a brandura com que tratámos os vencidos. E não nos resultou uma guerra civil, que nos despertasse; não nos resultou uma anarquia, uma perturbação das consciências. Ficamos miserandamente os mesmos disciplinados que éramos. Foi um gesto infantil, de superfície e fingimento.
Portugal precisa dum indisciplinador. Todos os indisciplinadores que temos tido, ou que temos querido ter, nos têm falhado. Como não acontecer assim, se é da nossa raça que eles saem? As poucas figuras que de vez em quando têm surgido na nossa vida política com aproveitáveis qualidades de perturbadores fracassam logo, traem logo a sua missão. Qual é a primeira cousa que fazem? Organizam um partido... Caem na disciplina por uma fatalidade ancestral.
Trabalhemos ao menos - nós, os novos - por perturbar as almas, por desorientar os espíritos. Cultivemos, em nós próprios, a desintegração mental como uma flor de preço. Construamos uma anarquia portuguesa. Escrupulisemos no doentio e no dissolvente. E a nossa missão, a par de ser a mais civilizada e a mais moderna, será também a mais moral e a mais patriótica.
O português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja. Somos um grande povo de heróis adiados. Partimos a cara a todos os ausentes, conquistamos de graça todas as mulheres sonhadas, e acordamos alegres, de manhã tarde, com a recordação colorida dos grandes feitos por cumprir. Cada um de nós tem um Quinto Império no bairro, e um auto-D.Sebastião em série fotográfica do Grandela. No meio disto (tudo), a República não acaba.
Somos hoje um pingo de tinta seca da mão que escreveu Império da esquerda à direita da geografia. É difícil distinguir se o nosso passado é que é o nosso futuro, ou se o nosso futuro é que é o nosso passado. Cantamos o fado a sério no intervalo indefinido. O lirismo, diz-se, é a qualidade máxima da raça. Cada vez cantamos mais um fado.
O Atlântico continua no seu lugar, até simbolicamente. E há sempre Império desde que haja Imperador.
Nada há de menos latino que um português. Somos muito mais helénicos - capazes, como os gregos, só de obter a proporção fora da lei, na liberdade, na ânsia, livres da pressão do Estado e da Sociedade. Não é uma blague geográfica o ficarem Lisboa e Atenas quase na mesma latitude.
(...) Nós não temos homens cultos; temos eruditos apenas. Ou antes, os homens cultos que temos, são homens de génio, o que é de mais para um povo tão pequeno.
Julgarão talvez que confundo culto com inteligente. Seria um erro julgar tal coisa. Eu nunca confundo nada. O homem inteligente é o que com facilidade tira conclusões do que lê ou vê; o homem culto é o que, naturalmente, sente e não tira conclusões, ou as tira, conforme calha ao seu feitio do momento.
Vem tudo a propósito de chegar a dizer qual é a tragédia de Portugal. É a de que, tendo vários eruditos, e muita gente inteligente, pouquíssima gente temos que seja culta. Vejam quanta criatura, quando lhe apresentam qualquer coisa de novo, procura compreender. Um homem culto procura sentir. Perceber envolve um esforço. Sentir envolve uma passividade deliciosa. O feitio enérgico, violento, indolente do português leva-o para a acção precipitada. A ciência da inacção, a mais civilizada das ciências, pouco está desenvolvida entre nós. A nossa tendência para agir ficou-nos, como uma maldição, da aventura das descobertas. Expiamos a glória dos nossos maiores na doentia preocupação do útil.




Fernando Pessoa


HORAS


Gelava o tempo branco do relógio.
Fundiu-se um dia o mostrador
aberto para dentro
num foco por onde as horas negras fugiram enlouquecidas!


Lá para longe na faixa rósea da distância
recuaram ante o incessante alarido dos sinos
e logo regressaram
desesperadamente procurando em vão
o maquinismo do relógio.


Via-se o dia fechado de silêncio
num quadrado de luz amarelada
e de novo preso o pé do jovem
quando ia para sair.




Edmundo de Bettencourt,
«Poemas de Edmundo de Bettencourt»



Paul Klee






21.4.03

ABSURDITY




«Shadow of a Twisted Hand Across My House» de David Lynch



Absurdity is what I like most in life, and there's humor in struggling in ignorance. If you saw a man repeatedly running into a wall until he was a bloody pulp, after a while it would make you laugh because it becomes absurd. But I don't just find humor in unhappiness - I find it extremely heroic the way people forge on despite the despair they often feel. Like the character in 'Eraserhead' - he's totally confused, yet he struggles to figure things out and do what's best. Isn't that fantastic?


David Lynch






19.4.03

ARTISTAS AFRO-AMERICANOS NO METROPOLITAN





Decorre até 6 de Julho no Metropolitan Museum Of Art de Nova Iorque a exposição de gravuras, desenhos e pintura «African-American Artists, 1929-1945». São retratados aspectos da vida quotidiana dos Afro-Americanos durante a II Guerra Mundial, época da Depressão e New Deal, e ainda período da Renascença do Harlem.




Elevated Streetcar Scene, 1945
John Woodrow Wilson (American, born 1922)



Duas figuras na litografia olham quem as olha: o homem, figura central da cena, e a criança no colo da mãe. E a expressão de ambos é a mesma, um sorriso que se fica pela intenção, um sorriso onde há inocência e consciência, e que se demarca dos rostos fechados das mulheres.





QUEM ÉS TU, DE NOVO


Arrepio.


Quando a janela se fecha e se transforma num ovo
Ou se desfaz em estilhaços de céu azul e magenta
E o meu olhar tem razões que o coração não frequenta
Por favor diz-me quem és tu, de novo?

Quando o teu cheiro me leva às esquinas do vislumbre
E toda a verdade em ti é coisa incerta e tão vasta
Quem sou eu para negar que a tua presença me arrasta?
Quem és tu, na imensidão do deslumbre?

As redes são passageiras, as arquitecturas da fuga
De toda a água que corre, de todo o vento que passa
Quando uma teia se rasga ergo à lua a minha taça
E vejo nascer no espelho mais uma ruga

Quando o tecto se escancara e se confunde com a lua
A apontar-me o caminho melhor do que qualquer estrela
Ninguém me faz duvidar que foste sempre a mais bela
Por favor, diz-me que és alguém, de novo?

Quando a janela se fecha e se transforma num ovo
Ou se desfaz em estilhaços de céu azul e magenta
E o meu olhar tem razões que o coração não frequenta
Por favor diz-me quem és tu, de novo?



Jorge Palma








18.4.03

HITCHCOCK II


When an actress asked Hitchcock if her right or left profile was better, he told her - My dear, you're sitting on your best profile



DINAMIZAÇÃO CULTURAL, A QUE FOI E A QUE SERÁ


Folheando o primeiro número do Boletim das Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian saído em 1975 e tendo por tema de capa «democracia e cultura», deparei-me com este texto de C.H. sobre a dinamização cultural que se pretendeu imprimir em Portugal no pós 25 de Abril e as dificuldades na sua implementação (até hoje, 28 anos depois...):


No depois do 25 de Abril, e durante algum tempo, pouco, foi amplamente divulgada uma campanha de prospecção sociocultural, alargada de norte a sul do país, que, no fundamental, consistia no facto de intelectuais e artistas procederem a espectáculos e outras práticas pedagógicas e formativas que resultariam num real enriquecimento das populações, junto das quais se buscava e se propunha um contacto directo e fraternal.
As forças armadas, essas, que forneciam os meios operacionais necessários (sobretudo transportes e alojamentos), trabalhariam paralelamente e em termos imediatamente práticos, respondendo na medida do possível a solicitações prementes dos núcleos populacionais mais desprotegidos socialmente - como redes de água e esgotos, electrificação, higienização, campos de jogos infantis, arranjo de caminhos, etc., sem esquecer essa tarefa fundamental que é a formação de comissões de aldeia, núcleos primeiros de toda uma organização política eminentemente popular e democrática.
Partiram pois, dos grandes aglomerados urbanos, soldados, viaturas, alguns voluntários e vários artistas contratados: em busca do país real e do tempo a recuperar. Sem preocupações de mestrado, antes também no sentido da aprendizagem, percorreram outras terras e gentes outras - trocando, em verdade, conhecimentos, se não aprendendo mais que divulgando.
Tratou-se de uma das mais ambiciosas iniciativas saídas da Revolução: exactamente esta da tentativa de destruição dos limites cidade-campo, cultura livresca-cultura popular, intelectual (e/ou) artista-trabalhador braçal.
Como tudo neste país propenso ao relativo, ficou-se no âmbito do entusiasmo e da boa-vontade inicial este movimento (cultural) revolucionário - sequer praticado com cabeça, tronco e membros, antes improvisado ao sabor da circunstância - e portanto transformado em pouco mais que descoberta folclórica, simpatia paternalista e militância «cultural» diletante.
Algumas representações «teatrais» nas aldeias (sem um criterioso cuidado na escolha das peças e no estilo das encenações), algumas projecções de filmes (sem gente preparada para sobre eles desenvolver um diálogo frutuoso), algumas sessões de criação plástica impingidas às crianças (sem o necessário desenvolvimento futuro), alguma (mas descontínua) distribuição de livros - e esta devida ao apoio das Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian - , um ou outro colóquio culturalista num centro paroquial ou casa do povo, meia dúzia de bailaricos abrilhantados pelas bandas militares - eis no que consistiu, grosso modo, a tão falada «dinamização cultural», para mais desfasada totalmente dos empreendimentos entretando musculados pelos militares.
A experiência, com seus limtes e seus defeitos, foi no entanto positiva, se encarada como primeiro passo, gatinhante prospecção num campo onde tudo, ou quase tudo, está por fazer - ou inventar fazendo.
Interrompida pelas vicissitudes do processo político (a que não é alheia a chamada «reestruturação» do organismo militar promotor), a campanha de «dinamização cultural», desde que operando uma crítica correcta aos aspectos negativos da sua primeira actuação e revivificada com nova orgânica e meios técnicos e humanos minimamente adequados, pode e deve ser uma das estruturas de maior alcance da «revolução cultural».
Não, evidentemente, por um espaço de poucos dias ou semanas: há que a tornar permanente e permanentemente descentralizada, isto é, fora das «jaulas» culturais que são as cidades.
Não, evidentemente, desligada, marginalizada, do trabalho físico, concreto, que seja realizado pelas forças armadas: há que a integrar na própria labuta dos soldados e das populações, sem o que surgirá como que embalada em celofane, produto de luxo ou passatempo irremediavelmente elitista.
Não, evidentemente, circunscrita ao específico da «cultura», que é onde a pretende encerrar a ideologia burguesa: há que a tornar, para que seja útil e consequente, instrumento de trabalho político.
Só assim a «dinamização cultural» corresponderá ao que dela espera um povo desde há séculos remetido à condição de máquina de produção económica. Um povo que no entanto foi capaz de preservar e é capaz de desenvolver o seu dinamismo próprio - cultural e não só.



Alguma ingenuidade própria do espírito revolucionário perpassa no texto contudo, no essencial, a mensagem encaixa ainda no Potugal de hoje. A dinamização cultural não chega ainda a todos, nem nunca chegará a todos (Ah, Utopia!), mas para quando, mente minha inquieta, qualquer coisinha de mais substancial?







16.4.03

ROCK


Allan Bloom em «A Cultura Inculta» («The Closing Of The American Mind»), traduzido em português pela Europa-América, faz uma reflexão um tanto ou quanto patética a respeito do Rock. É uma das minhas leituras do momento, a desta obra publicada em 1987.


É este o significado da música rock. Não sugiro que ela tenha quaisquer fontes intelectuais elevadas. Mas ela subiu às suas actuais alturas na educação dos jovens nas cinzas da música clássica e numa atmosfera em que não há resistência intelectual às tentativas para fazer saltar as paixões mais grosseiras. Os racionalistas dos tempos modernos, tais como os economistas, são-lhe indiferentes e àquilo que representa. Os irracionalistas são todos a favor. Não há necessidade de recear que «as bestas louras» vão surgir das brandas almas dos nossos adolescentes. Mas a música rock faz só um apelo, um apelo bárbaro, ao desejo sexual - não ao amor, não ao eros, mas ao desejo sexual imaturo e ignorante. Reconhece as primeiras emanações da sensualidade emergente das crianças e dirige-se com seriedade, descobrindo-as e legitimando-as, não como pequenos rebentos que precisam ser cuidadosamente tratados a fim de se tornarem flores esplendorosas, mas como coisa real. o rock dá às crianças, numa salva de prata, com toda a autoridade pública da indústria do entretenimento, tudo quanto os pais lhes diziam que tinham de esperar até serem crescidos para o compreenderem mais tarde.
Os jovens sabem que o rock tem o compasso do acto sexual. É por isso que o Bolero de Ravel é a única peça de música clássica que é vulgarmente conhecida e apreciada por eles. Em ligação com alguma arte real e muita pseudo-arte, uma indústria enorme cultiva o gosto pelo estado orgiástico do sentimento ligado ao sexo, proporcionando uma corrente constante de material fresco para apetites vorazes. Nunca houve uma forma de arte tão exclusivamente dirigida às crianças.



Chega a ser grotesca esta caracterização da música rock e dos seus efeitos nocivos para os jovens. Fez-me lembrar certas mentes inquisitoriais que consideravam este ou aquele tipo de música obra do demónio. Vade retro!
GOTA


A gota caiu na testa, deslizou, flacidamente líquida, até estacar na ponta do nariz, depois de percorrida a extensão recurva que facilitara a distensão espreguiçante do pedaço de céu estilhaçado. Acabou humedecendo uma manga de algodão. O vermelho escureceu enquanto as nuvens, movendo-se lateral e preguiçosamente, desbravaram o caminho a um azul fugidio, breve, um trecho apenas como a gota solitária que impeliu um braço a esticar-se, uma palma de mão a abrir-se na certificação da incerteza do desmoronamento do céu.
TIME


Ticking away the moments that make up a dull day
You fritter and waste the hours in an offhand way
Kicking around on a piece of ground in your home town
Waiting for someone or something to show you the way

Tired of lying in the sunshine staying home to watch the rain
You are young and life is long and there is time to kill today
And then one day you find ten years have got behind you
No one told you when to run, you missed the starting gun

So you run and you run to catch up with the sun but it's sinking
Racing around to come up behind you again
The sun is the same in a relative way but you're older,
Shorter of breath and one day closer to death

Every year is getting shorter never seem to find the time
Plans that either come to naught or half a page of scribbled lines
Hanging on in quiet desperation is the English way
The time is gone, the song is over,
Thought I'd something more to say




Pink Floyd,
«The Dark Side Of The Moon»
FARGO


This is a true story. The events depicted in this film took place in Minnesota in 1987. At the request of the survivors, the names have been changed. Out of respect for the dead, the rest has been told exactly as it occured.
FLARE TO WHITE

FADE IN FROM WHITE

Slowly the white becomes a barely perceptible image: white
particles wave over a white background. A snowfall.

A car bursts through the curtain of snow.

The car is equipped with a hitch and is towing another car,
a brand-new light brown Cutlass Ciera with the pink sales
sticker showing in its rear window.

As the car roars past, leaving snow swirling in their dirft,
the title of the film fades in.

FARGO




Ethan & Joel Coen


DEVIL'S DICTIONARY


Referido na Janela Indiscreta, não resisti a consultar o Devil's Dictionary e deparei-me com algumas interessantes definições. Partilho aqui dois pares de significados especialmente pertinentes:


FREEDOM, n. Exemption from the stress of authority in a beggarly half
dozen of restraint's infinite multitude of methods. A political
condition that every nation supposes itself to enjoy in virtual
monopoly. Liberty. The distinction between freedom and liberty is
not accurately known; naturalists have never been able to find a
living specimen of either.

Freedom, as every schoolboy knows,
Once shrieked as Kosciusko fell;
On every wind, indeed, that blows
I hear her yell.

She screams whenever monarchs meet,
And parliaments as well,
To bind the chains about her feet
And toll her knell.

And when the sovereign people cast
The votes they cannot spell,
Upon the pestilential blast
Her clamors swell.

For all to whom the power's given
To sway or to compel,
Among themselves apportion Heaven
And give her Hell.

Blary O'Gary



LIBERTY, n. One of Imagination's most precious possessions.

The rising People, hot and out of breath,
Roared around the palace: "Liberty or death!"
"If death will do," the King said, "let me reign;
You'll have, I'm sure, no reason to complain."

Martha Braymance


---------------------------------------------------------------


PEACE, n. In international affairs, a period of cheating between two
periods of fighting.

O, what's the loud uproar assailing
Mine ears without cease?
'Tis the voice of the hopeful, all-hailing
The horrors of peace.

Ah, Peace Universal; they woo it --
Would marry it, too.
If only they knew how to do it
'Twere easy to do.

They're working by night and by day
On their problem, like moles.
Have mercy, O Heaven, I pray,
On their meddlesome souls!

Ro Amil



WAR, n. A by-product of the arts of peace. The most menacing
political condition is a period of international amity. The student
of history who has not been taught to expect the unexpected may justly
boast himself inaccessible to the light. "In time of peace prepare
for war" has a deeper meaning than is commonly discerned; it means,
not merely that all things earthly have an end -- that change is the
one immutable and eternal law -- but that the soil of peace is thickly
sown with the seeds of war and singularly suited to their germination
and growth. It was when Kubla Khan had decreed his "stately pleasure
dome" -- when, that is to say, there were peace and fat feasting in
Xanadu -- that he

heard from afar
Ancestral voices prophesying war.

One of the greatest of poets, Coleridge was one of the wisest of
men, and it was not for nothing that he read us this parable. Let us
have a little less of "hands across the sea," and a little more of
that elemental distrust that is the security of nations. War loves to
come like a thief in the night; professions of eternal amity provide
the night.








15.4.03

«AS AFINIDADES ELECTIVAS» DE GOETHE


Obra redigida na fase madura do escritor alemão, “As Afinidades Electivas” é, a seu modo, uma tragédia sobre a impraticabilidade do amor que condena os amantes ao desencontro por razões morais, sociais e... cósmicas. O sucessivo adiamento da vivência amorosa é imposto pela conjuntura tirânica que no início do século XIX preside à mentalidade eminentemente aristocrática defensora do casamento entre classes, mas acima de tudo apologista da instituição do matrimónio como sagrada (embora esta posição seja trabalhada pelo autor por forma a colocar em evidência a hipocrisia característica do apregoado mas não praticado) . Por isso a manifestação de um desejo de união só (!!!) porque se ama, é acidamente rejeitado como uma espécie de sacrilégio.
Não mencionei o vocábulo “tragédia” em vão... com efeito, o elemento trágico interfere de forma definitiva e paira na atmosfera, por vezes aparentemente idílica do romance, desde o seu início com claros sinais premonitórios de acontecimentos dúbios a vir. Goethe escreve, então, uma tragédia sob a forma de romance o que não deixa de ser curioso tendo em consideração a admiração do autor pela tragédia grega, sendo que ele próprio elaborou por exemplo uma “Ifigénia em Táurida” tida como uma das incontornáveis tragédias da literatura alemã.
Uma convivência a quatro converte-se rapidamente, não na destruição de um lar como seria de esperar, mas na transição (nunca atingida na sua totalidade) do que se julgava querer para o que indubitavelmente se quer. A tragédia reside na circunstância de que o encontro destas almas gémeas não é durável porque lhes é vedado o acesso à concretização do amor. Um silêncio cúmplice está subjacente à estranha aceitação do adultério debaixo do tecto outrora partilhado por um casal que pensava ser feliz. A “troca” é quase natural até que o mundo exterior se dá conta do perigo que ronda aquela casa e os amantes se afastam, momento a partir do qual se inicia o caminho descendente a percorrer pelas personagens e exposto na segunda parte do livro.
Uma estranha força que me ocorre apenas designar de “cósmica” apaga a esperança no triunfo do amor, daí talvez o final místico da obra que mais não é do que, provavelmente, a vitória de uma outra forma de amor... e afinal, o amor não morre com as pessoas. E que mais não é este “regresso” de Ottilie do que uma espécie de deus ex machina típico da tragédia grega?

A ORQUESTRA


André Gago encenou para o TAS (Teatro de Animação de Setúbal) «A Orquestra» de Jean Anouilh em exibição no Teatro de Bolso até finais de Junho.
AMIGOS E ARTISTAS



De 1 de Abril até 28 de Setembro de 2003 estará patente no Centro de Arte Moderna, mais concretamente no espaço rotativo do piso 01, uma exposição de fotografias de Fernando Lemos, fotografias de artistas plásticos e escritores tiradas entre 1949 e 1952. «Amigos e Artistas», assim se intitula.
HITCHCOCK I


Ingrid Bergman, triying to make Hitchcock help her understand the motivation for the feelings of her character told Hitchcock:

I dont feel like that, I dont think
I can give you that kind of emotion


and Hitchcock replied:

Ingrid -- Fake It

14.4.03

CHUVA II


A chuva é igualmente responsável por gripes e poemas lacrimejantes



Carlos Drummond de Andrade,
«O Avesso das Coisas»




CHUVA I


A chuva desmancha prazeres e cria outros, de solidão e intimidade



Carlos Drummond de Andrade,
«O Avesso das Coisas»




BEING FUNNY


I think being funny is not anyone's first choice



Woody Allen



9.4.03

HERNÂNI CIDADE SOBRE SEBASTIÃO DA GAMA


(...) É que naquela alma, perfeita em sua inteireza e unidade, não havia deveres profissionais ou virtudes de circunstância: tudo era vivido em profundidade ou altura que excluem qualquer forma de superficialidade. O mesmo é que dizer: ser estudante ou ser professor, ser filho ou ser marido, eram apenas formas várias de ser poeta – de ser Ele mesmo, que como ninguém melhor sentia profundidades sob a própria aparência do banal e gostava do sabor do transcendente nos próprios aspectos do quotidiano.
Como poeta, sentia pelos pais pobres, que por ele se sacrificavam, a ternura que o estimulava no trabalho. Como poeta, vivia em profundidade o sentimento da dignidade que impede as atitudes mendicantes ou menos leais. Como poeta, finalmente, convivia com os rapazes que ensinava e lhe confiavam alma e espírito, coração e cabeça, na alegres fraternidade que estimula para a dádiva total – bonum est diffusivum sui.
A dádiva total!... Aos rapazes da Escola, aos amigos e colegas, à companheira do lar, à família em que foi gerado, à Serra-Mãe!... Não cabem estas almas nos limites do próprio ser, quanto mais nos limites do circunstancial!
JOSÉ RÉGIO SOBRE SEBASTIÃO DA GAMA


(...) Não obstante, compreendo agora como certa gravidade da obra de Sebastião da Gama – essa profunda gravidade que em vários seus poemas tão admiravelmente ombreia com a graça, a frescura, a juvenilidade, até a malícia, quer dos mesmos quer dos poemas vizinhos – era ganhada na convivência da Morte: essa Morte à qual, num dos mais tocantes e complexos gritos do nosso lirismo, ele pede a Deus que o poupe, por ainda se não julgar digno dela! Só tal convivência, que é a dos que vão morrer, ou pressentem morrer cedo, ou vivem mortos para as superfluidades da vida corrente, - ainda que tão vivos, como Sebastião da Gama, para todas as amabilidades do Momento eterno – só tal convivência ensina coisas que também só a verdadeira poesia comunica.

MATILDE ROSA ARAÚJO SOBRE SEBASTIÃO DA GAMA


(...) Às vezes vejo-te mesmo, de braços abertos, a sorrir, um cravinho vermelho no sobretudo azul escuro, os lábios gretados de frio, sorrindo com o teu sorriso terno. Os olhitos verdes a piscarem, a falarem duma alma imensa de ternura – e nessa alegria tão completa, tão chã, quanta compreensão desiludida e iludida pela tua bondade franciscana de criança que, só pelo tempo que lhe doeu, foi Homem.

8.4.03

DAVID MOURÃO-FERREIRA SOBRE SEBASTIÃO DA GAMA


Acaba de morrer Sebastião da Gama. À nossa infinita comoção nos parecem, agora, inúteis quaisquer palavras. Atordoados, não nos apercebemos talvez ainda bem da exacta estatura do Poeta que ele foi – para apenas sentirmos, no choque violento desta primeira hora, o íntimo vazio em que nos deixa a sua ausência.


«Cigarra que se preza, quando morre
não deve estar a meio da canção»


-Assim dizia Sebastião da Gama, no poema com que, pela última vez, colaborou em Távola Redonda – o poema Alegoria, inserto depois no último livro que publicou, esse Campo Aberto de título tão tragicamente certo e presago.
Sebastião da Gama não se deixou surpreender pela Morte; e, morrendo jovem (pouco mais velho que Sá-Carneiro, ainda mais novo que Cesário e Nobre), Sebastião da Gama deixa uma obra complexa, de amor e exaltação à Vida, elegiacamente cheia de ternura pelas coisas e pelos seres, de um misticismo sui generis – que é a projecção, no plano de Deus, de uma transbordante simpatia humana.


«A parte que lhe coube por destino,
tem de morrer deixando-a já cantada.
Que faz que a não escutem nem lhe acudam?
É preciso é sentir que se está vivo.
É preciso é que as asas que sosseguem
O tenham merecido».


Poucos Poetas se terão sentido assim tão vivos. Sob o seu aspecto de rústico, cheio de bonomia e simplicidade, sem nada ter de um literato, sem atitudes, sem reservas, Sebastião da Gama realizou, involuntariamente, um ideal de franciscanismo – e a sua alma delicadíssima promovia milagres de entendimento e repartia-se, misteriosamente grande, por tudo em que tocava.
A sua ética de Poeta comportava preceitos muito exigentes e muito certos. Cada verso, para ele, era um acto de fé: as suas asas, agora sossegadas, bem se mereceram; simplesmente, sofremos, e muito, porque à nossa amizade nos parece que o sossego chegou cedo demais.
79º ANIVERSÁRIO DO NASCIMENTO DE SEBASTIÃO DA GAMA


No próximo dia 10 de Abril pelas 21h terá lugar no Pólo de Azeitão da Biblioteca Municipal de Setúbal uma sessão comemorativa do 79º aniversário do nascimento de Sebastião da Gama com a inauguração da exposição «Poesia e Pintura da Arrábida» e com o lançamento da 12ª edição do «Diário» de Sebastião da Gama.


O Cais


À Maria Sara



Já o cais não é de pedra,
De tanto sentir o Mar.
Já nãoé, a pedra, lisa:
Já ganha forma de velas
Pandas de vento e de orgulho;
Já deixou de ser branquinha
P’ra ser azul como as águas.


Já o cordame, que sonha
Noite e dia sobre o cais,
O tem o sonho tornado
Em algas prenhes de iodo.
Degraus de pedra se animam
E pelas ondas se atrevem
-botes sem mestre, perdidos,
sem outro leme que o gosto
de ir pelas ondas adentro.


Marujos que nunca o foram,
Assentadinhos no cais
Desde a hora de nascer,
Quem foi que disse que tinham
Raízes naquelas pedras?
Já lhes despontam nas costas,
Já por ares e mares os levam
Asas leves de gaivota.


Cada traineira que passa
Convida o cais a sair.
Já o cais não é de pedra.
- : O sal moldou-lhe uma quilha,
As ondas o encurvaram,
Os limos o arrastaram
P’ra lá de todo o limite
E o cais cedeu ao convite
Se ser um barco sem mestre.


Lá vai perdido nas ondas
E não lhe importa a chegada.
Deitou a bússola ao Mar.
Fez uma estaca do leme
Que atesta o sítio em que foi.
Voltou as costas à terra
E o seu destino cumpriu-se,
Que era partir e mais nada.




Sebastião da Gama
ISOLATE


I'm lost without a chance in hell



Paradise Lost


4.4.03

SAUDADES DE BERNA


Onde jamais reencontrar
a submissa ambiência suíça?
Onde outra vez reencontrar
a insuíça voz insubmissa?



João Cabral de Melo Neto,
«Museu de Tudo»




EPÍLOGO


Não há servilismo na voz de Langston Hughes, pelo contrário, nota-se uma firmeza paciente no homem que obedece quando o mandam comer na cozinha, uma confiança lúcida no Amanhã, um Amanhã assente na adversidade do Hoje em que o irmão mais escuro serenamente fortalece corpo e alma porque sabe que chegará o dia em que se sentará à mesa.
É uma voz tranquila e tranquilizadora, não transpira ódio, mas uma pena pelo adiamento do inadiável.
O também eu implica a inclusão do homem excluído do mapa humano dos Estados Unidos e embora a conquista real de direitos seja colheita futura, a verdade é que Hughes canta a América e é a América no presente, assumindo o cantar e o Ser como direitos já conquistados, é a voz do poeta confundindo-se com a do homem sem interferência da voz a combater, a que aliena.
O poema é o anúncio pacífico de um profeta. Um profeta é um homem com esperança.


Também eu canto a América,

sou o irmão mais escuro.
Mandam-me comer na cozinha
quando têm visitas,
mas eu rio-me,
e como bem,
e fico forte.

Amanhã,
sento-me à mesa
quando tiverem visitas.
Ninguém ousará
dizer-me,
«come na cozinha»,
Então.

Além disso,
verão como sou belo
e terão vergonha, -

Também eu sou a América.





3.4.03

CHOPINESQUE


É pouco conhecida a graça simples da poesia do moçambicano Reinaldo Ferreira.


Oh! taciturno
e esquivo
motivo
todo nocturno...

Polpas macias
de dedos leves
cintados por ametistas,
são organistas
dos meus ditongos
longos
e breves...

Como contraste,
para desgaste
dos sons, veludo sobre cetim,
vogais gritantes,
tamborilantes,
decapitantes,
sons oxidantes
como em clarim...

E o taciturno
e esquivo
motivo
todo nocturno,
sonha a palavra
com arabescos
da sua lavra.

Sonha a palavra,
detesta a frase,
sabe o encanto
do que é só quase.

Por isso tende
- mas não atinge,
porque transcende -
para a imagem
visualizada
duma paisagem
subjectivada
que nos dilata
mas nos compreende,
onde gravitam
coisas errantes,
em translações
de percepções
centrifugantes.

E são imensas,
por não sofrerem
nem o tamanho
nem dimensão;
e são intensas.
Porque não passam
duma evasão
das inconsciências
que me contenho.

Tudo incoerências
coisificadas;
rastos de gestos
que nunca foram
mais que iminências
balbuciadas...





NOS ANTÍPODAS


No DN de hoje vi uma fotografia de George Bush pai e o neto Pierce Bush divertidos na abertura da temporada dos Houston Astros contra os Colorado Rockies.
Compreendo-os. Não é uma guerra lá longe que impedirá que a vida decorra como sempre.

Naturalmente que a menina iraquiana ferida, em pé no corredor de um hospital em Bagdad com um olhar que nos interroga, como dizia Carlos Fino na sua reportagem, parecia fixar a sua vida... suspensa.




MARKED TO DIE


If we are marked to die, we are enough to do our country loss; and if to live, the fewer men, the greater share of honour.


William Shakespeare,
«Henry V»




2.4.03

PASTILHA


Será que a pastilha que Deco cuspiu para a relva quando ainda estava no banco no Portugal – Macedónia, já se alojou em alguma desafortunada sola?





QUE RAIO... ?


O Marquês de Sade escreveu algures que Deus era o único equívoco que não podia perdoar à humanidade. Eu pessoalmente tenho alguma dificuldade em perdoar a patetice premeditada camuflada de coragem. Fazia zapping quando dei por mim a ouvir no programa da Sic «Terça em Grande» um convidado a afirmar que respeitava todas as religiões, que, inclusivamente, lhe tinham ensinado quando pequenino umas coisas sobre um certo Jesus, uma certa Maria e um certo burro, mas que, para ele, tudo isso não passava de uma «cagada».

(e eu a pensar para mim que o ilustrativo vocábulo se aplicava ao que acabara de ouvir)





PARAÍSO?


«É fantástico. Ainda há, neste continente, homens que prometem, sem rir, um paraíso na terra. Mas, por definição, o paraíso não pode estar na terra... não é um lugar, é uma dimensão.»


João Aguiar,
«O Homem sem Nome»




DUELO


Eastwood pisa desafiadoramente a bota negra, imaculada do Coronel Mortimer (Lee Van Cleef). Van Cleef responde pisando a bota poeirenta do rival. O mote para as pistolas serem sacadas dos coldres.

O chapéu negro do Coronel no chão e Eastwood a acertar-lhe repetidamente sempre que o outro o tenta apanhar até que o jogo de paciência/demonstração de força é quebrado por um tiro falhado. A oportunidade de Mortimer se mostrar. Uma bala impulsiona o chapéu de Eastwood para o ar. E outra. E outra. E ainda outra. E o chapéu sempre no ar, um bailado que termina com a concordância sem palavra, mas tácita de que a aliança dos opostos seria selada sob aquele céu negro.

O duelo mais original que já vi num western. Sem sangue, sem morte.

«Por mais alguns dólares» de Sergio Leone. Foi ontem, na RTP2.







1.4.03

ACHTUNG


Depois de despedido da CNN, os serviços de Peter Arnett são novamente dispensados, desta feita pela NBC. São dias históricos sem dúvida estes, dias em que assistimos ao colapso gradativo da democracia americana? A liberdade de expressão que os americanos afirmam não existir no Iraque de Saddam Hussein onde as pessoas vivem na sombra do medo e debaixo da bota do regime (expressão muito usada nos últimos dias nos briefings militares), marco primeiro de qualquer democracia que se preze, afinal parece também não proliferar por terras do Tio Sam. Como diz Clarice Starling a Hannibal Lecter em «O Silêncio dos Inocentes», era interessante que tal poder de percepção face aos outros, fosse apontado para si mesmo, ou por outras palavras, não era má ideia se olhasse para o seu umbigo. Uma guerra preventiva, partindo de si e a si dirigida, contra a crescente intolerância das autoridades americanas quando contrariada uma causa que se quer nacional? Será que a tal percepção só é possível à distância ou Hannibal Lecter reflecte mudo por um momento num claro reconhecimento (vertiginoso decerto) da sua monstruosidade?






31.3.03

OS MORTOS DE SOBRECASACA


A Lídia, leitora do Timewatching, demonstrou na janela Indiscreta a sua satisfação por aqui ter visto Carlos Drummond de Andrade, por isso mesmo aqui fica mais um brilhante exemplo da poesia de Drummond:


Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,
alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,
em que todos se debruçavam
na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca.
Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes
e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.
Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava
que rebentava daquelas páginas.
HELLO



É como se o eco fantasmagórico Is there anybody out there? dos Pink Floyd ressoasse através daquele HELLO que Jim, em «28 Dias Depois» de Danny Boyle, grita pelos corredores de um hospital deserto e pelo deserto das ruas de Londres. Este grito inicialmente de incompreensão, de pasmo e logo em seguida mais próximo de um registo de desespero, sofre, pelo menos, duas variações ao longo do filme: na barraca de cheeseburgers e no final não verbalizado mas imagético.
Jim entra na barraca e encontra uma família morta. O seu HELLO no instante da decoberta denota a resignação confiante de quem até aí não recebera resposta de uma voz sã, é um HELLO grave, seguro, certo da ausência de vida no meio da putrefacção. Mas alguém sobrevivera e o segredo da perdição (relativa na medida em que tudo se resume a matar ou morrer) de Jim está nesse recontro que acaba, inevitavelmente, na morte do infectado. Por outro lado, a salvação reside na message in the bottle derradeira, o SOS de três naufrágos cercados por mar numa ilha (quase) deserta.
A esperança está nas mulheres como pretendia o militar que os alicia até Manchester com a promessa de salvação? Não. A esperança é uma mulher, um homem e uma adolescente. A união na adversidade.


PROCESS OF GUILT: PORTRAITS OF REGRET


Portraits of regret (Outubro de 2002) é o primeiro trabalho em edição de autor da banda de doom metal, process of guilt. Para além das várias actuações do grupo eborense em diversos pontos do país, vale a pena salientar que foi considerado a demo do mês por uma revista da especialidade cujo nome agora me escapa (desculpa Nuno!). O grafismo do álbum é lindíssimo e da autoria dos próprios que passo a apresentar: Hugo Santos, Nuno David, Gonçalo Correia e Custódio Rato. Os process têm concerto agendado no Bar ADN em Setúbal para o próximo dia 1 de Maio. Para mais informações: process_of_guilt@hotmail.com

Um excerto da letra de «departure»:

And everyday I live
It’s just the same
Pain
Watching this
Departure of me

30.3.03

SOL DE VIDRO


Letárgico batia
Este humedecido sol de vidro,
Desnudando a fraqueza
Com a sua respiração escassa.


A nitidez ressoava distante,
Agitava-se num confim
De invisibilidade,
Decidindo em concílio secreto
O alvoroço tangencial da luz.


Arrastadas as trevas pela neblina,
Buliçosa e precoce
Nos pensamentos como no juízo,
Importunava palavras
(apenas palavras)
Com jogos de crédulos
Dissimulando os azuis evidentes
Da manhã cingida
De metamorfoses consecutivas
Até restarem apenas riachos escondidos,
Fontes cobertas de silvas –
A ressurreição da tepidez madura dos dias.


Inútil plantar roseiras.
Os olhos distinguem os espinhos somente.


Um nevoeiro entardecido,
Velho,
Cansado,
Subtrai-se à visão das paredes
E é ouvido pelas pedras.

29.3.03

NO HARD FEELINGS, GOD BLESS


Luís Castro, jornalista da RTP, relatou ontem no Telejornal a «humilhação», nas palavras do próprio, a que foi sujeito (juntamente com o repórte de imagem Vítor Silva) pela polícia militar americana no Iraque. Passados os 3 dias de inexplicável cativeiro acompanhado de uma situação de violência física, os portugueses são libertados com duas expressões características daqueles que, sem escrúpulos, pretendem desculpar tudo o que constitua dano colateral nesta guerra: No hard feelings, God bless.
É típico. A agressão, o pálido reconhecimento do erro e a cândida esperança de que não haja ressentimentos.

«Desculpa lá se te pusemos a bota na nuca, se te pontapeámos nas costelas, se não te deixámos dizer à família que estavas vivo, mas hey! Não somos soldadinhos de chumbo, estamos em guerra e quem vai à guerra dá e leva.»

«Civis iraquianos, não nos levem a mal se as bombas vos matam a vós e não aos vossos líderes, é caro o preço da liberdade (mesmo que depois cá não estejam para dela usufruir).»

O «God bless» é ainda mais pacóvio, mas este hábito das elites americanas de colocar sempre Deus ao barulho, bem como os seus congéneres árabes, nada tem de surpreendente. Deus tudo legitima, é uma espécie de «e não se fala mais no assunto», um divino selo de garantia se dúvidas ainda restassem quanto às boas intenções dos terreais salvadores da nação iraquiana.

«Vai na paz do Senhor e não me voltes a aparecer à frente!»

«Coitadinhos, são tão pobrezinhos e oprimidos, mas nós viemos ajudar-vos a ser riquinhos e livres e se Deus quiser (e nós deixarmos...) conhecerão e aceitarão a nossa imaculada moral que será acolhida pelos vossos encéfalos tolhidos por anos de ditadura, que Deus vos abençoe!»

Fundamentar a violência é já por si infundamentado, mas fazê-lo com palavras ocas é dar razão (e eu dou-a!) ao sábio Neil Hannon quando diz: «words said without feeling, never to heaven go». Há sempre uma promessa de repetição belicista num no hard feelings ou num God bless. É assustadora a naturalidade com que aquilo lhes sai. É mecânico. A impunidade confere a ilusão do poder ilimitado.
É esta a democracia que querem implementar no Iraque?
A LÓGICA DOS HOMENS


... a lógica dos homens, em vez de compensar a sua imbecilidade, duplica-a, triplica-a e torna-a ofensiva.


Javier Marías,
«Todas as Almas»

CERCADOS


A não muitos dias de sabermos que as tropas aliadas estão às portas de Bagdad, é pertinente ver «Cercados» de Ridley Scott, uma obra que ficou um tanto esquecida entre «Hannibal» e «Gladiator», mas cujo conteúdo não pode deixar de nos transportar para o actual momento de guerra no Iraque. Estabelecer-se um paralelo entre Bagdad e Mogadíscio é inevitável.

Quem cercará quem?

27.3.03

TIRANIA: UMA PERSPECTIVA


Neste curto mas elucidativo diálogo entres duas personagens do filme «Kafka», emerge uma perspectiva da tirania, uma teoria que qualquer tirano que se preze bem conhece e aplica como os do passado assimilaram e puseram em prática.


Doctor Murnau: A crowd is easier to control than an individual. A crowd has a common purpose. The purpose of the individual is always in question.

Kafka: That’s what you’re trying to eliminate, isn’t it? Everything that makes one human being different from another. But you’ll never reach a man’s soul through a lens.

Doctor Murnau: That rather depends on which end of the microscope you’re on, doesn’t it?


Saddam e Bush são alunos aplicados desta cartilha.
Estão do mesmo lado do microscópio. A lógica é a mesma.
DELICATESSEN


Vi anteontem pela primeira vez «Delicatessen», filme realizado pela dupla Jeunet e Caro. O mundo retratado é um misto de realidade e ficção, começando pelo edifício onde as personagens habitam e que é o único que resta entre os escombros de todos os outros que já haviam existido e acabando na caça ao alimento que comanda cada impulso cerebral dos inquilinos do talhante. O talhante. O típico homem egoísta que reúne uma diminuta corte de gente obediente porque esfomeada controlada com o mero cintilar do famigerado cutelo que cada novo ajudante acaba por sentir como o instrumento do talento do carrasco. Canibais. Por imposição das circunstâncias esquecem a sua condição humana, embora amem, procurem a morte, vejam televisão, limpem a casa, durmam, sejam dóceis ou violentos como acontece com os humanos. Mundo subterrâneo. Nos esgotos vivem os trogloditas, homens que renunciaram à corrupção do upper world , são os lúcidos dados como loucos. Devorar. Até hoje a barriga dos canibais não pára de crescer. Até um dia rebentar.
FROZEN JEWS



Já aqui falei de Avrom Sützkever, um dos maiores poetas Yidish, lituano de nascimento, sobrevivente do holocausto nazi.
Porque os inocentes continuam a morrer, deixo-vos um poema de Sützkever traduzido do yidish e por mim encontrado há um par de horas.

Have you seen, in fields of snow, frozen Jews, row on row?
Blue marble forms lying, not breathing, not dying.
Somewhere a flicker of a frozen soul - glint of fish in an icy swell.
All brood. Speech and silence are one. Night snow encases the sun.
A smile glows immobile from a rose lip's chill.
Baby and mother, side by side. Odd that her nipple's dried.


Fist, fixed in ice, of a naked old man: the power's undone in his hand.
I've sampled death in all guises. Nothing surprises.
Yet a frost in July in this heat - a crazy assault in the street.
I and blue carrion, face to face. Frozen Jews in a snowy space.
Marble shrouds my skin. Words ebb. Light grows thin.
I'm frozen, I'm rooted in place like the naked old man enfeebled by ice.




TEMPESTADE DE AREIA


Um dos convidados de Mário Crespo ontem na SicNotícias foi o meteorologista Anthímio de Azevedo, ali presente para, dentro do possível, explicar o porquê de uma tempestade de areia num deserto… claro, de repente tornou-se imprescindível averiguar as formas misteriosas de actuação da natureza, até que ponto pode esta invulgaridade (!) interferir no «Objectivo: Bagdad». Por entre tecnicismos indecifráveis que o nosso especialista português em tempestades de areia no Iraque proferiu (após 5 minutos de um discurso algo ininteligível ou, pelo menos, pouco simples, apressou-se o nosso entendido na matéria a ressalvar que o seu conhecimento não era o de um Lawrence da Arábia) apercebi-me do conteúdo da sua teoria que me pareceu, confesso, algo desajeitada (a teoria da relatividade também deve ter parecido desajeitada a muito boa gente e, no entanto, é, nada mais nada menos do que a teoria da relatividade!). Anthímio de Azevedo crê, apesar de não ser um Lawrence of Arabia, que as bombas que desde o início da ofensiva aliada têm caído em Bagdad seguidas das ondas de calor que, obviamente, despoletam, contribuíram para a violenta tempestade de areia registada na região. Desconheço a base científica para a elaboração deste enredo, mas não é suposto ser normal uma tempestade de areia num deserto?

26.3.03

O SORRISO DEPOIS DA PROMESSA


: )
OPINAR OU NÃO OPINAR, EIS A QUESTÃO


Bem sei que ter opinião e manifestá-la é um exercício que se impõe, mas não só porque agora fomos arrastados para uma guerra (?) suja e pessoal da dinastia Bush... hesito em expô-la aqui porque não conheço quem me lê... prometo que me esforçarei por fazê-lo, apesar desses rostos incógnitos que se fixam de quando em vez por aqui.

Aguardem...

25.3.03

RICHARD CORY


Quando Richard Cory ia à cidade,
As pessoas na calçada se voltavam para ele;
Era, da cabeça aos pés, um cavalheiro,
Os traços nítidos, senhorialmente esbelto.

Sabia vestir-se, mas sem afectação,
Quando falava era sempre muito humano;
Todavia, o coração acelerava-se ao ouvi-lo dizer “Bom dia!”
E ao andar dir-se-ia que tinha uma auréola.

Era rico, sim, mais rico do que um rei
E admiravelmente destro em todas as artes;
Nós, enfim, não nos cansávamos de supor
Que estar no seu lugar seria mais do que um sonho.

E assim trabalhávamos, aspirando à luz,
A maldizer o pão, vivendo quase à míngua;
E, numa calma noite de estio, Richard Cory
Foi para casa e estourou os miolos.



Edwin Arlington Robinson
«O FÍSICO PRODIGIOSO» DE JORGE DE SENA


Como o próprio autor confessa nas notas finais que acompanham a minha edição de “O Físico Prodigioso”, a novela baseou-se em dois “exemplos” do “Orto do Esposo”, livro moralístico-religioso da primeira metade do século XV: o do homem com poderes mágicos de cura através do seu sangue virgem, e o do homem que não conseguiam enforcar porque o diabo o levantava no ar.
Trata-se de um “conto” de imortalidade e de invisibilidade asseguradas pela posse de um barrete mágico e pela presença protectora do próprio diabo que retira prazer da mera observação das movimentações humanas (mas sempre com o seu quê de “maravilha”; e utilizo aqui a palavra maravilha no sentido com que a encontramos nos livros de cavalaria – acontecimento inverosímil) do protagonista cujo nome é por ele mesmo considerado acessório e assim ocultado.
Contudo, a contemplação do físico pelo diabo tem o seu custo: a alma vazada do jovem inicia-se na agonia de tudo ter. Desta forma, uma “rebelião” interior irrompe e interrompe a até então intocável plenitude de imortal de que gozava. É assim o seu zelo e não um diabo insatisfeito que o arrasta para um calabouço da inquisição onde permanecerá longos anos perdendo o viço que o caracterizara, mas transmitindo-o a outros por meio de uma obra de contaminação digna do seu patrono. Curioso é que o diabo, apesar da degradação física do seu protegido, não cessa de o amar salvando-o, inclusivamente, da provação última, a morte.
É uma novela que julgo “recuperar” o conceito de “aventura” tal qual exposto nos seus contornos essenciais nos livros de cavalaria. O absurdo, a tentação, a linha ténue que por vezes demarca o mal do bem, surgem no caminho do donzel apresentado sob uma luz aqui e ali semelhante à que ilumina um Galaaz, mas com uma diferença fundamental: Galaaz, o herói casto da “Demanda do Santo Graal”, serve Deus; o físico prodigioso é um escolhido do demónio (e assume várias formas ao longo do livro, identificando-se no entanto sempre pela referência à audição súbita de um “riso casquinado”). Ambos prisioneiros, embora de forças antagónicas.


24.3.03

SCIENCE FICTION


O marciano encontrou-me na rua e teve
Medo da minha impossibilidade humana.
Como pode existir, pensou consigo, um ser
Que no existir põe tamanha anulação da
Existência?



Carlos Drummond de Andrade

15.3.03

HOJE


É espreitar o post da Cristina Fernandes acompanhado de uma fotografia de Truman Capote por Henri Cartier-Bresson na Janela Indiscreta.


«Ouve-me, Buddy», lia numa novela
de Truman Capote: «só existe
um pecado imperdoável.
A crueldade premeditada»
THE UNKNOWN CITIZEN





(To JS/07 M 378
this marble monument
is erected by the state)


He was found by the Bureau of statistics to be
One against whom there was no official complaint,
And all the reports on his conduct agree
That, in the modern sense of an old-fashioned word, he was a saint,
For in everything he did he served the Greater community.
Except for the war till the day he retired
He worked in a factory and never got fired,
But satisfied his employers, Fudge Motors inc.
Yet he wasn’t a scab or odd in his views,
For his union reports that he paid his dues,
(our report on his union shows it was sound)
and our social psychology workers found
that he was popular with his mates and liked a drink.
The press are convinced that he bought a paper every day
And that his reactions to advertisements were normal in every way.
Policies taken out in his name prove that he was fully insured,
And his health-card shows he was once in a hospital but left it cured.
Both producers research and high-grade living declare
He was fully sensible to the advantages of the Instalment plan
And had everything necessary to the modern man,
A phonograph, a radio, a car and a frigidaire.
Our researchers into Public opinion are content
That he held the proper opinions for the time of the year;
When there was peace, he was for peace: when there was war, he went.
He was married and added five children to the population,
Which our eugenist says was the right number for a parent of his generation.
And our teachers report that he never interfered with their education.
Was he free? Was he happy? The question is absurd:
Had anything been wrong, we should certainly have heard.



W. H. Auden

14.3.03

«ESTAÇÕES DIFERENTES» DE STEPHEN KING


São conhecidas as frutuosas ligações mantidas entre Stephen King e o cinema, visíveis nas numerosas adaptações de algumas obras do autor norte – americano para o grande ecrã. E, para quem acredita que uma ida ao cinema não tem necessariamente de se esgotar no “The End” que com pena ou alívio vemos surgir na tela, King acaba por se transformar num autor de leitura incontornável sendo-o, aliás, desde a sua auspiciosa estreia como romancista com «Carrie» transposta para o cinema pelo realizador Brian de Palma, convertendo o título primeiro da sua já vasta produção num clássico da literatura e do cinema fantásticos.
«Estações Diferentes» rege-se pelo signo da violência e da morte (por vezes do horror – e não tanto do terror – tão recorrente na obra de Stephen King), mas também da redenção e da regeneração apesar de, em última análise, o carácter outonal do humano prevalecer e imperar o desencanto de um tempo perdido, irrecuperável. Todos somos anjos em queda e a primavera é somente o prenúncio do amarelecimento deteriorante (mas não isento de beleza) da vida. Quatro novelas (como o próprio autor as apelida) se distribuem pelas mais de quinhentas páginas do livro: «Os Condenados de Shawshank», «Aluno Dotado», «O Corpo» e «A Técnica de Respiração», cada uma correspondendo a uma estação do ano e às suas supostas implicações psíquicas.
King dificilmente se afasta do sobrenatural, no entanto, nas quatro novelas que compõem esta obra, apenas uma se reporta a um facto verdadeiramente implausível e, por isso mesmo, pertencente a essa “twilight zone” em que King sempre acaba por enredar os seus leitores. Falo de “A Técnica de Respiração”, o último dos textos, em que uma mulher grávida sofre um acidente de viação à porta do hospital onde iria dar à luz, sendo decapitada como resultado do violento impacto; contudo, quando seria de esperar a morte instantânea da mulher, aquilo a que incrédulos “assistimos” (quase como personagens da novela, como testemunhas que rodeiam o corpo incompleto da vítima) é à resistência respiratória da mulher para que o filho possa nascer como, na verdade, acaba por suceder morrendo a mãe de seguida. Aqui é criada uma dimensão marginal para contar o estranho caso narrado pelo médico que estivera presente, mas nos anteriores textos contidos na obra a dimensão é “terreal”, histórias possíveis embora sempre apimentadas por circunstâncias extra – ordinárias que, sem dúvida, ultrapassam o natural, mas cuja substância se detém sempre num inusitado universo provável. Senão vejamos: em “Os Condenados de Shawshank” a paciência e inteligência de um homem inocente acabam por resultar na sua fuga da prisão intransponível onde supostamente deveria morrer; em “Aluno Dotado”, um jovem americano descobre que um dos seus vizinhos é um antigo comandante de um campo de concentração nazi, estabelecendo-se uma relação de ódio e cumplicidade entre o caçador e a presa de contornos assustadores; por fim em “O Corpo”, um grupo de amigos enceta uma viagem em busca do corpo de um rapaz dado como desaparecido, este último particularmente divertido e comovente e, já agora, o meu preferido.




TODAY


Recomendo a leitura das considerações que Pedro Mexia faz na Coluna Infame a respeito do filme «O Futuro Radioso» de Atom Egoyan.


...os mortos reais e os mortos metafóricos são um só diagnóstico de um presente nada radioso.

13.3.03

ED GEIN


Por supostamente ter inspirado a criação dos assassinos de «O Silêncio dos Inocentes» e de «Psycho», quis conhecer (salvo seja!) Ed Gein, o pacato lavrador de Plainfield que em 1957 matou duas mulheres da pequena localidade no Wiscousin com rituais post-mortem inacreditáveis. Acirrado pela memória de uma mãe doentiamente religiosa e castradora, Gein decide punir as «meretrizes» (na linguagem bíblica que desde cedo lhe é incutida) que se lhe atravessam no caminho, guardando como «troféus» partes dos seus corpos. Poupo-me a mais pormenores. Não há subtileza nesta biografia de assassino porque Gein era tudo menos subtil: um homenzinho insignificante com uma desusada obsessão pela mãe que mata sem fazer um grande esforço para o ocultar. Tomavam-no por um simples ou um tímido e como tal era tolerado.
Buffalo Bill e Norman Bates, a ficção, supera a realidade.
FRAGILE


Convém que não nos esqueçamos...


If blood will flow when flesh and steel are one
Drying in the colour of the evening sun
Tomorrow’s rain will wash the stains away
But something in our minds will always stay

Perhaps this final act was meant
To clinch a lifetime’s argument
That nothing comes from violence and nothing ever could
For all those born beneath an angry star
Lest we forget how fragile we are

On and the rain will fall
Like tears from a star, like tears from a star
On and on the rain will say
How fragile we are, how fragile we are



Sting
HOJE ACONSELHO...


... uma passagem pela breve reflexão sobre «A streetcar named desire» de Elia Kazan em freira dadaísta.

É, então, um enredo sobre e do sentir, da vida, sobre o que importa, porque é lá que está o choque, a unificação e o brilho-poeira de quem, realmente, andou por aí.

12.3.03

«A LENTIDÃO» DE MILAN KUNDERA


A degustação do tempo. A sua recusa como passagem transversal de vacuidade. A sua aceitação enquanto usufruto de uma totalidade hedonística.
Aqui a vida é composta por generosas movimentações xadrezísticas, cerebrais e emocionais, abstractas e concretas, e é nesse tabuleiro pleno de ressaltos espaciais e temporais que as personagens díspares, incoerentes e profundamente humanas de Kundera se deslocam sem nunca na verdade se deslocarem.
Existências longínquas entrecruzam-se sem nunca se cruzarem numa real conjugação de experiências menores ou maiores. E é nesta estaticidade que também é uma circularidade que reside a génese da obra... os tempos e os espaços apenas se tocam, apenas se reconhecem e saúdam graças à lentidão, esse conceito abstracto que parece um rotundo nada, mas que se prolonga em reticências múltiplas até desembocar no concretismo absoluto e talvez por isso mesmo, absurdo.
As “peças” humanas estão dispostas numa ordem imperceptível, aleatória, mas lógica e apenas os sentidos desbaratados pelos desafios emotivos proporcionados pelo jogo constante, calculado ou instintivo, que as personagens entre si ou dentro de si e contra si próprias disputam, as fará compreender e assimilar, ainda que casual e inconscientemente, a “matemática existencial”, feita de rectas e curvas e equações e adições e subtrações e muita, muita incerteza. Vejamos o que o narrador nos diz a este respeito: “..., esta experiência assume a forma de duas equações elementares: o grau da lentidão é directamente proporcional à intensidade da memória; o grau de velocidade é directamente proporcional à intensidade do esquecimento.”.
E é a memória de um acontecimento com dois séculos que reúne dois homens marcados por um “rendez-vous” único, irrepetível, logo seguido de desencontro amoroso, da amargura do dia seguinte. O inverosímil encontro dos dois homens pertencentes a épocas distintas, levanta o véu do significado da enigmática lentidão que mais não é, afinal, do que a permanência dos afectos no seu imortal cultivo. A lentidão é plural e solidifica-se em raízes inquebrantáveis de velhas árvores seculares.
A UM NARIZ GRANDE


E o segundo:


Hoje espero, nariz, de te assoar,
Se para te chegar a mão me dás.
Ainda que impossível se me faz
Chegar a tanto eu como assoar-te,
Porque é chegar às nuvens o chegar-te.
Das musas a que for mais nariguda
Manda-lhe que me acuda,
Que se a fonte
De Pégaso é verdade está no monte,
O mais alto de todos em ti está,
Porque monte tão alto não no há.

Falta o saber, nariz, para o louvor
De que és merecedor.
Que hei-de dizer?
Para espantares tu hão-te de ver,
Porque nunca se pode dizer tanto
Que faça como tu tão grande espanto.
És tão grande, nariz, que há opiniões,
E prova-o com razões
Certo moderno,
Que em comprimento és, nariz, eterno,
Porque ainda que princípio te soubemos,
Notícia de teu fim nunca tivemos.

Cuido que sem narizes, por mostrar
Seu poder em acabar,
Sua grandeza,
Deixou gente sem conto a natureza
Que assoas, Gabriel, quando te assoas,
Os narizes de mais de mil pessoas.

Aos mais narizes dás o ser que tem,
Nariz, e daqui vem
Que os nossos são
Os narizes em que há mor perfeição;
Que se os negros os tem esborrachados,
É porque estão em ti mais apartados.
Dos narizes todos é sabido
Terem um só sentido,
E é assi;
Mas em ti, como corpo de per si,
Cinco sentidos há que, em conclusão,
És nariz que tem uso de razão.

E ainda que espante tanto nesta idade
Que por monstruosidade
Sejas tido,
Nariz, a muita gente tenho ouvido
Que ainda hás-de espantar mais na que há-de vir,
Porque ainda há muito em ti por descobrir.

Vai-te, canção, e diz a este nariz
Que eu sou o que te fiz.
E para lho dizeres
Daqui donde estás podes, se quiseres;
Não tens necessidade de abalar-te,
Porque este nariz está em toda a parte.



D. Tomás de Noronha
A UMA MULHER QUE SENDO VELHA SE ENFEITAVA


A mestria do barroco literário português em dois poemas de D. Tomás de Noronha, aqui vai o primeiro:


Escuta, ó Sara, pois te falta espelho
Para ver tuas faltas,
Não quero que te falte meu conselho
Em presunções tão altas;
Lembro-te só agora que és terra e lodo
E em terra hás de tornar-te deste modo;
Mas não te digo, nem te lembro nada,
Porque há muito que em terra estás tornada.

Que importa que algum tempo a prata pura
De tuas mãos nacesse,
E que de teus cabelos a espessura
As minas de ouro desse,
Se o tempo vil, que tudo troca e muda,
Somente de ouro pôs por mais ajuda
Em tuas mãos de prata o amarelo,
E a prata de tuas mãos em teu cabelo.

Se um tempo foram de marfim brunido
No século dourado,
Não vês que o tempo as tem já consumido?
Não vês que as tem gastado?
Deixa, Senhora, deixa os vãos enredos,
Pois quando toco teus nodosos dedos
Me parece que apalpo sem enganos
Cinco cordões de frades franciscanos.

Viciando a natureza com tuas tintas,
Com pincéis delicados
Jasmins e rosas em teu rosto pintas;
Deixa esses vãos cuidados,
Que quanto mais tua cara se alvorota,
Máscara me pareces de chacota;
E se sem tintas, cuido neste passo
Que esta máscara está em calhamaço.

Como pretendes pois com mil enganos
Vestir mil primaveras,
Se passou a primavera de teus anos?
Como não desesperas,
Se o tempo te pôs já no inverno frio
Adonde toda a fruta perde o brio,
Parecendo teu rosto, e porque enfada,
Fruta que se secou, noz arrogada?

Se feitura de Deus Eva não fora,
Dissera sem porfias
Que de Eva foste mãe, velha Senhora,
Pois te sobejam os dias
Para esta presunção, que agora tenho;
E concluindo enfim, a alcançar venho,
Pois alcançar não posso a tua idade,
Que deves de ser mãe da eternidade.

Parece que teus olhos, por consciência,
A idade os tem metidos
Em duas lapas fazendo penitência;
E estão tão escondidos,
Que quando os vou buscar, porque me choram,
Não acerto com o beco donde moram,
Porque o tempo os mudou seu passo e passo
Da flor do rosto lá para o cachaço.

Se a meus olhos despida te ofereces,
Minha alma logo pasma,
E estítica nos ossos me pareces,
Ou quando não fantasma;
E assim, senhora, se te vejo em osso,
Com essa cara posta em tal pescoço,
Me pareces, tirada a cabeleira,
Em cima de um bordão uma caveira.

Como ainda queres em desatinos
Dar a meninos mama,
Se já contigo desmamei meninos?
Deixa esse torpe fama,

Sabe que sei (e disto não me gabo)
Que te alugou sem dúvida o diabo,
Invejando teu corpo, cara e dedos,
Para fazer a Santo Antão os medos.

Deixa Senhora, deixa o vão cuidado,
A sagrado te acolhe,
Primeiro que te ponham em sagrado;
Este conselho escolhe,
Admite o que te digo sem desgosto,
Que eu quando vejo teu funesto rosto
Já também dele o seu conselho tomo,
Porque mudo me diz Memento homo.



D. Tomás de Noronha
( ? – 1651)
OBRIGADO


Pela referência ao Timewatching no Blog de Esquerda, em umblogsobrekleist e no Espigas ao Vento, aqui fica o meu agradecimento.
GANGS DE NOVA IORQUE


A história para lá da História é relativamente banal: um filho que quer vingar a morte do pai. Por outro lado, a História ou o momento histórico no qual as personagens se movimentam e do qual fazem parte, assume o interesse que as coisas pouco conhecidas sempre apresentam.
Selva urbana será, porventura, a expressão que melhor caracterizará uma cidade anárquica onde impera a lei do mais forte ou talvez não tanto do mais forte, mas do mais intimidante. E quem, senão um homem com o apelido de butcher para instigar o medo em «Five Points» (apesar de ele próprio admitir que o motivo da sua longevidade como soberano do bairro é o medo)? e temos um Daniel Day-Lewis espantoso na pele de Bill Cutting, o pseudo-guerreiro, o cruzado da pureza étnica dos nativos americanos (como se tal fosse possível!). Mas não será este «patriotismo» de Cutting um pretexto para o que na realidade e acima de tudo o move, a detenção do poder? No entanto, é um homem que arranca o próprio olho que não conseguiu encarar o inimigo que o poupou…
A batalha entre gangs rivais no início da película é memorável, bem como aquele afastamento progressivo do campo de batalha com um triângulo tingido de sangue no meio da cidade coberta de neve.

O SONHO É UM JOGO


O sonho é um jogo que monopolizo em meu benefício com a participação por mim manipulada de terceiros.
Quando se torna difícil adormecer, tento forçar um sonho com um tema e personagens que se incorporem na minha intenção, no meu anárquico apetite do momento.
Acontece por vezes esse pequeno mundo ruir antes de respirar, adormeço no cansaço que a criação exige e, como uma intacta cidade-fantasma, o sonho edificado mas não “vivido” é adiado para uma outra noite de insónia.



Fernando Félix

11.3.03

HÁ PALAVRAS QUE NOS BEIJAM


Há palavras que nos beijam
como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
de imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
quando a noite perde o rosto;
palavras que se recusam
aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
entre palavras sem cor,
esperadas inesperadas
como a poesia ou o amor.

(o nome de quem se ama
letra a letra revelado
no mármore distraído
no papel abandonado)

Palavras que nos transportam
aonde a noite é mais forte,
ao silêncio dos amantes
abraçados contra a morte.



Alexandre O'Neill
TRAINSPOTTING


Haverá rebeldia sem causa? Mesmo no mítico filme de Nicholas Ray interpretado pelo rebelde por excelência, James Dean, se torna evidente que a pose rebelde não é um acaso e esconde sempre uma motivação por mais obscura ou coberta que se encontre pela densa cortina do grande teatro do mundo.
Um modelo de sociedade esgotado aos olhos de uma juventude para a qual a esperança é utopia, à qual a expectativa legítima num sonho de futuro é negada no que é entendido como uma espoliação, um saque, um acto de pirataria social e humana pode, para começar, constituir-se como soberana causa para comportamentos marginais, desafiadores da ordem instituída, ordem essa gasta por excessivas circunscrições morais nascentes de um novo cinzentismo europeu, versão anos 90. As jovens personagens de “Trainspotting” criam ficções individuais dependentes da dependência de substâncias químicas e entram “alegremente” no mercado dos sonhos possíveis, voláteis como a sua própria existência de repetido risco, ilusórios como qualquer alienação provocada e, sobretudo, não compatível com o estado que buscam por meio da experimentação sem franjas inovadoras porque o caminho que escolhem percorrer (e é uma questão de escolha escolher não escolher a vida) é redundante dentro dos padrões de rebeldia na medida em que já havia sido mil vezes calcorreado por outros tantos rebeldes repletos de causas e razões. Não confundamos porém causas e razões com validação elementar de atitudes: Edimburgo, a Escócia, o Reino Unido, a Europa, repelem a transgressão, vêm nela uma doença sem causa aparente.
A droga é a garantia de uma pacífica “after-life” momentânea, tal como o seria a vitamina C caso fosse ilegal. Um tédio quase baudelairiano parece igualmente reger esta geração de excluídos na noite do além-sonho. Os punks compraziam-se na manifestação ostensiva da sua ostensiva diferença, estes filhos de hippies retardatários ou de hippies convertidos ao facilitismo material, pelo contrário, albergam-se, barricam-se na noite claustrofóbica, em apartamentos bafientos, discotecas e bares onde a ilegalidade é a lei. Réplicas de almas nobres dançando ao som da liberdade reinventada segundo os mesmos moldes de sempre, encontram somente o novelo labiríntico do cansaço, da exaustão, apenas dinâmicas no linguajar primordial e tão honesto que confere acção ao que apenas são palavras. Não é fácil ser a reprodução de uma reprodução de uma reprodução... ad aeternum.




3.3.03

AO LARGO


Ao largo da costa
Tudo fazia sentido.

Ter os pés em terra,
Era tê-los descalços,
Feridos pela dura c o n s t â n c i a
De não saber onde ficava a terra do sentido.

E se a terra do sentido fosse o mar?

Os pinheiros
Lançam o subtil aceno de terra
E embora sejam minúsculas silhuetas,
Etéreas copas de céu,
Prendem as rugas
Do céu que tocam.

1.3.03

LEITURAS


Site no qual colaboro dedicado ao resumo e recensão de livros, aberto à participação de todos os leitores em: http://leituras.no.sapo.pt
DAMAS


Jogo perverso.
Aconselham-me a jogar e não pensar.
Eu penso e não jogo.
TRÊS, DOIS, UM


Fernando Félix, leitor recente deste também recente blog, envia-me este pequeno texto que não resisto a publicar:


1. Crivar o mundo de esquinas que, uma vez dobradas, mostrem portas semi-abertas à espera da mão que as empurre.

2. Ultrapassar umbrais e ultrapassar o medo do escuro.

3. Descer escadas com os pés prestes a resvalarem para o fundo, sentir o vazio no estômago e retomar a segurança do corrimão.



Asseguras-me que se trata da contagem para a tua "sobrevivência", "numerada mas sem ordem definida".
Eu reduziria os teus três items a apenas uma palavra, mas não me apetece dizer qual...

28.2.03

THE SHINING


Revi-o. Pela décima vez? anda por aí...

A edição que existe em DVD e que faz parte da colecção Kubrick só tem um defeito (e julgo que os apreciadores do filme concordarão comigo): os extras sabem a pouco. Contudo, o curto "making of" de Vivian Kubrick dá todo o relevo à figura de Jack Nicholson, recomenda-se.


O COMPANHEIRO SECRETO


E subitamente senti-me muito feliz pela grande segurança do mar, quando comparada com a inquietação de terra firme, por ter escolhido essa vida sem tentações e que não apresentava problemas perturbadores, dotada de uma certa beleza moral pela absoluta clareza do seu apelo e pela singeleza dos seus propósitos.


Joseph Conrad,
“O Companheiro Secreto”

27.2.03

FRAGMENTOS


Recomendo uma audição do trabalho "Mais... uma vez" da promissora banda de Guimarães Fragmentos.
Porque é que não ouço falar deles?

21.2.03

BREVE BIOGRAFIA DE VAN GOGH


Agride e esculpe o malogro.
A narração dos depósitos sequenciais de memória
Confunde-se com os poços de luz escondida,
Atirada para o fim sem o estreitamento do braço imóvel
Ou o envelhecimento da identidade,
Agora improvisada.
A lógica não tem representação pictórica,
Por isso o desconhecimento,
A penitente ausência de uma denunciada vacilação
À tela de mármore.
O testemunho da cadência da cor
Sobreviveu aos ciprestes flamantes
Dos firmamentos circulares.
Os sulcos de tinta,
Aproximam as órbitas de dor
E a moagem chora escombros,
Jardins desertos
E chumbo que,
Antevemos,
Irá desabar no campo de trigo.
SILÊNCIO


Tudo o que quis foi dizer que não valia a pena o massacre das palavras que, fustigadas pelas lágrimas, deixavam de possuir aquele travo salgado sincero e passavam a saber a sal travado e contido e nada despedaçado pela segmentação colorida das sílabas torcidas e espiraladas que soletravam um caminho de pureza. Mas que sabia ela a respeito da pureza? A pureza era um braço sem corpo, trucidado numa chacina distante, num qualquer país sem mapa, nem nevoeiros, nem tão pouco armaduras reluzentes que evocassem uma equívoca glória passada de generais sentados em cavalos, observando a batalha perdida na segurança de uma colina sem flores que chorassem sangue. A pureza coincidia com o horror e como o horror lhe era interdito em vagos dedos espalmados contra lábios fechados, ou em mãos de prece, ou num olhar de repreensão, suficientes para reter o seu impulso de seguir as pedras coloridas que dessem acesso à penumbra da verdade ocultada em enormes casulos impossíveis, rachados, lascados, aguardando apenas a quebra do proibido, acabou por compreender que lhe era exigida a cegueira. E foi então que se esforçou para ser bem sucedida a mutilação que gerações de mutilados clamavam.
AVROM SÜTZKEVER


Soube da existência do poeta lituano Avrom Sützkever através do texto «Shalom, Poeta» de Luis Sepúlveda e dele conheço apenas aquilo que Sepúlveda divulga na sua crónica, alguns dados biográficos e excertos da sua poesia de resistência. Como explicar, por isso, a minha fascinação por Sützkever se acedi apenas a retalhos mínimos da sua obra? Porque o lituano sobreviveu a um monstro a que chamamos inevitabilidade e soube relatar o seu tímido heroísmo pessoal quando o mundo que conhecera desabara à sua volta:

Poderão naufragar barcos em terra?
Eu sinto que debaixo dos meus pés naufragam barcos.


Enquanto cava a sua própria sepultura sob o olhar dos algozes, sucede-lhe partir um verme em dois:

O verme partido em dois faz-se em quatro
Outro corte outra vez e multiplicam-se os quatro
E todos estes seres criados pela minha mão?
Regressa então o sol ao meu humor sombrio
E a esperança dá-me força ao braço:
Se um vermezinho não se rende à enxada
És tu acaso menos que um verme?


Poucas palavras me terão abalado tanto como estas pelo que contêm de humanidade renascida numa humanidade desconcertada.
Sützkever não está traduzido em português, o que não constitui propriamente uma surpresa, mas os fragmentos que existem na nossa língua graças à tradução da obra de Sepúlveda, embora não suficientes, são preciosos exemplos de como o horror pode resultar em poesia, em beleza e em como o Homem se despe de si para reentrar em si, reencontrando-se nos abismos mais inacessíveis da sua condição. O chicote não apaga o Homem.
SORRISO ENIGMÁTICO?


Lá está ela na sua pose eterna com um sorriso que o vidro que a reveste e os turistas de máquinas fotográficas em punho não permitem desvendar. O reflexo dos flashes no vidro e o meu reflexo (e o de mais algumas dezenas de pessoas...) a sobrepôr-se ao rosto tão estudado da Mona Lisa de Da Vinci. Estive lá, rondei a redoma, mas apenas consegui vislumbrar-lhe o sorriso nas reproduções que se vendem dentro do Louvre, nos arredores do Louvre, por toda Paris. Isto sim, o verdadeiro enigma.

20.2.03

ANJOS EM QUEDA


Todos somos anjos em queda e a primavera é somente o prenúncio do amarelecimento deteriorante (mas não isento de beleza) da vida.
A VOZ


Comecei por te dizer que nem sequer tinhas voto na matéria no que respeitava à tua voz porque só eu a ouvia na sua redondez pura, primária, só eu conhecia a verdade do seu som.
A voz própria lateja dentro do próprio como se palavras absurdas fossem lançadas a um recipiente metálico com o intuito único de apreciar o efeito de eco que o Verbo provoca no portador do elemento estranho em que dificilmente nos reconhecemos. A esterilidade do solo é evidente. Não nascerão girassóis na terra grumosa da perplexidade ante o que todos dizem que me pertence. Mas, no reconhecimento amplo dessa voz que me chega do exterior, detecto o seu corpo sensível e sei que a ouço em primeira mão, o meu acesso a ela é pleno. E é tua. A voz. E a minha, para mim, é apenas um projecto de som, um ruído ainda em perspectiva sem grande probabilidade de êxito entre os demais ruídos. Nunca saberei escutá-la como minha.
NAKED


Louise: How did you get here?

Johnny:Well, basically, there was this little dot, right? And the dot went bang and the bang expanded. Energy formed into matter, matter cooled, matter lived, the amoeba to fish, to fish to fowl, to fowl to frog, to frog to mammal, the mammal to monkey, to monkey to man, amo amas amat, quid pro quo, memento mori, ad infinitum, sprinkle on a little bit of grated cheese and leave under the grill ‘till doomsday.


(do filme «Naked» de Mike Leigh)
MUNDO É COMÉDIA


Dez figas para vós, pois com furtado
Consular nome vos chamais Prudência,
Se, fazendo co’o Mundo conferência,
Discursais, revolveis, e eis tudo errado!

Quem vos vir, Apetite, disfarçado,
Digno vos julgará de reverência;
E a vós, Ódio, por homem de consciência,
Vendo-vos tão sesudo e tão pesado.

Dois a dois, três a três e quatro a quatro,
Entram, de flamas tácitas ardendo,
Astutos Paladiões em simples Tróias.

Quem enganas, ó Mundo, em teu teatro?
A mi não, pelo menos, que estou vendo
Dentro do vestuário estas tramóias.



D. Francisco Manuel de Melo



A agudeza certeira da poesia barroca...

19.2.03

BATTLE ROYALE: O FUTURO É AGORA



Forma de combate à indisciplina juvenil no Japão num futuro não muito distante: seleccionar uma turma de adolescentes de 15 anos todos os anos, raptá-los, reuni-los, informá-los de que estão numa ilha deserta sem fuga possível e que, ao fim de três dias, apenas um pode restar, caso contrário o colar que todos têm preso ao pescoço explodirá. Único saída para cumprir o objectivo imposto: matarem-se uns aos outros.
Trata-se de um filme inspirado na cultura dos jogos de computador, sendo que é assumida uma postura crítica ao actual momento da sociedade japonesa (e o paralelo com outras sociedades ditas civilizadas é inevitável…) profundamente sarcástica. A tragédia, o sangue provocam o riso no espectador… e quando é conseguido este efeito (claramente desejado pelo realizador) que nos resta senão interrogarmo-nos (e aqui peço emprestado o título do poema de D. Francisco Manuel de Melo): O mundo é comédia?
ACORDEI COM A CASA A ESTREMECER



Acordei com a casa a estremecer, a ondular como se o mar a tivesse tragado e já à deriva flutuasse, improvável jangada de betão cedendo à violência das águas argilosas, solo vacilante mas sólido, bíblico, incerto.
Acordei e a minha esperança, a minha egoísta esperança, era que um peixe voador esbarrasse contra a minha janela acossada pela força súbita e em breve pretérita do vento. Apenas ouvi o som de uma porta a fechar-se com a robustez que as coisas repentinas sempre parecem possuir.
Acordei, abri a porta fechada e o vento calou-se.
AS COISAS QUE IMPORTAM



As coisas mais importantes são as mais difíceis de dizer: São as coisas de que nos envergonhamos, porque as palavras as diminuem - as palavras encolhem as coisas que parecem ilimitadas quando estão na nossa cabeça até ficarem de tamanho real quando são deitadas cá para fora. Mas não é só isto, pois não? As coisas mais importantes encontram-se demasiado perto do local onde está enterrado o nosso coração secreto, como marcos a assinalar um tesouro que os nossos inimigos adorariam roubar. E podemos fazer revelações que nos sairão bastante caras e fazer com que as pessoas nos olhem com estranheza, sem perceber nada do que dissemos. Isso é o pior, creio eu. Quando o segredo fica fechado cá dentro, não porque não haja ninguém para o revelar, mas sim por falta de um ouvinte compreensivo.


Stephen King
«Estações Diferentes» («O Corpo«)